5.1.09

em vez da ode marítima















instabilidade emocional

a vida na plataforma continental

os microrganismos na água

uma casa inundada de algas

peixes a olharem cheios de terror

cardumes de pensamentos afogados

dormir no azul da prússia

com cabelos de mitocôndria

cinco dedos folhas de cada pé

uma pessoa a cair no chão

os ventrículos de um polvo

animais que vivem da filtragem

absessos de cérebro, cáries neurológicas

um grande tremor da personalidade

barco afundado de outras eras

o sangue transporta sais

fissuras na crosta terrestre

espetar agrafos nas pernas

os limos e outros pulmões

a vida quotidiana é insalubre









4.12.08

Festa-Feira "Furacão Mitra"








::10 a 20 de Dezembro na INTERPRESS::

Rua Luz Soriano, 67 Bairro Alto
aberto de 4ª Feira a Sábado, entre as 19h e as 24h

26.11.08

elogio do plutónio








a quimioterapia
um pôr-do-sol inesquecível
um gato a dormir no estado líquido
cloreto de sangue, magnésio difuso

as cinturas de van allen
segredos, tabus, esconderijos
sismo provocado em laboratório
durante a noite, espasmos de luz
sonhos, pesadelos, perversidades

vestígios arqueológicos com ossadas
as flores a crescerem num labirinto
bomba à beira da auto-estrada
bolsas com tendência positiva
pulso torcido durante a escrita

o sorriso de uma jovem mulher
o número de passageiros total
derrame cerebral ainda operável
viagens em saldo, paraísos tropicais
a poesia é uma gravidez ectópica
uma pessoa com problemas mentais
um homem morto nos esgotos
e outras novidades editoriais

18.11.08

um sol esquizofrénico



uma pessoa que não sabe o que quer

a noite é um líquido negro

caleidoscópios e complexidade, todos os dias

a existência parece-me uma neblina


o universo é um gás esquisito

a vida continua, apesar de tudo

limos e néons, ruas de aquário

seres contorcem-se por cima da terra

a as fossas do mundo, no seu chamamento


apesar de tudo existe luz

as pessoas sorriem por entre amigos

há outros sítios para onde ir

o mundo está cheio de gente

os automóveis fuçam na cidades

pássaro passando, radiação no ar

labirintos, labirintos, labirintos


a toca de um verme violento

os ossos a boiarem num sonho

o prisma de cores de isaac newton

uma janela com bactérias

aquilo de que somos feitos: isto.

31.10.08

as paisagens solenes



canteiro com flores da retórica
céu de calcário, mesa de mármore
hélice aprisionada numa grade

o sapal das doenças
a floresta das bactérias
mão de radiografia a acenar

talvez seja possível não sofrer
pássaro de pedra, vôo profundo
a estátua derrubada de um mito
um jogo de ossos humanos
um carreiro com ervas e lua
sonhos de morte e decomposição
a taxa de suicídio deste ano
instalações portuárias, balança comercial
os valores acumulados da precipitação
o número de crianças subterrâneas
as vezes que o sol já nasceu

carcassa de noite com costelas
andar de um lado para o outro
talvez seja possível não sofrer
o fogo é um fósforo a arder

14.10.08

a insónia enquanto obra de arte


acender uma vela
só para queimar tempo
o labirinto mete-se para dentro
aranha a morder o cimento das paredes
sonhar com uma noite bem dormida

grandes tijolos de agitação
vertigem com contornos confusos
obstáculos feitos de penumbra
estilhaços mentais, destroços mentais
agitação no escuro, sofrimento no claro

um dia incompreensível
jardim com arame farpado
ruídos, escavadora, cães
as metástases do barulho
flores conceptuais, pólen mecânico
degraus perplexos, passos perplexos
aviões sobrevoam-nos constantemente

estátua neurótica, mármore acordado
luz, e ruas, e realidade
oráculo atulhado de pedras
o dia é ser betonado vivo

5.10.08

naufrágio próprio




a geometria entre as pessoas
esta sombra já é de ontem
o cérebro líquido da electricidade

emoções ferrosas, a terra intensa
não ter paciência para nada
os afluentes do álcool na cabeça
a constipação dos pensamentos

o sol está a pôr ovos
cicatrizes na pele da mesa
os telhados suspiram, doentes de morte
a resistência dos materiais

gritos microscópicos, serpentes,
animal com farpas no dorso
uma caixa cheia de sal
pomares com fruta e venenos
uma pessoa a debater-se

uma praia em convalescência
um canto totalmente ao calhas
bolbos, fungos, erupções,
silêncio com toneladas de água

e eu a afogar-me ao longe

16.9.08

NOVO CURSO de ESCRITA

Sociedade Guilherme Cossoul
Curso/Workshop/Oficina/ Atelier
de Escrita Criativa
Outono de 2008
por joão rafael dionísio

(7 aulas de 2,5 horas= 17,5 horas)
120 não sócios, 100 sócios
de 6 de Outubro a fim de Novembro
segundas, das 19.30 às 22horas
Av. D. Carlos I , nº 61, 1º Andar
em Santos, Lisboa
Telefone: 21 397 34 71


Objectivos do curso:

· Despoletar a criatividade
· Melhorar a expressão escrita
· Desenvolver capacidades linguísticas
· Exprimir o mundo interior
· Partilhar saberes e cultura


A quem se destina:

A todos os que tenham interesse em desenvolver processos criativos no âmbito da palavra escrita, tanto numa perspectiva de desenvolvimento pessoal como na perspectiva de quem aspira a construir uma obra.

Modo de funcionamento:

As aulas funcionam com breves exposições teóricas sobre vários temas seguidos da apresentação de enunciados e da sua resolução e discussão.



Estrutura do Curso

I Parte (a palavra lúdica)

1) Apresentação. Brevíssima História da Escrita e do Livro. Interpretação de manchas tipo Rorschach. A proto-Frase. Exercícios de Escrita Automática.

2). Exercícios de Escrita Automática. Listagens. O Sintagma Nominal. Intersecção de Campos Semânticos.

3). Definir palavras. Léxico e Morfologia. Criar neologismos.

4). Fraseologia (Maximalismo e Minimalismo). Outros Exercícios.

II Parte (narrar e criar)

5). Interpretar as pessoas (imagens). Esboçar enredos.

6). Exercício de Percursos. A utilização de Arquétipos.

7). Narratividade e Personagem. Esboçar situações de enredo com ajuda da cábula da tipologia de Propp. Reflexões finais. Entrega dos Diplomas.




