18.11.08

um sol esquizofrénico



uma pessoa que não sabe o que quer

a noite é um líquido negro

caleidoscópios e complexidade, todos os dias

a existência parece-me uma neblina


o universo é um gás esquisito

a vida continua, apesar de tudo

limos e néons, ruas de aquário

seres contorcem-se por cima da terra

a as fossas do mundo, no seu chamamento


apesar de tudo existe luz

as pessoas sorriem por entre amigos

há outros sítios para onde ir

o mundo está cheio de gente

os automóveis fuçam na cidades

pássaro passando, radiação no ar

labirintos, labirintos, labirintos


a toca de um verme violento

os ossos a boiarem num sonho

o prisma de cores de isaac newton

uma janela com bactérias

aquilo de que somos feitos: isto.

3 comentários:

Dinis Lapa disse...

É, talvez, o poema dionisíaco que mais gostei. Gosto da forma como misturas ciência (ou algo assim) e poesia, luz e dor! Continua assim caro amigo.

Anónimo disse...

E vivó Newton!
Para o ano, é o ano dele!

Anónimo disse...

Uma Era para o poeta :)

A Era


Minha era, minha fera, quem ousa,
Olhando nos teus olhos, com sangue,
Colar a coluna de tuas vértebras?
Com cimento de sangue - dois séculos -
Que jorra da garganta das coisas?
Treme o parasita, espinha langue,
Filipenso ao umbral de horas novas.



Todo ser enquanto a vida avança
Deve suportar esta cadeia
Oculta de vértebras. Em torno
Jubila uma onda. E a vida como
Frágil cartilagem de criança
Parte seu ápex: morte da ovelha,
A idade da terra em sua infância.



Junta as partes nodosas dos dias:
Soa a flauta, e o mundo está liberto,
Soa a flauta, e a vida se recria.
Angústia! A onda do tempo oscila
Batida pelo vento do século.
E a víbora na relva respira
O outo da idade, áurea medida.



Vergônteas de nova primavera!
Mas a espinha partiu-se da fera,
Bela era lastimável. Era,
Ex-pantera flexível, que volve
Para trás, riso absurdo, e descobre
Dura e dócil, na meada dos rastros,
As pegadas de seus próprios passos.


Ossip Mandelshtam
(1923)



adriana :)