14.11.07

várias mãos

está a dar steve reich
no meu radio antigo

tenho algum frio
nas orelhas

escontrei um cabelo
da minha namorada
solrengo do verão passado
encaracolado nos meus dedos

puz um círculo de velas
para dar força à escrita

alguns dias tenho esperança
outros não

(tenho os ossos ainda de leite)

gosto de guiar
furando a noite

estou tão cansado
que não consigo dormir

este é um dia de outubro
ainda

tenho resistência
em viver comigo

vi uma raposa morta
apeteceu-me trazê-la
para casa
mas não tive pena dela
porque era bonita

31.10.07

os meus pensamentos


meu cérebro
está-se a espalhar pelo corpo
sombra de uma
metástase


o meu cérebro
tem fome de fibras
e veias e válvulas
e vai-me comendo,
por dentro


(a psiquiatria
chama-lhes "depressão"
os clássicos chama-lhe "melancolia"
eu chamo-lhes
"morrer aos bocados"
lentamente
e aos bocados)


o meu cérebro
é um canibal que pensa

27.9.07


amanhã vou à serra de sintra.
estive por lá a passear antes de ontem à noite com um bom amigo. e lá no alto da serra havia uma nuvem enorme que estava por entre as árvores.
os altos da serra estavam submergidos por aquela nuvem. e o nevoeiro mete-se por entre todos os troncos e faz chover as árvores. e o nevoeiro é sempre tão denso que faz com que as árvores, unanimemente, tenham longos cabelos de algas.
e, por isso, de noite, com uma luz lua encharcada e submarina, temos a plena percepção de não estarmos numa floresta húmida à noite, mas antes num aquário nocturno por onde se passeia o sonho...

26.8.07

a praia da adraga e eu

como eu,
o mar está fratricida...
(o mar é um homem revoltado)
entre a bruma de outubro
e as rochas batidas pelo sal,

a luz prateada e ofuscante,
a maré esvaziada de vontade,
e os penhascos em volta
espetam a barriga do vento,
a maré vazia cheira intensamente:
cheira a hiperbóreas regiões

o mar sorri-me aos trambolhões
como se estivesse bêbado e neurótico
a esmagar a cabeça contra a parede

e eu sou um animal revoltadonuma jaula
(firo-me nas grades ao arriscar sair)
mas se me quiseres ajudar,
podes ter a certeza:mato-te.

a aurora e a ressaca

os pássaros piavam percutindo na cabeça
os pássaros piavam, como se árvores fossem
excrescências; excrescências vivas a chiarem
pássaros percutindo e os troncos dentro
os troncos dentro e o sol atrás das casas

a aurora era um monstro deficiente
como se os cotovelos das árvores desatinassem
desatassem a piar, e os joelhos das aves
piavam bicadas na sua cabeça
e os pássaros subiam para cima do sol
como ratazanas

a aurora levantava-se e isso humilhava-o,
como se fossem pássaros, como se cotovelos,
como se as árvores excêntricas e o caule,
eram aves-árvores e o dia a levantar-se,
trepando casas, para cima das casas:
o céu do horizonte recortando-se nos telhados
e os telhados a piarem ódio e sol

e os pássaros subiam para cima do sol
como ratazanas em cima do céu
a aurora levantava-se, a cabeça
como uma noite no horizonte,
e o astro-rei começava aos gritos
desnorteado.







nota: estes dois poemas são de 2005, para um livro que não cheguei a escrever. Ir-se-ia chamar "ciclo do carbono".
Rafael Dionísio.

27.7.07

a nossa livraria!





Inauguração este Sábado, dia 28, às 18h, da livraria Book'n'Shop, projecto em parceria com a Thisco e a galeria Work'n'ShopO projecto Book'n'Shop surge de urgência pois vivemos tempos em que as livrarias estão mais preocupadas com livros Pop ou de Elfos - aliás, as livrarias de "livros normais" nos dias que correm conseguem ser ainda mais folclóricas que as lojas especializadas em bd sobre as quais se ridicularizava por serem lojas de "nerds", vulgo, consumidores de super-heróis e estatuetas de super-gajas com super-mamas e super-armas. Dada decadência e falta de incentivo quer das livrarias normais quer das lojas especializadas, há muito que a CCC desejava partilhar um espaço onde as suas publicações e as dos seus associados pudessem ter o destaque merecido. Aliados à editora de música electrónica Thisco e à galeria de arte Work'n'Shop, onde aliás se situa a Book'n'Shop, é com gosto que convidamos à inauguração da livraria onde poderá encontrar a cultura obscura e vanguardista que necessita e que não encontra noutros sítios. Para que fosse ainda uma capital europeia, Lisboa precisa de um sítio onde se encontre temas como Art Brut, bd alternativa, Culture Jam, Street-art, Shamanismo High-Tech, Ocultura, Zines, livros de autor, e editoras de referência como Re/Search / V-Search / Juno, Le Dernier Cri, Media Vaca, Desinformation, Feral House, Canicola,... e a MMMNNNRRRG, Imprensa Canalha, El Pep, Opuntia Books,... e claro, a Chili Com Carne.

16.7.07

isto sim, é poesia!!