9.9.08

notícias do labirinto


notícias do labirinto

as gaivotas gritam hienas
o jardim sonho dos peixes
o fogo lento, réptil vermelho
grânulos de luz contra a parede

cortinas grandes, o teatro da infância
sonhos, o vento, e as heresias
céu ferrugento, nuvens como musgo
campânulas de voltar ao passado
cotovelo de estrada, braço de mar

ir por muitos caminhos ao mesmo tempo
envelhece-se todos os dias
flores frias, notícias do labirinto
estrelas subterrâneas, janelas e corredores
a pulsação do sangue nas carótidas
som suspenso de automóvel ausente

abres a boca e lá dentro “labirinto”
mitos e ovos de vermes ninho cova
os caminhos que se rectangularizam
a inconsciência do centro
um vulcão é uma janela
as veias do mundo

31.8.08

haiku 1.1

abro o frigorífico
o peixe morto
olha angustiado

27.8.08

o esqueleto de zeus


campos de cereais são metálicos
o ofício obsoleto mas arcaico da poesia
acidente rodoviário
a caixa das costelas carbonizada

holofotes de luz suspensos no medo
ratos a resolverem labirintos
machado com gume de lua

caleidoscópio de bactérias
organismos vivos, organismos mortos
espectros, muros, visões
borbulhas de electricidade

natureza morta com deus menor
sol de hidrogénio, lua de pedra
máscaras, tótens, subterrâneos
suspensão de cabeça do avesso

arqueologia do primeiro eu
dissecar um fantasma~
as raízes do cérebro
aleatório deambular
ventoinhas a girar no cimento
o infinito é uma lemniscata

eu e a joana na praia das furnas


19.8.08

orações insubordinadas




crepúsculo infra-humano
sussurros em forma de pântano
caveira e flores sobre tela
sangue de silício, inflorescências
uma estátua feita de raiva, paúis
estuários, paisagens planas,
perturbação vertical encorpada

guindastes de fibromialgia
pessoas a agredirem-se verbalmente
uma casa inchada de mortos
antigos combatentes a pedirem pelo chão

armas num céu de nuvens
a espécie de autismo que é escrever
palmeiras de congestão, céu vomitado
insqueiro e perfume ao lado de livro
pessoas felizes na rua passam

circuitos electrónicos, o sangue octogonal
batráquios exdrúxulos e divertidos
harpa, regato e luz no bosque
gemidos extraterrestres, nós rodoviários
a poesia está num país inacessível

11.8.08

quartzo profundo


o alfabeto da memória
beber chá e acreditar no futuro
fungos agigantam-se na escuridão
noite rebitada ao passado melancolia
o canteiro onde florescem traumas
ondas obsoletas nas falésias

o caminho sobe sofre sempre
destroços antigos, náufragos fantasmas
a morte afogada de boca aberta

a sobrevivência dos mais fortes
a vida depois da morte
os dias são covas no espaço-tempo
praças metafísicas sem ninguém
cavalos e bispos, damas e valetes

luz com dificuldades em falar
objectos voadores não identificados
a inteligência neurótica de um remoinho
costas curvadas debaixo das recordações
a dificuldade em desaguar
primaveras rochosas, verões de granito
e, por isso mesmo, o quartzo profundo

31.7.08

nervos e esperança


hoje não me apetece estar triste. Nem me apetece ser sepultado pela depressão. Há muitas coisas boas na minha vida. Não encontrei Cristo nem nenhum outro deus estropiado que me desse sopas soteriológicas. encontrei-me tranquilo, pelo menos hoje, ao menos hoje.
gostava de ajudar os outros. vou-me virar para os amigos e para as amigas e tentar contribuir para que eles aguentem melhor a existência. Não tenho jeito para madre teresa ou qualquer outra bizarria, no fundo tão perversa, egoísta e psiquicamente doente. amanhã vou estar com pessoas porque sozinho passo-me completamente da marmita.
não sou nenhum deus, gostava é claro, cada um de nós tem em si o sonho totalitário de ser deus, sou apenas um ser humano limitado e cheio de defeitos mas ao mesmo tempo cheio de capacidades e de projectos e de sonhos de coisas para realizar.
já sofri psiquicamente muito. talvez venha ainda a sofrer no futuro. porque temos que morrer teremos sempre de sofrer algures no futuro nem que seja na hora da nossa morte. mas pensar nisso não serve de nada. é melhor nem tentar pensar nisso. estava eu a dizer que já sofri psiquicamente muito mas que quando isso acontece me torno mais narcisista e é tão esquisito e empobrecedor sofrer.
a minha arte, a da escrita, está cheia desses sentimentos transtornados. não sei porque se escreve melhor quando se está triste ou doente dos nervos, regra geral escreve-se bem melhor do que quando se está bem. talvez porque (eu pelo menos gosto de pensar nisto assim) a arte funciona como uma auto-terapia, terapia esta que pode muita vezes não resolver nada mas muitas pelo menos serve como paliativo, o que já não é nada mau. quando se escreve a palavra “suicídio”, pelo menos, não estamos nesse instante a dar vida a essa palavra, e estamos a delegar para o papel esse horrível pensamento. muitas vezes me apeteceu, levianamente talvez, matar-me e outras tantas me apeteceu matar as pessoas que encontro na rua ou que conheço. não sou nenhum santo idiota para fingir que não tem maus fígados de vez em quando.
não temos obrigação de estar sempre felizes. temos direito a estar revoltados ou tristes ou a ferver de raiva ou outra coisa qualquer. e também temos o direito de, até por aceitar estes nossos estados, fazermos um trabalho psíquico sobre eles. tentando nos conhecer menos mal, para nos aceitarmos um bocadinho mais. para tentarmos sair deles. sabe-se lá de que maneira. não, não há nenhuma razão metafísica para sairmos deles. somos nós sozinhos com a nossa condição humana. não devemos censurar totalmente aqueles que só conseguem lidar com isso com deus ou com outro tipo de estupefacientes. somos todos caguinchas quando toca a existir. e, em termos de viver é sempre mais fácil deixarmo-nos derrotar. deixarmo-nos comer pela depressão tem qualquer coisa de protector, ficamos regressivamente no nosso casulo de tristeza.
se calhar temos que a obrigação moral, perante nós próprios de tentar agir, de tentar melhorar a nossa vida, de crescermos espiritualmente. porque sim, sem qualquer justificação metafísica ou qualquer religião grotesca e paranóica como a do nazareno...
mas porque é que existimos? ninguém sabe. ninguém me responde a esta questão. ah, que se foda, quero é viver!...
de qualquer das maneiras a esperança é uma palavra gravemente foleira mas eu estou-me completamente a cagar que seja foleira porque hoje, ainda que seja só hoje, tenho esperança.

