6.8.09

o escriba escrito





irrealismo crónico e profundo

textos todos riscados

aqui e ali uma palavra

espreitando através do naufrágio

inoculado de ódio


cérebro raiz de gelatina

por vezes nada se aproveita

a paisagem a enferrujar indefinida

ao longe disparos desconvictos

e ao perto a radiação


o sangue nos seus circuitos

os pássaros com vertigens

mais palavras riscadas

uma palavra a espreitar

o arame farpado de rasurados

é a génese do não-nascer


as palavras são muito pequenas

as letras, essas, minhocas

um verme humano portanto

a secretar segredos

e a debater-se na escuridão

2 comentários:

Anónimo disse...

"o arame farpado de rasurados"...
Muito bom! (e não só esta frase)

Beijinhos, miúdo giro.

conchinha

(pelos vistos, não era filtro... ontem foste um vírus durante a tarde)

Dinis Lapa disse...

Estou de volta a este admirável mundo dos blogues e deparo-me logo com este poema algo inquietante. Parece-me (e assim quero crer) que pensas aqui a escrita. Pensa-la com originalidade e toda a nova literatura deverá tomar isso como condição fundamental da sua existência. Ai os manuscritos rasurados... edição crítica.

um abraço daqueles fortalhaços.