1. Nf3 d5
2. c4 d4
3. e3 d3
4. Qb3 Bf5
5. Nc3 b6
6. e4 Bg4
7. Ne5 Bh5
8. Nxd3 Nf6
9. Be2 Bxe2
10. Nxe2 Nxe4
11. O-O e6
12. Ne5 Nxd2
13. Qb5+ Ke7
14. Rd1 Nf3+
15. gxf3 Qxd1+
16. Kg2 Qxe2
17. Be3 g6
18. Bg5+ f6
19. Qb4+ c5
20. Bxf6+ Kxf6
21. Qc3 Qxe5
(as brancas desistem)

6.7.07


a lua tenta arrancar do horizonte,

vermelha e grávida de si própria

poema á duração (depois de peter handke)

os ponteiros do relógio
são gotas de chuva

a casa é grande, não assombrada,
cheia de gritos vindos da infância
e espartilhos morais

debruço-me com cabisbaixo
sobre as páginas escritas

e vez em quando olho-me
naquele espelho pequenino,
faz anos que isso faço

o espelho é aquele
rio de heracilto
pendurado na parede
embora eu sinta e seja
tudo na mesma
(um homem derrubado)

27.5.07

luís, leonor



entretanto em casa de lúis, leonor e luís esqueciam o mundo depois de um jantar leve mas apiparalhado com uma becazinha de tinto de qualidade e de conversas intimistas. ambos olhavam um para outro. nota-se cientificamente que ambos os indivíduos estão disponíveis para acasalar. ela várias vezes desvia o olhar dele, simulando vergonha, numa atitude mista de consentimento e vergonha forjada, cumprindo assim o seu papel de fêmea na economia do processo da procriação. finge que foge ao seu olhar para mais estimular o instinto de caça no homem. para ele sentir a adrenalina subir ao perseguir a sua presa. ele sente-se a ofegar baixinho como se fosse um pobre sepultado debaixo de uma laje de betão. ela olha e entreabre ligeiramente os lábios que resplandecem de vermelho, que se colam e descolam um ao outro. os seus lábios parecem inchados, riscados de vermelho, morfologicamente vaginais. luís sente o seu pénis a palpitar ligeiramente emocionado.
tecnicamente são o objecto de desejo um do outro e a sensação subjectiva de prazer e bem-estar aumenta o instinto do acasalamento.
invisíveis hormonas transudavam dos corpos dos amantes e os receptores nasais capturavam-nas e enviavam a mensagem ao cérebro: o outro está disponível. informações secretas de desejo imiscuem-se sub-repticiamente nas mentes dos dois namorados. em ambos os sexos os mamilos tornam-se erectos. e na mulher há um aumento do seio até um máximo de 25 % do volume inicial. luís e leonor tocam-se inicialmente nos ombros e nas mãos, nos braços, enquanto se beijam. posteriormente as mãos, órgãos sensoriais do tacto por excelência, iriam percorrer outras zonas do corpo menos tocadas socialmente. este contacto é acompanhado pelo beijo, primeiro com os lábios fechados, explorando-se mutuamente, e posteriormente língua-língua, língua-lábios, o que provoca nele a congestão dos corpos esponjosos e cavernosos. esta dilatação do seu sexo quase lhe provoca desconforto. por sua vez também o clitóris de leonor aumentou de volume. o próprio útero de leonor se irá expandir a um máximo de 50% e mudar a sua inclinação de modo a tornar mais fértil o aparelho genital feminino. os grandes lábios também aumentam e os pequenos adquirem um tom vermelho tipicamente sexual, algumas veias aparecem à superfície da pele dos seios. por baixo arfam dois pulmões que, devido à excitação e aumento do metabolismo, ingerem oxigénio para levar á célula mais carburante.
luís agora agarra-lhe com uma pata pelo pescoço, por trás, e entra-lhe com a língua na boca, como se fosse uma oclusa derrubada. a erecção torna-se macroscopicamente observável aumentando o volume do pénis e a sua cor. luís abre a sua braguilha exibindo o pénis à sua parceira. manifestação inequívoca de que está pronto para seguir para a fase do coito. segura o doce membro entre o polegar e o indicador puxando a glande para fora repetidas vezes, exibindo o sexo à parceira. observa-se ainda nos dois indivíduos o quebrar do decoro social e o avanço a passos vistos para uma actividade sexual franca e, podemos assim afirmar, aberta. os dois contribuintes geme e suspiram enquanto se apalpam. leonor deixa que luís lhe ausculte as mamas, primeiro levemente com a ponta dos dedos, depois puxando-lhe a blusa para baixo e enterrando-lhe os dedos nas tetas. ela entreabre os joelhos e deixa passar a dextra que lhe vai apalpar o rego humedecido. os pintelhos entusiasmam-se. a lubrificação vaginal não provém das glândulas de bartholin mas sim de um transudado plasmático dos vasos capilares da mucosa de leonor.
a roupa é retirada e ambos os corpos se esfregam. a pele é um órgão que envolve os dois mamíferos, um órgão termorregulador e captador dos estímulos dolorosos e tácteis. os corpos esfregam-se e a pele de ambos em contacto uma com a outra envia sinais de todo o tipo ao cérebro de cada um deles. desde o ph da pele à compatibilidade imunitária do casal até à muito evidente excitação sexual. luís tem um gesto de alguma rudeza ao atirar as pernas de leonor para trás e puxar-lhe as cuecas para fora. ela aprecia este gesto e incita-o à penetração peniana.
na leonor ocorre uma clara tumescência das auréolas além de uma erupção maculopapular embora inconstante no epigastro que se estende pelo pescoço, ombros e mamas, também chamado de rubor sexual. luís penetra leonor na vulgarmente chamada posição do missionário. ela ergue os joelhos em direcção ao céu. os grandes grupos musculares contraem-se e distraem-se, não só em luís que contrai os glúteos e os dorsais em arco suportando-se nos joelhos e nas palmas das mãos, mas também leonor que ajuda à penetração elevando a bacia de encontro ao seu parceiro. assim ambos colaboram para uma penetração profunda. O esforço, a delapidação de energia através da degradação de açucares a nível celular, o somatório dessa queima de açucares à escala molecular provoca a nível macroscópico uma aceleração do ritmo cardíaco até cento e trinta batimentos por minuto e uma respiração ofegante. O libertar de tanta energia provoca um aumento da temperatura corporal que precisa de ser compensado através de refrigeração sudorífera. leonor agora tem as pernas suspensas no ar com o macho no meio cada vez mais enterrado nela. luís atinge uma actividade paroxística com espasmos parcialmente incontrolados. luís provoca pelo seu contacto repetido um orgasmo em leonor, isto provoca-lhe uma grande descarga de tensão neuromuscular produzindo vocalizações. em luís a próstata sofre uma série de contracções, juntamente com a uretra e as vesículas seminais. a ejaculação de luís torna-se um facto científico irrefutável, acompanhado, por acaso ao mesmo tempo de uma prolongação em réplicas do orgasmo de leonor.
ambos sofrem uma gama variada de experiências sensoriais e somáticas podendo-se constatar nos dois parceiros um estado transitório de obnubilação da consciência talvez mais acentuado e prolongado em leonor.
- caramba! - geme ele. - até me iam saindo os colhões picha fora.
abraçam-se com uma observável camada de suor a revesti-los. os corpos resplandecem. ambos respiram mais devagar embora muito profundo. a frequência cardíaca diminui. há uma mútua e subjectiva noção de prazer generalizado. luís tem um período refractário que pode durar pelo menos alguns minutos em que não pode ser estimulado outra vez. leonor não tem organicamente este período refractário e pode experimentar orgasmos sucessivos e repetidos. talvez um dia se masturbe à frente dele mas hoje ainda não se sente à vontade.
- foi bom. - diz ela.