23.7.08

o túmulo de um deus


falésias apinhadas de electricidade
um homem numa caverna
tocando saxofone
o coração está suspenso
entre o horizonte e o sonho
dedos investigam a areia

o ser para a morte
desenhos e riscos acerca de nada
um cargueiro que agoniza no porto
arco-íris e limão sobre sarcófago
duas ou três luas submarinas
solenes palmeiras, quilómetro a quilómetro
convalescença com figura humana
nunca chegar a conhecer
perder os tornozelos, abdicar
laranja, nascer do sol, túmulo

medo das doenças
tantos caminhos, tantas soluções
cornijas, albatrozes, raízes,
respirar antes do sonho
levitar por cima dos prédios
desistir para poder descansar

3.7.08

autoretrato


evocação de luis miguel nava


Poucos poetas são tão impressionantes como Luís Miguel Nava. A maior parte da poesia no mundo é aborrecida, desinteressantes ou produto da estética de uma alforreca. Outra tem por trás "belos sentimentos", mas como diz Harold Bloom, algures no "The Western Canon", o mundo está cheio de maus poemas com bons sentimentos. De qualquer não sei se a poesia de Nava fala de sentimentos, às vezes nem sei do que fala. Não é uma poesia em que o sentido seja o fulcro da poesia. É qualquer coisa mais. Ou menos. É uma força na linguagem. Um corpo de escrita que se contorce e grita à nossa frente.
Como escreveu Gastão Cruz no prefácio a "poemas": trata-se da única presença verdadeiramente forte e diversa afirmada no panorama português dos anos 80." [1]
A morte fecha-se sobre o autor para completar a obra. Só com a morte é que a obra está completa e mesmo assim talvez não, que uma obra viva continua a atrair sobre si textos e comentários que nunca a chegam a explicar, como é o caso deste texto. A leitura dos poemas de Nava tem sobre si essa terrível sombra: a da sua morte. Uma morte violenta, quando o poeta era adido cultural em Bruxelas, tendo sido encontrado morto e amarrado a uma cama e esfaqueado furiosamente. O que é mais bizarro é a sua poesia parecer ser uma profecia desse acontecimento. (e, como todas as profecias, é só concluída agora, à posteriori). Há uma sentença dele que reza assim: "Desnudarmo-nos é pouco, há que mostrar as vísceras". E que é corroborada anteriormente no texto/poema "xadrez": "Trazem então consigo uma vontade imensa de jogar, de abrir de novo as vísceras, mostrar por dentro o corpo, esse magnífico xadrez de que o trabalho dos meus órgãos equivale à sucessão dos lances". Por vezes quadros semelhantes são construídos de uma forma quase nietzchiana, quase podemos ver o Zaratrustra neste inesquecível trecho: "Dancei num matadouro, como se o sangue de todos os animas à minha volta pendiam degolados fosse o meu".
A presença constante das entranhas, das vísceras, que às tantas funcionam como uma interrogação acerca do próprio corpo, porque nós não vemos para dentro, porque o interior do nosso corpo é como o chão do fundo do oceano, a despeito da propaganda da anatomia médica que diz que todo o território interior é conhecido e cartografado. O que são as entranhas? O desconhecido, o interior, o por desvendar.
Sim, porque muitos dos seus poemas não são semioticamente alinhados à esquerda como é costume para se identificar os poemas. Muitos deles são em formato de pequeno texto em prosa mas as suas qualidades estilísticas, temáticas e linguísticas facilmente nos indicam que estamos perante um poema. Não é preciso saber nada de estudos literários para reconhecer a poesia onde quer que ela se encontre. Devo falar de uma qualidade que é característica dos textos deste autor: a da brevidade. Há uma depuração profunda nos seus textos, embora tenham uma reverberação expressionista, lembrando obrigatoriamente a pintura de Francis Bacon. Essa depuração é estranha. Porque parece que assistimos ao mesmo tempo a uma poesia de grande irrupção verbal mas ao mesmo tempo aparada por uma grande consciência da linguagem, lembrando a liçãodos poetas da "Poesia de 61", com o seu cultivo verbal auto-consciente. O seu profundo sentido do texto como objecto linguístico.
Só o título de um livro seu, "O céu sob as entranhas", é impressionante. O que é que um título destes quer dizer? É uma afirmação carniceiramente teológica? Deus debaixo de uma formação meteorológica de vísceras? Ou o mundo sublunar como cloaca máxima?
Num dos seus livros a depuração chega a um extremo, é na "inércia da deserção", em que os poemas nos aparecem já só como esqueleto. Despojados de toda a carne das palavras que ainda restava. Tornam-se assim textos próximos do Haiku, numa brevidade e densidade absolutas: "... como se a manhã me tivesse escolhido a mim para tomar consciência de si própria."[2]
Há movimentos de humanização de elementos inanimados que chegam ao grotesco, numa indiferenciação entre o interior e o exterior do corpo, como se as fronteiras não fossem a pele mas algures mais longe ou algures mais perto, uma espécie de esquizofrenia do corpo, o corpo pode estar algures, o nosso ou o de alguém. "um dia olhando o sol, deu conta que nele tinha os ossos mergulhados". "A pele ia imitando o céu como podia". "A sua carne exercia aliás uma enigmática aração sobre as estrelas, qu eem breve conseguiu assimilar, exibindo-as, aos olhos de quem o não soubesse, como luminosas cicatrizes (...)".

...mar, pele, coração, entranhas, memória...

Mas deixemo-nos de garatujar palavras sobre ele e deixemos o poeta falar:

"Entranhas

O céu descaí; agora que alguém fez
dos nossos corações refinarias,
o fumo irrompe dir-se-ia
que cheio de emoção das chaminés.

Aqueles a quem servem de entranhas as da terra
mal podem deslocar-se; até já não
haver céu contra o coração,
sobre eles põe subterrâneas nuvens o petróleo."



Esta evocação do poeta foi feita com base nestes dois livros:
NAVA, Luís Miguel Nava, "O céu sob as entranhas", Limiar, Porto, 1989.
NAVA, Luís Miguel Nava, "Poemas", Limiar, Porto, 1987.

[1] E, diria eu, nos anos 90 talvez a única voz particularmente interessante seja a de Jorge Sousa Braga ou Walter Hugo Mãe, mas isso não vem agora ao caso.

[2] não deve ser por acaso que um dos poucos autores citados nos poemas de Nava seja Bashô.

