Associação Cultural
Montar um texto por partes articuladas que faz um todo maior.


irrealismo crónico e profundo
textos todos riscados
aqui e ali uma palavra
espreitando através do naufrágio
inoculado de ódio
cérebro raiz de gelatina
por vezes nada se aproveita
a paisagem a enferrujar indefinida
ao longe disparos desconvictos
e ao perto a radiação
o sangue nos seus circuitos
os pássaros com vertigens
mais palavras riscadas
uma palavra a espreitar
o arame farpado de rasurados
é a génese do não-nascer
as palavras são muito pequenas
as letras, essas, minhocas
um verme humano portanto
a secretar segredos
e a debater-se na escuridão
mexo-me sem ossos, cidade líquida

ainda não nasci
rede de veias em redor
estrada deserta com solitude
a dissolução dos pensamentos
árvore fluída a desabrochar
tem sido difícil até aqui
duas tintas, duas escritas
vitelo desmanchado em quartos
um arco-íris perfeito em semi-círculo
um projecto que nunca se realizará
as dúvidas são como as bactérias
há planícies onde se envelhece muito
uma máquina de metal com dentes
o sol a pôr-se ridículo e fatalista
o destino é um escaravelho
e outros disparates românticos
alguma coisa a desfazer-se no horizonte
maré vazia, conchas nocturnas
os cavalos no jogo do xadrez
um gato a dormir ao sol
não cheguei a nascer
instabilidade emocional
a vida na plataforma continental
os microrganismos na água
uma casa inundada de algas
peixes a olharem cheios de terror
cardumes de pensamentos afogados
dormir no azul da prússia
com cabelos de mitocôndria
cinco dedos folhas de cada pé
uma pessoa a cair no chão
os ventrículos de um polvo
animais que vivem da filtragem
absessos de cérebro, cáries neurológicas
um grande tremor da personalidade
barco afundado de outras eras
o sangue transporta sais
fissuras na crosta terrestre
espetar agrafos nas pernas
os limos e outros pulmões
a vida quotidiana é insalubre

uma pessoa que não sabe o que quer
a noite é um líquido negro
caleidoscópios e complexidade, todos os dias
a existência parece-me uma neblina
o universo é um gás esquisito
a vida continua, apesar de tudo
limos e néons, ruas de aquário
seres contorcem-se por cima da terra
a as fossas do mundo, no seu chamamento
apesar de tudo existe luz
as pessoas sorriem por entre amigos
há outros sítios para onde ir
o mundo está cheio de gente
os automóveis fuçam na cidades
pássaro passando, radiação no ar
labirintos, labirintos, labirintos
a toca de um verme violento
os ossos a boiarem num sonho
o prisma de cores de isaac newton
uma janela com bactérias
aquilo de que somos feitos: isto.


acender uma vela
só para queimar tempo
o labirinto mete-se para dentro
aranha a morder o cimento das paredes
sonhar com uma noite bem dormida
grandes tijolos de agitação
vertigem com contornos confusos
obstáculos feitos de penumbra
estilhaços mentais, destroços mentais
agitação no escuro, sofrimento no claro
um dia incompreensível
jardim com arame farpado
ruídos, escavadora, cães
as metástases do barulho
flores conceptuais, pólen mecânico
degraus perplexos, passos perplexos
aviões sobrevoam-nos constantemente
estátua neurótica, mármore acordado
luz, e ruas, e realidade
oráculo atulhado de pedras
o dia é ser betonado vivo













há um segredo de cimento chumbo
emparedados vivos na vida
a alma é mortal e o sofrimento
o sol levanta-se, culpado de crimes
auto-estrada com nó na garganta
paisagem bonita mas só destroços
há mortos em todas as casas
a angústia é um filósofo doente
hoje passaram mais andorinhas
o gato dorme enrolado preto
a escrita de uma esperança desesperada
uma praia com pedras cancerosas
escoriações do mar com gaivota
era preciso... um dia... mais tarde...
noites submarinas, auroras em sarcófagos
em busca do tempo perdido
muros esquizofrénicos, paredes de kafka
o gato dorme preto e enroscado
recuso-me a aceitar esta vida
outros seres, outras galáxias...

a poesia é um sintoma, não a doença
a fragilidade do corpo em ansiedade
o mundo é cada vez mais uma auis raris
os gestos foram riscados do mapa
é tudo tão difícil, tão difícil...
o mundo despreza as pessoas
um ninho de ovos, crianças podres
o rosto a torcer-se em psicose
homem escolho derrubado com gritos
o coração é uma caverna convulsa
as paredes pinchadas de sangue
dar de comer lenha ao fogo
morfologia de monstros e de micróbios
o mundo não tem interesse nas pessoas
as comissuras da boca em desânimo
a traqueia estrangula-se de depressão
dantes não era tudo tão negro
já nem me lembro da vida
é no silêncio que o terror rebate o eco
o sol enferrujou no horizonte
e amanhã recuso-me a acordar