15.5.07

capa (provisória)



Esta, depois de melhorada, vai ser a capa do meu livro "cadernos de fausto" a publicar em breve pela Chili com Carne

1.4.07

o fogo e as florestas


a força vem de dentro dos objectos são os objectos. fausto tentar tentáculo, se archotes então palavras revoltadas, a trotar planícies cheias florestas, através dos ramos cavalgada anárquica. a doença lancetava-lhe a força. a falta de ar lancetava-lhe a nevrose. a doença abafava-lhe o rosto cheio de força, cheio de força eram polvos e polvos na cara, metidos brônquios adentro, a copularem com as frinchas do oxigénio.
fausto quis queria levantar a cabeça para sair da sub vida. levantar a cabeça górgona parasitas, no chão do seu crânio estava uma taça com os seus pensamentos. uma taça cheia dos seus vísceras pensamentos. com tanta força e com tantas ideias e com tanta força e com tantos pensamentos. e depois haver pensamentos armadilhados, pensamentos que não se podem tocar explodem. com a pessoa pensamentos como se fossem seus familiares.
familiares mórbidos a urdirem incapacidades ao sujeito. pensamentos minados como se fossem familiares mórbidos a envenenarem a vida os novos seres já condenados que depois da alegria só encontram gengivas nas prisões. definitivamente envenenado pelos familiares. traições psíquicas por trás. uma psique que ficou definitivamente envenenada pelos familiares.
o chão não era o chão. eram sair poros da terra e a terra a respirar um halo mórbido, húmido. nessas frestas da crosta terrestre cresciam árvores. árvores nubladas de grandes caules. a floresta era um livro misterioso, com milhares de páginas nervuradas penduradas nas árvores. fausto pilha voltaica amordaçado tentáculos de ferrugem. no chão do crânio uma energia revolucionária. uma energia revolucionária que há-de levar á vitória e à loucura. e eram páginas e páginas de energia nervurada, as sombras cheias de nevoeiro arvoredo.
a radiação das coisas. inúmeros objectos e várias mãos. as luzes eram febris e fabris. as luzes eram como se olhos de van gohg: cintilantes e contorcidos. tudo olhava e tudo tinha olhos: os objectos, os pensamentos doentes, a compressão dentro dos compartimentos prisão, a força espartilhada eram polvos, a força genésica e o mal de fausto. os seus filhos também nasciam doentes. os filhos a brotarem dracmas doentes na paisagem e a sua mulher de cabeça aberta a parir uma criança pela cabeça, o chão do mal, a densidade floresta, a radiação das coisas, a sua profunda vitória, o cavalo às vezes é o ser mais surpreendente. fausto era apenas um riso na sombra da floresta. com a luz do sol ou a luz da lua, tanto faz, a trespassar segmentos e segmentos de recta. e eram as copas enormes que florestavam tudo e o caminho era pedregoso e musgoso.
e, no charco, no centro da floresta, ringue a luta do bem e do mal ringue. e quando fausto lá chegou já o mal e o bem pareciam uma massa indiferenciada fundamental, lodo apócrifo com certeza, o mal era o bem e o bem era o mal, numa fornicação intempestiva, hermafrodita, traumática, cambaleante.numa auto-fornicação infernal que iria certamente levar à morte mútua. e a matéria gemia angústia e orgasmos, a matéria lodo primordial, a matéria quando bem e mal mesclados, assim andrógino cheio de enxofre - fausto: um acto dos diabos, e a floresta labirinto de sombras, a floresta massa primordial de sonâmbulos e de inconscientes, a floresta labirinto informe e inconsciente, e a matéria gemia angústia e orgasmos, o lodo lutava contra si próprio e fausto obrigava uma mulher a pôr ovos, e o lodo misturava-se apócrifo. e depois fausto fabricou um fogo para onde levou dois monstros de lama até ao fogo. e os dois disformes estavam enganchados pelas mandíbulas e pelo sexo. e gemiam quando violenta morte e interpenetravam-se suicídio. fausto fabricou um fogo e depois exterminou os monstros ou vais a bem ou vais a mal. os monstros parasitas insectos conchas lutavam si próprios. e numa pira de chamas ergue-se a salvação última. e o fogo crepitava no centro da floresta. e depois do exorcismo fausto levantou-se do seu esquecimento e trotou animal pela floresta. arrastando fêmeas para a floresta e obrigando-as a foder até rebentarem de tantos filhos. e depois, alegre e sempre bem humorado, como um comediante aliás, embrenhou-se ainda mais labirinto e andava por aqui e por ali a psicanalisar todos os animais mortos que encontrava pelos seus caminhos de floresta.