24.6.08

a lei dos grandes números


a clareira nos pinheiros
sol quente cheirando a caruma
ao longe uma praia ilesa

pessoas-monstro nas mesas
a alma esfaimada dentes
rodar um dado milhares
angústia carcoma nos músculos
os números são altares
o mundo, o mundo, o mundo

as pessoas nos seus afazeres insectos
esta janela, esta fera própria
polvos de mármore, ruínas da lógica
cambalear a existência por dentro
sinusite nos pensamentos
areia de pé

rodar o dado
a lei dos grandes números
a única certeza é o acaso
pássaros nucleares, o canto fosforescente
as cavernas que há na terra
inconsciente, angústia e existência
rodar outro dado

21.6.08

o desconcerto do mundo


um deus cruel e vingativo
incêndios desarrumados pelo subúrbio
labirintos, profetas, apocalipses
luzes no alto mar, batiscafos

são sempre problemas
viver noutro tempo, noutro sítio
arqueologia do impossível
ossadas de esperança, cervical
o mundo está tão estúpido

vem aí uma nova maré de superstição
e de violência e de linchamentos
por todo o lado há flores
mesmo quando mortos polenizam

utopia morta
nem sequer se chegou a sonhar
já não há começos, só publicidade
sem nenhum sítio para ir
as grades e agonia onde vivemos
há estátuas ainda de pé
enraízadas em acontecimentos podres

a maior parte das pessoas desiste

17.6.08

agradecimentos

olá, eu sei que se calhar é foleiro, mas queria agradecer a todas as pessoas que foram ao lançamento do "cadernos de fausto" e ainda foram algumas.

primeiro e principalmente à Joana Barroso por todo o seu apoio erótico-psicanalítico.
ao marcos farrajuto por ter cozinhado o livro
ao joão que fez a paginação, ao maio pinto que transformou a capa num ponto.

especialmente ao David Soares, esse fantástico escritor, que fez uma apresentação de rara inteligência. gostei particularmente do profissionalismo dele, os papelinhos com notas no meio do livro, as afirmações sustentadas no texto, muito abonatórias, algumas que me fizeram até inchar de vaidoso. Aos amigos dele e à miúda dele.

à Joana Figueiredo, à Marta, ao Filipe Abranches, à Ana Menezes
À Carla Delgado e ao namorado dela de que não me lembra o nome.
Ao Dinis Pires
Ao João Silveira
às minhas amigas Vanessa e Xanda, umas pessoas bestiais, e à amiga delas.
Ao poeta Jorge e ao amigo dele.
Ao Daniel antropólogo, uma vez tivemos uma conversa sobre o fausto no "estádio" que me tranquilizou. Eu estava a querer explicar-lhe o mito de fausto e depois acabei por capitular dizendo "em rigor não sei muito bem como é isso do mito de fausto", ao que ele me respondeu que "é essa mesma a essência dos mitos, terem um núcleo nublado". Queria ter falado disto e de uma ou outra coisa na apresentação mas só fui capaz de me desenrascar improvisando uma performance...
Ao Pedro Ramos, à Cátia Azenha, ao Manuel dos Reis
Ao amigo da Biblioteca Silva Dias.
à Natacha e ao marido que também apareceram

Faltava agradecer à Almedina, nas pessoas emíricas e concretas do Duarte e ao Paulo Marcos, esse grande pirata de alto mar.

A todos os amigos, obrigado. Devo-vos existir enquanto escritor. Eu sei que isto é uma piroseira mas eu sou um sentimental. (o fausto é que é uma besta eheheh).

1.6.08

LANÇAMENTO DO LIVRO

O livro CADERNOS DE FAUSTO
vai ser lançado, se deus quiser, no dia 14 de JUNHO, SÁBADO,
pelas 18horas

na Livraria ALMEDINA ao Saldanha.

Irá apresentar, se deus quiser, o ilustre escritor DAVID SOARES.
APAREÇAM vai ser uma bomba.

9.5.08

estrelas desorganizadas




caminhar no escuro é automóveis
um cão morto, um saco do lixo
sonhos, ufologia, relicários
cravar cigarros a desconhecidos

emparedados em casa
tomar muitas vezes banho
os astros foram perturbados
ao fim de tantos prédios
esquina pintada de cidade
a morte a ferver na panela

água a escorrer das rochas
o mar de ondas tranquilas
música com silêncios significativos
céu esponjoso, muro branco
gaivotas planam latindo
a lua nasce, finíssima e deitada,
bêbados aos montes, aos gritos
mais que verme, menos que cão
a paisagem desanimada de árvores
passam pessoas muito felizes
largas caminhadas para estafar o desespero

o sol parece forte
mas tem cancro

21.4.08

nervos e esperança




aproximam-se serpentes e dificuldades
céu muito nebulado, períodos de chuva
corais no naufrágio doméstico
morbilidade psíquica e escombros

depois do terramoto, antes da casa
gruta com gigante cego
um cão a ladrar suspenso no passado
fui visitado por um ser sem forma

devaneio, asas profundas, gambito
a alucinação está nos fragmentos líquidos
armadilhas de ansiedade, kafkianas,
espasmos corporais com luxúria
mulher e refúgio de abrigo
um pedido de ajuda

nevoeiro de mármore, mar de metal
estilhaços derretidos do que se vê
perplexo frente ao poema
os segundos enormes do nervosismo
uma baía cristal noutro mundo
a porta, a morte do infinito,
a saída do labirinto
e o sol a explodir constantemente

3.4.08

nevoeiro clorídrico






há um segredo de cimento chumbo

emparedados vivos na vida

a alma é mortal e o sofrimento

o sol levanta-se, culpado de crimes

auto-estrada com nó na garganta

paisagem bonita mas só destroços

há mortos em todas as casas

a angústia é um filósofo doente

hoje passaram mais andorinhas

o gato dorme enrolado preto



a escrita de uma esperança desesperada

uma praia com pedras cancerosas

escoriações do mar com gaivota

era preciso... um dia... mais tarde...

noites submarinas, auroras em sarcófagos

em busca do tempo perdido

muros esquizofrénicos, paredes de kafka

o gato dorme preto e enroscado

recuso-me a aceitar esta vida

outros seres, outras galáxias...