18.3.07

diferença e repetição (fábricas e florestas)

uma máquina resfolega. fausto era um cientista golém, por isso tinha que lâmina nas guelras dos animais dentro deles oráculos ventre cheio. os bidões abandonados. florestas carregadas de campos electromagnéticos. e troncos caídos abaixo. o meu templo é a vontade e a violência. o que não são árvores são encruzilhadas. os bidões abandonados. mesmo que não haja caminhos. a floresta era um espelho com os seus ramos e de vento apanhado pelos ramos.
tirava bocados do chão a fórceps do próprio chão, como se fosse filhos dele sepultados na terra, ainda por nascerem, uma máquina resfolega, como se fossem estilhaços humanos a copularem com as fragas com o rosto de peixes mercúrio. e os troncos possantes e trágicos desapareciam para cima no nevoeiro.
ele tinha consciência da aragem e do minotauro de troncos no nevoeiro. também gostava de ver uma fábrica recortar um horizonte sinistro, nas árvores, enforcados com as asas tristes eram falácias entre as cordas e eu não conseguia voltar.
e o mundo é uma bola a girar pateta no vazio. em revolta revoluções convulso. tu és um instrumento cadáver, uma música morte. mar martírio para continuar a marchar como uma linha de montagem numa fábrica. o excesso de viadutos, e os fantasmas de operários martelando metais. uma fábrica a chiar aços até ao infinito. o excesso de viadutos.
chuva artificial fornalha metalurgia. como uma linha de montagem numa fábrica à trepidação das máquinas e reviram os olhos diferença e repetição.
cães manipulados por gente estrangeira, pessoas enterradas na planície, com bocados de fora, o enterramento na terra, uma máquina resfolega na sua auto-cópula mecânica, é gente metalurgia que nos mostra os ossos da boca a rir com árvores de cianeto e pássaros enforcados. esses eléctrodos nas têmporas, sensores afundados no esqueleto é uma pirâmide de sangue.
uma mistura de vários aparafusados como se fossem estradas penduradas na noite. o dramatismo da electricidade obrigatória e sempre um grande mal entendido. é necessário que haja o sacrifício do animal como se cianeto próprio.
inevitavelmente a sua cabeça desmorona-se sobre o papel. e os troncos possantes e trágicos desapareciam para cima no nevoeiro.
quando a obsessão do martelo e depois tropeçam no arame farpado, continuava a esfrangalhar as vísceras, a desamarrar músculos dos ossos. porque fausto é um laboratório, porque fausto é uma experimentação. os animais mineralógicos no mercúrio, uma fábrica a chiar aços até ao infinito.
o luar folhas de ferrugem reflexo no óleo da estrada pela humidade tornada floresta, a humidade que inchou o chão e se levantou do chão em árvores estão cobertas por uma fina pele de bactérias um horizonte sinistro
porque os animais e os minerais, as membranas das células chamavam fausto. as árvores de folhas embriagadas e o fogo a subir pelas serras como uma fornicação do inferno. e os troncos encharcados chiavam enquanto fausto procurava cativar aquelas energias. e troncos caídos abaixo. uma máquina resfolega.
floresta metástases como se cianeto próprio raízes radiações escondidas debaixo das pedras o que se passava com os astros e com os planetas o excesso de viadutos, os baldios e os bidões abandonados. e ouvem-se o ranger dos átomos a sofrer uns contra os outros.
- quero enforcar-me um rio como corda.

27.2.07

"cadernos de fausto"


prepara-se magnífica edição de "CADERNOS DE FAUSTO".

28.1.07

os fungos de fausto






fausto coleccionava fungos. fausto coleccionava fungos e chamava a isso "as minhas podridões". fausto coleccionava fungos porque podridões. fausto coleccionava porque num ninho de ciência e de doença.
no seu laboratório frascos com fungos ferozes. e lá dentro fausto havia frascos com fungos. ele gostava de fungos porque doenças. ele gostava de fungos porque bacteriológica e porque doenças bacteriológicas. ele gostava porque silos com bacilos. ele gostava de fungos e de podridão putrefacção em geral. e de doenças. do poder que as doenças lhe davam. bacteriológico. do poder que os bacteriológicos trazem. do poder dos bacilos. dos organismos vivos que venenos.
ele gostava de fungos porque bacteriológico e doenças. fausto na floresta: ervanário do mal. fausto na floresta fungos e bocados de seres vivos. organismos retirados a fórceps da natureza, retirados a fórceps extracção forçada natureza.
às vezes levava nas suas expedições científicas à floresta, levava mulheres. levava mulheres à floresta e acabava por se deitar em cima delas nos fetos, como uma sombra por cima delas e inoculava-lhes o seu esperma incubo. raramente se debatiam a não ser na aflição do orgasmo testemunha a floresta. fausto na floresta ervanário do mal. elas raramente se debatiam porque sabiam ao que iam.
fausto na floresta recolhia fungos e doenças como se fossem seus filhos. trazia-os para o laboratório. fabricava fungos e filtros, ciência e doença. e na sua organização de bacilos entrava por vezes em delírio pelas doenças que experimentava.
e, por cima de todos os seus boiões e godés, por cima do aparato de lâminas e microscópios, encontrava-se, o olhar espancado de um cristo. não que fausto fosse cristão mas porque aquilo simbolizava uma das maiores fraudes que um ser humano tinha perpetuado. fausto celebrava essa fraude. fausto sabia, desde as noites sonâmbulas dos tempos, que o que movia pessoas como o nazareno era a luxúria da glória, o exibicionismo masoquista, o sofrimento sacralizado, a luxúria da glória, a loucura de se exibir no seu triunfo da morte. só para que os outros o considerassem deus, só para se perpetuar na memória dos homens. e fausto não achava que esse logro do cristianismo, na figura de um doente perverso e exibicionista, fosse errado. cristo era admirado por fausto pelo seu engenho maquiavélico em enganar. e isso estava certo. tornar-se um deus face aos ignorantes. isso estava certo. triunfar e sobressair da massa ignorante e supersticiosa. isso estava certo. exibir o seu gozo e o seu martírio perante todos, tornar-se adorado deixando-se levar em suicídio ao gólgota. isso estava certo.
como fausto compreendia essa furiosa demência humana... tornar-se deus... como fausto compreendia que um galileu tenha morrido para se imortalizar... só alguém tão perverso como cristo é que o poderia ter feito. só cristo ou o próprio demónio, mestre do logro, rei do engano, para poder parir o monstro do cristianismo.suicidar-se para ser deus. que perversidade maravilhosa! eis a que se resume uma das mais belas obras do demónio. e, diga-se em sua justiça: a mais perfeitamente executada.