15.3.08

exercício de diagnóstico




a poesia é um sintoma, não a doença

a fragilidade do corpo em ansiedade

o mundo é cada vez mais uma auis raris

os gestos foram riscados do mapa

é tudo tão difícil, tão difícil...



o mundo despreza as pessoas

um ninho de ovos, crianças podres

o rosto a torcer-se em psicose

homem escolho derrubado com gritos

o coração é uma caverna convulsa

as paredes pinchadas de sangue



dar de comer lenha ao fogo

morfologia de monstros e de micróbios

o mundo não tem interesse nas pessoas



as comissuras da boca em desânimo

a traqueia estrangula-se de depressão

dantes não era tudo tão negro

já nem me lembro da vida

é no silêncio que o terror rebate o eco

o sol enferrujou no horizonte

e amanhã recuso-me a acordar


12.3.08

les villes tentaculaires



muros sujos com dizeres
embriões de cimento, cadáveres de ferro
mendigos avulso pelo chão
automóveis acidente vascular cerebral

janelas de ansiedade, telhados de eczema
tijolos com o cimento da paranóia
muros dividindo áreas mutantes
a barriga do esgoto esnavalhada
opressão na malha urbana

cérebro labirinto em malha viária
rótulas de cimento escancaradas
postes de alta tensão, andaimes,

centros e periferias
baldios suburbanos e torres
vertigens arquitectónicas e poder
formigar nas ruas emparedado

vizinhos-telescópio e relatórios
volumes projectados dramaticamente
doença pós-industrial generalizada
cancro urbanístico e os brônquios

os taipais das obras
a minha revolta

3.3.08

free jazz



trompetes a patearem gritos

relógio gigante com segundos maiores

batuque rolamento

miado rosnado como chicote


piano hertziano

aplausos com fumo

incoerência, escudo, uma posição

grande vitalidade e velocidade


palmeiras esquizo-acústicas

os músculos em ansiedade

uma imagem da melancolia (de dürer)

elefante-pandeireta no palco

suavemente labirinto-memória


a ergonomia de quem está a escrever

una tonteria

uma cápsula no espaço-tempo

armadilhas e dualidades


uma grande revolta no horizonte-mar

choques entre instrumentos

e a descida em carris de ferro.

15.2.08

bairro alto

olhos esbugalhados de cerveja

conversa histróinica e incorente

mesas para fumadores

andaimes de metal na noite

empurrados pelo vento tempo cronos

grupos desnorteados a palrar

as ruas descem ao rio

as prisões estão completas

táxis passam

os sonhos foram desbaratados

as ruas cambaleavam fachadas

um jovem homem aos berros

as luzes da cidade como archotes

o dia de amanhã é um vórtice

as mesas são quadradas

uma parede de gente ruidosa a rir

a minha inquietação de sempre

o medo do que está no futuro

16.1.08

teoria da vegetação


uma oferenda a uma fonte
ramos de folha caduca caídos
outra oferenda: cachaça e encruzilhada
uma nuvem a passar entre as árvores
magníficos cogumelos, um pneu

chão de alcatrão com musgo
a meditação calma dos troncos
as árvores mostram os músculos
alguns ramos piam pássaros

análises periódicas
uma tampa de garrafa de uísque
cascas de laranja e papéis
afloramento de raízes dendítricas
uma corda com baloiço
um carreiro através da densidade
um local abrigado para sentar

passagem para um lado igual a este
o mar na copa das árvores
de costas para a realidade
o chão tão molhado como a noite
difícil de dizer
o derrubamento

23.12.07

a água paralisada

banco com sombras de palmeira
um casal de mulheres abraçadas
ciganos sofisticados com cão
linha litoral pesada de prédios
quartos, rooms, zimmer, chambres

canavial destroçado em água
o dia através dos óculos escuros
garrafão verde vazio

espaço aberto
marina com barcos e baldios
grupo de pessoas a rir
mulher muito pintada com carrinho e bebé
as gaivotas a contarem anedotas

flores cor de laranja com pólen
o eco dos passos na urbanização deserta
senhora doente em cadeira de rodas
a água paralisada

proibida a entrada a estranhos
olhar para o chão: o carreiro
dunas com vegetação típica
chão de conchas partidas
e agora, outra vez, o mar

introdução à metafísica

coisa de madeira com escadas
antes do sol se pôr
viatura ao longe
praia muito grande
falésias de arenitos
o barulho calmo das ondas

levitação
gruas ao longe puxando prédios
sentado a escrever
flocos de neblina marchando
a tinta é azul

senhor de idade olhando
um cêntimo enferrujado
marcas de pneus
o dia dentro de uma caixa

a metafísica
ténis, calças de ganga, t-shirt
um nome escrito na areia
um bocado de esferovite
atravessar este obstáculo
agora já deve ser tarde

20.12.07

doenças venéreas nas paredes
o coração das conchas
um grito ao longe
o fogo numa caixa
três espirais?

ao meio dia, um deus
gente cansada no comboio
animais parciais

o mesmo quarto mas ontem
um poema fóssil
uma pata de uma animal longínquo
a praia tinha sol mas pessoas?
aquele mar maior

"segredos , sebes, aluviões"
o universo sentado
encontrar um livro
a atenção pescoço curvado
a rótula está dorida
uma ossada, um uivouma brincadeira?
lajes de pedra escutam-nos

4.12.07

vinte e uma coisas


01. sujeito com caderno.
02. um rádio com música clássica nos seus circuitos ferrugentos.
03. dores musculares mas muito ligeiras.
04. quarto com graffitis nas paredes.
05. cortinas brancas.
06. o sonho de ontem.
07. um livro sobre símbolos.
08. migalhas de lenha no chão.
09. quadro vermelho de rosto pesado.
10. a deslocação do ar lá fora.
11. a morte a dormir no seu ninho.
12. saco de boxe pendurado com corrente.
13. uma ansiedade sem forma.
14. coluna vertebral.
15. guarda-fato de madeira altivo.
16. micro fungo entre os dedos dos pés.
17. a respiração a passar nas narinas.
18. uma vela acesa.
19. uma girafa de madeira sem cabeça.
20. o tecto pisado pelo tempo.
21. uma caneta com palavras diluídas na carga.

14.11.07

várias mãos

está a dar steve reich
no meu radio antigo

tenho algum frio
nas orelhas

escontrei um cabelo
da minha namorada
solrengo do verão passado
encaracolado nos meus dedos

puz um círculo de velas
para dar força à escrita

alguns dias tenho esperança
outros não

(tenho os ossos ainda de leite)

gosto de guiar
furando a noite

estou tão cansado
que não consigo dormir

este é um dia de outubro
ainda

tenho resistência
em viver comigo

vi uma raposa morta
apeteceu-me trazê-la
para casa
mas não tive pena dela
porque era bonita

31.10.07

os meus pensamentos


meu cérebro
está-se a espalhar pelo corpo
sombra de uma
metástase


o meu cérebro
tem fome de fibras
e veias e válvulas
e vai-me comendo,
por dentro


(a psiquiatria
chama-lhes "depressão"
os clássicos chama-lhe "melancolia"
eu chamo-lhes
"morrer aos bocados"
lentamente
e aos bocados)


o meu cérebro
é um canibal que pensa

27.9.07


amanhã vou à serra de sintra.
estive por lá a passear antes de ontem à noite com um bom amigo. e lá no alto da serra havia uma nuvem enorme que estava por entre as árvores.
os altos da serra estavam submergidos por aquela nuvem. e o nevoeiro mete-se por entre todos os troncos e faz chover as árvores. e o nevoeiro é sempre tão denso que faz com que as árvores, unanimemente, tenham longos cabelos de algas.
e, por isso, de noite, com uma luz lua encharcada e submarina, temos a plena percepção de não estarmos numa floresta húmida à noite, mas antes num aquário nocturno por onde se passeia o sonho...