13.1.07

a conquista do filósofo, na primeira pessoa

no outro dia era um lago, os bichos podres lá dentro, no outro dia era um lago com bichos podres lá dentro. e eu ainda queria um aquário com aqueles bichos todos podres todos lá dentro lago. com aqueles bichos podres lá dentro.
eram falácias entre as cordas e eu não conseguia voltar, e num dos trilhos havia drogados injecção e queriam injecção e agarrarem as pernas das pessoas passam na rua e eles como se fossem polvos drogados.
mas eu não conseguia voltar. quando lá se vai já não se vai conseguia voltar. mas eu não conseguia logo lago voltar. e com bichos podres lá dentro. era aquele caminho mas eu não conseguia voltar. e com bichos podres lá dentro. e eu lixo desarrumados pelo chão. em toda a glória e psicologia descontrolados pelo chão. drogas descargas impulsos electrocussão.
as barreiras, os obstáculos, e eu tinha medo porque outros assim com força, com força extremista, levadas as pessoas poesia como extremos levadas as pessoas como, levadas à porta dos precipícios e lá em baixo largos lagos com bichos mortos podres lá dentro, lagos mortos. com extrema irracionalidade. com extrema intencionalidade. os obstáculos. com as ideias a ficarem quem sou eu onde estou como vim aqui parar? com as ideias a dizerem porque é que estas pessoas estão faustomortas?
com extremo cansaço, erguendo o braço morte músculos do lago, como quando combustão. e assim exemplo pessoa a arder no meio do caminho, a ficarem ideias como sou, com as ideias a dizerem porque é que estão mortas?
e a psicologia descontrolada. com extrema intencionalidade. com extremo cansaço, por meio das pessoas e a arder quase dinamite, levadas à força precipícios, lá para baixo isto sim assim é uma pessoa. levar por isso as pessoas e os precipícios às últimas consequências.
agitação intensa, grande perda de sangue, grande quando que poder de ataque, os impulsos sexuais bater nos impulsos sexuais, as pessoas levadas às últimas consequências, pela força, pela força, e anjos doentes a pousarem abutres doentes, e sujos doentes a poisar em árvores em cima do lago, mesmo por cima a poisarem doenças. eles estar estão a poisar! eles estar estão a poisar!
por isso mesmo descontrolo de si mesmo. os impulsos sexuais, bater nisso dos impulsos sexuais, os impulsos sexuais como electricidade aos coices, como as mãos electricidade nos nervos duzentos e vinte volts. drogas descargas impulsos electrocussão. nos pés e nas mãos a electricidade electrocussão. e o corpo amarrado a ser electricidade.
bater nos impulsos sexuais, o descontrolo, o altar dos mortos, o verdadeiro altar nosso violência, como são doenças, anjos abutres nas árvores, a verdadeira fuga, a fugitiva da vida, abre-se um espaço e nesse compartimento altar dos mortos, água dos mortos, compartimento violência até ao tecto.
de gestos bruscos, de movimentos esquizofrénicos, de pancadas súbitas, de gestos e de pancadas bruscos, de gente batida inusitados mortos, inusitados anjos mortos, nas árvores, enforcados como anjos inutilizados, a verdadeira fuga, até espancar, violência até ao tecto.
nas árvores, enforcados com as asas tristes, homens-pássaro do paraíso levados até ao enforcamento, repletos de sexos podres como uma revelação, para demonstrar a funda perversão, como uma fúria em ser deus, anjos doentes mentais, deficientes profundos mortos nos precipícios, abutres anjos mortos, repletos de sexos podres como uma revelação, como uma fúria em ser deus, uma fúria que se encoleriza facilmente, a empregar a força física, a violência física gritos, arreganhados dentes anjos, drogas descargas impulsos electrocussão.
sempre nas últimas consequências: as pessoas. os precipícios, as pessoas e os precipícios.
com a força extrema, as pessoas levadas pelas mandíbulas já são animais. as pessoas nos precipícios já são animais. e tudo com feroz e tudo com ferocidade animais mortos logo lago.
e eu, porque fausto, vi a violência, um altar de escoriações, e a violência abre-se a porta compartimento sempre sempre a subir.
com extremo cansaço, erguendo o braço morte músculos do lago, como quando combustão, e assim exemplo pessoa a arder no meio do caminho, a ficarem ideias como sou, com as ideias a dizerem porque é que estão mortas?
por isso mesmo descontrolo de si mesmo. por isso mesmo descontrolo de si mesmo. por isso mesmo descontrolo de sempre sempre a subir. por isso mesmo. por isso mesmo como se fossem polvos drogados.

1.1.07

todos contentes e eu também

entre as dores musculares
e o pôr do sol
surge a disponibilidade para
o poema

uma britadeira betona no horizonte
o tórax abre-se cálice flor vértebras

no outro dia avistei Quíron,
o centauro, na forma de um homem
a cavalo num cavalo

é inverno
mas oiço um grilo:
um portanto encalorado
artrópode

contruí uma represa temporária
para estancar o espeto da infelicidade

vou-me embora

24.12.06

solstício

amanhã é dia de solstício
tenho que ir lembrar ao deus sol
que, se ele quiser,
os dias poderão vir a ficar
magníficos

inchados de glória no seu carro solar
enquanto eu insistirei no próximo ano
em apanhar a cauda com a própria boca

ás vezes sinto-me assim
um cão pelas vielas
à espera que alguém o abata

(que parvoíve tão grande
e que pensamento tão feio
sentir-se como um cão ão ão)

mas, apesar da neura do dia
amanhã é um dia especial
e lá para a primavera
iremos semear a felicidade
para dela termos ágape colheitas

parabéns sol
muitas felicidades
muitos anos de vida

6.12.06

ALMEDINA

ATENÇÃO MALTA!!

OS MEUS LIVROS e da editora CHILICOMCARNE já estão à venda na rede das livrarias ALMEDINA.

são eles:
Textos mais ou menos poéticos (poesia em prosa ou coisa que o valha)
A Sagrada Família (Romance, há quem lhe chame anti-romance, de qualquer das maneiras é a puta da loucura)
Lucrécia (tento contar uma história mas depois começa a correr mal pelo meio)


parabéns à Livraria por vir marcar a diferença em apostar, também, em edições alternativas.

30.11.06

roadside bomb

vidros violinos: isso é espirais. isso é espirais. sim, vidros violinos isso é espirais.
intrapsíquico: isso é a raiva e a ressonância, os dentes das engrenagens, a rotação e a raiva. isso é espirais.
esse cataclismo mecanismo, esse fundamentalismo por ser fábrica, essas passadas energéticas, esses nervos violinados, , isso é espirais, mas não são fausto.
tu és um instrumento cadáver, uma música morte brota por entre os railes do tempo, do teu corpo, do tempo, tanto faz, aos tropeções, aos arranques, aos assobios, só quando a raiva é pressão demónios, é que, só quando a raiva é possessão. os dentes das engrenagens, a contracção espasmódica, um motor, esse fundamentalismo de ser fábrica, e a possessão.
vidros violinos: isso sim é espirais, esses entrelaçam-se brutamente, esse som invade persepolis e os ouvidos, essas civilizações de cancro todas metidas na violência, dentro das pedras goelar, gritar as fúrias, goelar as fúrias, gritar, porque no seu tempo era a guerra, porque nesse tempo era mecanismos a guerra, a contracção espasmódica de um motor, esses apetrechos com gente morta na ponta, essas valetas cheias de civis, essa raiva que só apetece essa tão raiva, essa multidão noites archotes acrobatas multidão em redor do que ritual tem que sair, que ritual tem que sair cá para fora explosão.
o sangue era compulsivo, esses corpos com pernas e braços espetados eram necessários, esses currais com vivos empurrados corredor lâmpadas em cima corredores cá lá do fundo da noite, dos restos da noite, com corpos com pernas e braços espetados eram necessários.
aos arranques, aos iludidos, aos gritunchos, às histriónicas, às nervosistas, porque rir histerias, à pressão, um histrião desmembra-se para o chão, já demasiado som barulho, já demasiado barulho, mas sempre e só já demasiado barulho, porque quando debaixo das pedras, os demónios quando abres e desgravidam as pedras, e por baixo das pedras essa força forte que vem do primordial era o corredor depois estava a afunilar, sempre a afunilar, e lá dentro um círculo primata, os desmembrados queriam correrias e corredores, eu entusiasmo, eu entusiasmo, alegria tão grande com isso um riso louco sorriso, um riso de olhos esbugalhados, os olhos planetas fora das órbitas, era ver tudo violência, a alegria era tão que explodia, que era tão que para além do corpo para todos os lados,
vidros violinos: isso é espirais, vidros violinos isso é estribilhos, as pedras cheias de estrilhos, com archotes na mão isso maleficiência, o sangue era compulsivo, esses apetrechos com gente morta na ponta, essa multidão que muitos archotes acrobatas, esse ritual ter que sair. vidros, violinos, a estilhaçarem-se, vidros violinos é a possessão quando a raiva e a possessão, as letras amotinam-se depressa, como pessoas furiosas a saltarem para a morte, esses apetrechos com gente morta na ponta, essa multidão que noites archotes acrobatas esse ritual tem que sair, em ritual tem que sair, vidriolinos, vidriolinos,
os projécteis lambiam as ruas e escondiam-se nas pessoas que transeuntes, como se fossem polvos de pólvora, como se fossem vidros de vida, como se fossem ramos de radiação, como se fossem relva de vidros, dois pontos: músculos no muro, sangue civil, com tanta raiva a escrever, com tanta raiva a atacar dentes pessoas nas ruas, a atacar todo dentes, as pessoas metidas multidão transeuntes, as pessoas a enfrentarem-se, galos a levantarem luta de galos, a rirem-se, a baterem-se golpear grotescas, a entrechocarem-se, a exagerarem, a confrontarem-se intrapsíquico, isso é raiva ressonância, reverberação da raiva, a radiação vai pelos corredores, a lutar pancadas contra os anjos, a lutar pancadas contra os anjos, a lutar sempre anjos possessão ritual , assim tão pressão ritual assim tão pressão ritual archotes isso consequência labirinto. e se labirinto então ilha, e se archotes então kristalnacht, e se ilha então voar, e se voar então textual, e se texto então espiral, e se espiral então fausto, e se fausto espiral então cadernos de fausto, e se cadernos de fausto então confrontos nas ruas, se confrontos então, se então, então se então se, se então então se então, se ícaro então não ilha minotauro, se cidade então forçosamente labirinto, se raiva então logo fausto pleno, se anamorfose então distorção de um cão, se inumação então fausto no café, se assassinato na rua então fausto outra vez a tomar um drink, se coração centauro então coração sentado, se gasolina então motor combustão velocidade incêndio ruas às curvas e por isso cidades de barriga aberta arder sempre quando automóvel velocidade na beira da estrada.
estava aqui no globo a sair espremido pela caneta, um mapa mundi, uma descompensação agitada, um médium a vomitar corpos intrapsíquicos maleficiência, a vomitar cadáveres nas paredes, isso é estrilhos, as paredes a arfarem metal, as palavras revoltadas, com archotes na mão, as paredes de cimento, as casamatas, essa força que vem do primeiro eu, e a pressão quando raiva, o delírio dos mortos, os mortos na valeta a delirarem os mortos, os mortos na valeta, os postes de alta tensão, a desorganização urbana, as grandes cargas eléctricas suspensas, as nuvens de barulho, as palavras parvas a agitarem-se, os demónios a saírem das vaginas das pedras, as grandes cargas suspensas, a agitação na rua, os mortos nas valetas a incharem de ódio, as pedras e os mortos a brilharem ao luar, o betão nas paredes, as nuvens de barulho, uma fábrica a gemer aços cheia, essa multidão metida ódio nos archotes noite ritual, esse grande ódio primordial, os gritos contra tudo e contra todos, esses comprimidos que fazem crepúsculos, essa raiva que faz guindastes, essa multidão que se reúne e que se agita.
e depois dá-se a despoleta. e depois os civis espalham-se sangue pela rua.