26.8.07

a praia da adraga e eu

como eu,
o mar está fratricida...
(o mar é um homem revoltado)
entre a bruma de outubro
e as rochas batidas pelo sal,

a luz prateada e ofuscante,
a maré esvaziada de vontade,
e os penhascos em volta
espetam a barriga do vento,
a maré vazia cheira intensamente:
cheira a hiperbóreas regiões

o mar sorri-me aos trambolhões
como se estivesse bêbado e neurótico
a esmagar a cabeça contra a parede

e eu sou um animal revoltadonuma jaula
(firo-me nas grades ao arriscar sair)
mas se me quiseres ajudar,
podes ter a certeza:mato-te.

a aurora e a ressaca

os pássaros piavam percutindo na cabeça
os pássaros piavam, como se árvores fossem
excrescências; excrescências vivas a chiarem
pássaros percutindo e os troncos dentro
os troncos dentro e o sol atrás das casas

a aurora era um monstro deficiente
como se os cotovelos das árvores desatinassem
desatassem a piar, e os joelhos das aves
piavam bicadas na sua cabeça
e os pássaros subiam para cima do sol
como ratazanas

a aurora levantava-se e isso humilhava-o,
como se fossem pássaros, como se cotovelos,
como se as árvores excêntricas e o caule,
eram aves-árvores e o dia a levantar-se,
trepando casas, para cima das casas:
o céu do horizonte recortando-se nos telhados
e os telhados a piarem ódio e sol

e os pássaros subiam para cima do sol
como ratazanas em cima do céu
a aurora levantava-se, a cabeça
como uma noite no horizonte,
e o astro-rei começava aos gritos
desnorteado.







nota: estes dois poemas são de 2005, para um livro que não cheguei a escrever. Ir-se-ia chamar "ciclo do carbono".
Rafael Dionísio.

27.7.07

a nossa livraria!





Inauguração este Sábado, dia 28, às 18h, da livraria Book'n'Shop, projecto em parceria com a Thisco e a galeria Work'n'ShopO projecto Book'n'Shop surge de urgência pois vivemos tempos em que as livrarias estão mais preocupadas com livros Pop ou de Elfos - aliás, as livrarias de "livros normais" nos dias que correm conseguem ser ainda mais folclóricas que as lojas especializadas em bd sobre as quais se ridicularizava por serem lojas de "nerds", vulgo, consumidores de super-heróis e estatuetas de super-gajas com super-mamas e super-armas. Dada decadência e falta de incentivo quer das livrarias normais quer das lojas especializadas, há muito que a CCC desejava partilhar um espaço onde as suas publicações e as dos seus associados pudessem ter o destaque merecido. Aliados à editora de música electrónica Thisco e à galeria de arte Work'n'Shop, onde aliás se situa a Book'n'Shop, é com gosto que convidamos à inauguração da livraria onde poderá encontrar a cultura obscura e vanguardista que necessita e que não encontra noutros sítios. Para que fosse ainda uma capital europeia, Lisboa precisa de um sítio onde se encontre temas como Art Brut, bd alternativa, Culture Jam, Street-art, Shamanismo High-Tech, Ocultura, Zines, livros de autor, e editoras de referência como Re/Search / V-Search / Juno, Le Dernier Cri, Media Vaca, Desinformation, Feral House, Canicola,... e a MMMNNNRRRG, Imprensa Canalha, El Pep, Opuntia Books,... e claro, a Chili Com Carne.

16.7.07

isto sim, é poesia!!

1. Nf3 d5
2. c4 d4
3. e3 d3
4. Qb3 Bf5
5. Nc3 b6
6. e4 Bg4
7. Ne5 Bh5
8. Nxd3 Nf6
9. Be2 Bxe2
10. Nxe2 Nxe4
11. O-O e6
12. Ne5 Nxd2
13. Qb5+ Ke7
14. Rd1 Nf3+
15. gxf3 Qxd1+
16. Kg2 Qxe2
17. Be3 g6
18. Bg5+ f6
19. Qb4+ c5
20. Bxf6+ Kxf6
21. Qc3 Qxe5
(as brancas desistem)

6.7.07


a lua tenta arrancar do horizonte,

vermelha e grávida de si própria

poema á duração (depois de peter handke)

os ponteiros do relógio
são gotas de chuva

a casa é grande, não assombrada,
cheia de gritos vindos da infância
e espartilhos morais

debruço-me com cabisbaixo
sobre as páginas escritas

e vez em quando olho-me
naquele espelho pequenino,
faz anos que isso faço

o espelho é aquele
rio de heracilto
pendurado na parede
embora eu sinta e seja
tudo na mesma
(um homem derrubado)

27.5.07

luís, leonor



entretanto em casa de lúis, leonor e luís esqueciam o mundo depois de um jantar leve mas apiparalhado com uma becazinha de tinto de qualidade e de conversas intimistas. ambos olhavam um para outro. nota-se cientificamente que ambos os indivíduos estão disponíveis para acasalar. ela várias vezes desvia o olhar dele, simulando vergonha, numa atitude mista de consentimento e vergonha forjada, cumprindo assim o seu papel de fêmea na economia do processo da procriação. finge que foge ao seu olhar para mais estimular o instinto de caça no homem. para ele sentir a adrenalina subir ao perseguir a sua presa. ele sente-se a ofegar baixinho como se fosse um pobre sepultado debaixo de uma laje de betão. ela olha e entreabre ligeiramente os lábios que resplandecem de vermelho, que se colam e descolam um ao outro. os seus lábios parecem inchados, riscados de vermelho, morfologicamente vaginais. luís sente o seu pénis a palpitar ligeiramente emocionado.
tecnicamente são o objecto de desejo um do outro e a sensação subjectiva de prazer e bem-estar aumenta o instinto do acasalamento.
invisíveis hormonas transudavam dos corpos dos amantes e os receptores nasais capturavam-nas e enviavam a mensagem ao cérebro: o outro está disponível. informações secretas de desejo imiscuem-se sub-repticiamente nas mentes dos dois namorados. em ambos os sexos os mamilos tornam-se erectos. e na mulher há um aumento do seio até um máximo de 25 % do volume inicial. luís e leonor tocam-se inicialmente nos ombros e nas mãos, nos braços, enquanto se beijam. posteriormente as mãos, órgãos sensoriais do tacto por excelência, iriam percorrer outras zonas do corpo menos tocadas socialmente. este contacto é acompanhado pelo beijo, primeiro com os lábios fechados, explorando-se mutuamente, e posteriormente língua-língua, língua-lábios, o que provoca nele a congestão dos corpos esponjosos e cavernosos. esta dilatação do seu sexo quase lhe provoca desconforto. por sua vez também o clitóris de leonor aumentou de volume. o próprio útero de leonor se irá expandir a um máximo de 50% e mudar a sua inclinação de modo a tornar mais fértil o aparelho genital feminino. os grandes lábios também aumentam e os pequenos adquirem um tom vermelho tipicamente sexual, algumas veias aparecem à superfície da pele dos seios. por baixo arfam dois pulmões que, devido à excitação e aumento do metabolismo, ingerem oxigénio para levar á célula mais carburante.
luís agora agarra-lhe com uma pata pelo pescoço, por trás, e entra-lhe com a língua na boca, como se fosse uma oclusa derrubada. a erecção torna-se macroscopicamente observável aumentando o volume do pénis e a sua cor. luís abre a sua braguilha exibindo o pénis à sua parceira. manifestação inequívoca de que está pronto para seguir para a fase do coito. segura o doce membro entre o polegar e o indicador puxando a glande para fora repetidas vezes, exibindo o sexo à parceira. observa-se ainda nos dois indivíduos o quebrar do decoro social e o avanço a passos vistos para uma actividade sexual franca e, podemos assim afirmar, aberta. os dois contribuintes geme e suspiram enquanto se apalpam. leonor deixa que luís lhe ausculte as mamas, primeiro levemente com a ponta dos dedos, depois puxando-lhe a blusa para baixo e enterrando-lhe os dedos nas tetas. ela entreabre os joelhos e deixa passar a dextra que lhe vai apalpar o rego humedecido. os pintelhos entusiasmam-se. a lubrificação vaginal não provém das glândulas de bartholin mas sim de um transudado plasmático dos vasos capilares da mucosa de leonor.
a roupa é retirada e ambos os corpos se esfregam. a pele é um órgão que envolve os dois mamíferos, um órgão termorregulador e captador dos estímulos dolorosos e tácteis. os corpos esfregam-se e a pele de ambos em contacto uma com a outra envia sinais de todo o tipo ao cérebro de cada um deles. desde o ph da pele à compatibilidade imunitária do casal até à muito evidente excitação sexual. luís tem um gesto de alguma rudeza ao atirar as pernas de leonor para trás e puxar-lhe as cuecas para fora. ela aprecia este gesto e incita-o à penetração peniana.
na leonor ocorre uma clara tumescência das auréolas além de uma erupção maculopapular embora inconstante no epigastro que se estende pelo pescoço, ombros e mamas, também chamado de rubor sexual. luís penetra leonor na vulgarmente chamada posição do missionário. ela ergue os joelhos em direcção ao céu. os grandes grupos musculares contraem-se e distraem-se, não só em luís que contrai os glúteos e os dorsais em arco suportando-se nos joelhos e nas palmas das mãos, mas também leonor que ajuda à penetração elevando a bacia de encontro ao seu parceiro. assim ambos colaboram para uma penetração profunda. O esforço, a delapidação de energia através da degradação de açucares a nível celular, o somatório dessa queima de açucares à escala molecular provoca a nível macroscópico uma aceleração do ritmo cardíaco até cento e trinta batimentos por minuto e uma respiração ofegante. O libertar de tanta energia provoca um aumento da temperatura corporal que precisa de ser compensado através de refrigeração sudorífera. leonor agora tem as pernas suspensas no ar com o macho no meio cada vez mais enterrado nela. luís atinge uma actividade paroxística com espasmos parcialmente incontrolados. luís provoca pelo seu contacto repetido um orgasmo em leonor, isto provoca-lhe uma grande descarga de tensão neuromuscular produzindo vocalizações. em luís a próstata sofre uma série de contracções, juntamente com a uretra e as vesículas seminais. a ejaculação de luís torna-se um facto científico irrefutável, acompanhado, por acaso ao mesmo tempo de uma prolongação em réplicas do orgasmo de leonor.
ambos sofrem uma gama variada de experiências sensoriais e somáticas podendo-se constatar nos dois parceiros um estado transitório de obnubilação da consciência talvez mais acentuado e prolongado em leonor.
- caramba! - geme ele. - até me iam saindo os colhões picha fora.
abraçam-se com uma observável camada de suor a revesti-los. os corpos resplandecem. ambos respiram mais devagar embora muito profundo. a frequência cardíaca diminui. há uma mútua e subjectiva noção de prazer generalizado. luís tem um período refractário que pode durar pelo menos alguns minutos em que não pode ser estimulado outra vez. leonor não tem organicamente este período refractário e pode experimentar orgasmos sucessivos e repetidos. talvez um dia se masturbe à frente dele mas hoje ainda não se sente à vontade.
- foi bom. - diz ela.

15.5.07

capa (provisória)



Esta, depois de melhorada, vai ser a capa do meu livro "cadernos de fausto" a publicar em breve pela Chili com Carne

1.4.07

o fogo e as florestas


a força vem de dentro dos objectos são os objectos. fausto tentar tentáculo, se archotes então palavras revoltadas, a trotar planícies cheias florestas, através dos ramos cavalgada anárquica. a doença lancetava-lhe a força. a falta de ar lancetava-lhe a nevrose. a doença abafava-lhe o rosto cheio de força, cheio de força eram polvos e polvos na cara, metidos brônquios adentro, a copularem com as frinchas do oxigénio.
fausto quis queria levantar a cabeça para sair da sub vida. levantar a cabeça górgona parasitas, no chão do seu crânio estava uma taça com os seus pensamentos. uma taça cheia dos seus vísceras pensamentos. com tanta força e com tantas ideias e com tanta força e com tantos pensamentos. e depois haver pensamentos armadilhados, pensamentos que não se podem tocar explodem. com a pessoa pensamentos como se fossem seus familiares.
familiares mórbidos a urdirem incapacidades ao sujeito. pensamentos minados como se fossem familiares mórbidos a envenenarem a vida os novos seres já condenados que depois da alegria só encontram gengivas nas prisões. definitivamente envenenado pelos familiares. traições psíquicas por trás. uma psique que ficou definitivamente envenenada pelos familiares.
o chão não era o chão. eram sair poros da terra e a terra a respirar um halo mórbido, húmido. nessas frestas da crosta terrestre cresciam árvores. árvores nubladas de grandes caules. a floresta era um livro misterioso, com milhares de páginas nervuradas penduradas nas árvores. fausto pilha voltaica amordaçado tentáculos de ferrugem. no chão do crânio uma energia revolucionária. uma energia revolucionária que há-de levar á vitória e à loucura. e eram páginas e páginas de energia nervurada, as sombras cheias de nevoeiro arvoredo.
a radiação das coisas. inúmeros objectos e várias mãos. as luzes eram febris e fabris. as luzes eram como se olhos de van gohg: cintilantes e contorcidos. tudo olhava e tudo tinha olhos: os objectos, os pensamentos doentes, a compressão dentro dos compartimentos prisão, a força espartilhada eram polvos, a força genésica e o mal de fausto. os seus filhos também nasciam doentes. os filhos a brotarem dracmas doentes na paisagem e a sua mulher de cabeça aberta a parir uma criança pela cabeça, o chão do mal, a densidade floresta, a radiação das coisas, a sua profunda vitória, o cavalo às vezes é o ser mais surpreendente. fausto era apenas um riso na sombra da floresta. com a luz do sol ou a luz da lua, tanto faz, a trespassar segmentos e segmentos de recta. e eram as copas enormes que florestavam tudo e o caminho era pedregoso e musgoso.
e, no charco, no centro da floresta, ringue a luta do bem e do mal ringue. e quando fausto lá chegou já o mal e o bem pareciam uma massa indiferenciada fundamental, lodo apócrifo com certeza, o mal era o bem e o bem era o mal, numa fornicação intempestiva, hermafrodita, traumática, cambaleante.numa auto-fornicação infernal que iria certamente levar à morte mútua. e a matéria gemia angústia e orgasmos, a matéria lodo primordial, a matéria quando bem e mal mesclados, assim andrógino cheio de enxofre - fausto: um acto dos diabos, e a floresta labirinto de sombras, a floresta massa primordial de sonâmbulos e de inconscientes, a floresta labirinto informe e inconsciente, e a matéria gemia angústia e orgasmos, o lodo lutava contra si próprio e fausto obrigava uma mulher a pôr ovos, e o lodo misturava-se apócrifo. e depois fausto fabricou um fogo para onde levou dois monstros de lama até ao fogo. e os dois disformes estavam enganchados pelas mandíbulas e pelo sexo. e gemiam quando violenta morte e interpenetravam-se suicídio. fausto fabricou um fogo e depois exterminou os monstros ou vais a bem ou vais a mal. os monstros parasitas insectos conchas lutavam si próprios. e numa pira de chamas ergue-se a salvação última. e o fogo crepitava no centro da floresta. e depois do exorcismo fausto levantou-se do seu esquecimento e trotou animal pela floresta. arrastando fêmeas para a floresta e obrigando-as a foder até rebentarem de tantos filhos. e depois, alegre e sempre bem humorado, como um comediante aliás, embrenhou-se ainda mais labirinto e andava por aqui e por ali a psicanalisar todos os animais mortos que encontrava pelos seus caminhos de floresta.







18.3.07

diferença e repetição (fábricas e florestas)

uma máquina resfolega. fausto era um cientista golém, por isso tinha que lâmina nas guelras dos animais dentro deles oráculos ventre cheio. os bidões abandonados. florestas carregadas de campos electromagnéticos. e troncos caídos abaixo. o meu templo é a vontade e a violência. o que não são árvores são encruzilhadas. os bidões abandonados. mesmo que não haja caminhos. a floresta era um espelho com os seus ramos e de vento apanhado pelos ramos.
tirava bocados do chão a fórceps do próprio chão, como se fosse filhos dele sepultados na terra, ainda por nascerem, uma máquina resfolega, como se fossem estilhaços humanos a copularem com as fragas com o rosto de peixes mercúrio. e os troncos possantes e trágicos desapareciam para cima no nevoeiro.
ele tinha consciência da aragem e do minotauro de troncos no nevoeiro. também gostava de ver uma fábrica recortar um horizonte sinistro, nas árvores, enforcados com as asas tristes eram falácias entre as cordas e eu não conseguia voltar.
e o mundo é uma bola a girar pateta no vazio. em revolta revoluções convulso. tu és um instrumento cadáver, uma música morte. mar martírio para continuar a marchar como uma linha de montagem numa fábrica. o excesso de viadutos, e os fantasmas de operários martelando metais. uma fábrica a chiar aços até ao infinito. o excesso de viadutos.
chuva artificial fornalha metalurgia. como uma linha de montagem numa fábrica à trepidação das máquinas e reviram os olhos diferença e repetição.
cães manipulados por gente estrangeira, pessoas enterradas na planície, com bocados de fora, o enterramento na terra, uma máquina resfolega na sua auto-cópula mecânica, é gente metalurgia que nos mostra os ossos da boca a rir com árvores de cianeto e pássaros enforcados. esses eléctrodos nas têmporas, sensores afundados no esqueleto é uma pirâmide de sangue.
uma mistura de vários aparafusados como se fossem estradas penduradas na noite. o dramatismo da electricidade obrigatória e sempre um grande mal entendido. é necessário que haja o sacrifício do animal como se cianeto próprio.
inevitavelmente a sua cabeça desmorona-se sobre o papel. e os troncos possantes e trágicos desapareciam para cima no nevoeiro.
quando a obsessão do martelo e depois tropeçam no arame farpado, continuava a esfrangalhar as vísceras, a desamarrar músculos dos ossos. porque fausto é um laboratório, porque fausto é uma experimentação. os animais mineralógicos no mercúrio, uma fábrica a chiar aços até ao infinito.
o luar folhas de ferrugem reflexo no óleo da estrada pela humidade tornada floresta, a humidade que inchou o chão e se levantou do chão em árvores estão cobertas por uma fina pele de bactérias um horizonte sinistro
porque os animais e os minerais, as membranas das células chamavam fausto. as árvores de folhas embriagadas e o fogo a subir pelas serras como uma fornicação do inferno. e os troncos encharcados chiavam enquanto fausto procurava cativar aquelas energias. e troncos caídos abaixo. uma máquina resfolega.
floresta metástases como se cianeto próprio raízes radiações escondidas debaixo das pedras o que se passava com os astros e com os planetas o excesso de viadutos, os baldios e os bidões abandonados. e ouvem-se o ranger dos átomos a sofrer uns contra os outros.
- quero enforcar-me um rio como corda.

27.2.07

"cadernos de fausto"


prepara-se magnífica edição de "CADERNOS DE FAUSTO".