23.11.06

poema à hora de almoço


sento-me num banco da gulbenkian
para jiboiar o almoço

os velhos da batota
reúnem-se em agitação geriátrica
rosnando copas, política, futebol

agora passou um avião
desenhando uma geodésia de fumo
anel de saturno em volta da terra

as grandes narrativas acabaram:
ulisses apanha o cacilheiro para casa
édipo é arguido por burla
antígona trabalha num bar à noite
prometeu tira direito na católica
medeia acabou de adoptar um filho
virgílio leva dante a conhecer o chiado
hamlet é doido por hambúrgueres
e fausto, enfim, inscreve-se num curso
de meditação

mas daqui a um mês
mais coisa menos coisa
é o solstício de inverno
depois disso os dias voltam
a inchar luz por dentro...

(equinócio, solstício, equinócio, solstício):
- é assim a vida...

21.11.06

esplanada sobre o mar (monte estoril)

foi o turner que pintou estas nuvens no céu,
um grande cargueiro parece uma cidade na água
um desportista gordo de meia idade corre
a música é horrívelmente melosa

ao longe vêem-se tracejados de chuva
enviesada e com risquinhos paralelos,
tira-linhas a tinta da china
no horizonte

as gaivotas circulam num cilindro de ar
uma onda bateu agora mais vigorosa no molhe
pessoas com mau aspecto passam
o mar é formidável, e será sempre
formidável

o chão é de lajes de calcáreo
nele transeuntes pelo passeio marítimo
ao longe o cabo espichel
aparece magnético no mar
como uma barra de íman
a polarizar as nuvens em torno

as nuvens carregam-se vindas do norte
deve estar para aí a chegar
uma valente bátega

(um cão olhou para mim
e continuou caminho)


13.11.06

movimento de subducção

no silêncio e sossego
do meu quarto
não tenho febre
e escrevo

um edredão de espirais verdes
uma caneta de escreve fluidos,
as minhas estas paredes
que eu pintei um dia
de artes plásticas

a amurada de livros protege-me
na cama-barco que navego sonhos

o ar tão quadrilátero e arrumado
as reticências da minha sonolência
os pensamentos de subducção,
os rochedos que recordo praias
o que eu espero geológico
pelo solstício de inverno

e descobri um prazer profundo
leve e tão profundo o meu prazer:
o de respirar com os pulmões grandes
como a sombra da copa de uma árvore

(o nevoeiro interno
é agora orvalhar verde
que floresce florestas)

não reconhço nem a deuses,
nem a astros, o direito à vida
mas tenho crescido ultimamente

por isso hoje posso escrever
o movimento
da terra que vai para debaixo da terra
ainda está longe

3.11.06

depois dos batráquios

eu e o meu cansaço:
gosto de vir aqui água
ali barreira betão barragem

entre mim e os ribeiros são sonoros
para um vulto aquático:
um portanto batráquio

a água espelha as margens árvores
e eu recebo a dádiva do lugar:
um estilhaço de paz
longe das pessoas

(aqui não sinto medo
nem vontade de morrer)

estar muito em silêncio tempo
é dar autorização a que bichos
e árvores
se aproximem

atiro pedrinhas à água
e ela mostra-me circulos concêntricos
de geometria líquida

os batráquios correm grotescos
no fundo do lago extraterrestres
como homens de esponja orgânica

agora chegou uma pessoa
e quebrou a harmonia do lugar
odeio-a e gostava de a matar,
para reencontrar a paz

passado um tempo
o homem de ganga azul-rock afasta-se,
e eu fico outra vez com esta bacia hidrográfica
para poder pensar à vontade

estou ao pé
de uma mini queda de água
não é nenhum fenómeno notável
mas para mim está a ser estar importante,
aqui sentado com ela no tempo presente do indicativo

esta cascata é igual a um cão
na maneira como me faz companhia

tento refrescar a minha cabeça
tão lodamente de pensamentos eutróficos
cheia...

mas estou com pressa
e tenho que me ir embora




(nota: este texto foi escrito em sintra, um dia depois de ver os desenhos anfíbios do andré lemos)

20.10.06

jau, pensamentos

a minha cabeça está muito esquisita. a minha cabeça está mesmo muito esquisita. passam-se coisas lá dentro. movimentos como se magmáticos. eu sinto a massa encefálica como se movimentos de convecção. no mar há coleópteros que quando entro no mar sobem-me pelos tornozelos acima coleópteros. nem sei que tenho. formigueiros neurológicos, pés de hidropisia, alguém me envenenou o sangue, ou a comida, ou a vida.
a leonor não tinha o direito de me fazer isto. tudo fiz por ela e o que é que levamos em troca? tudo fiz por ela. do que ela se queixava afinal?, a leonor não tinha o direito de me fazer isto, de se ir embora assim, de que se queixava ela afinal?, de nada com certeza, fecho-me em casa porque não gosto lá fora estão são tantas as pessoas. alguém me envenena lentamente. tenho que ter cuidado com o que bebo e onde ponho os pés. ela não tinha o direito de me fazer isto. estou disforme quando olho ao espelho. tenho uns olhos escanzelados que não são normais. oiço gritinhos surdos de crianças por todo o lado. ao longe mas por todo o lado crianças em lado nenhum. não posso ir à rua sem me sentir mal. não posso ir à janela sem que aquela impressão tão grande de luz. os arrepios pela coluna como se descessem elevadores nevróticos pela coluna. ela não tinha, não tinha, o direito de se ir embora. ela foi um bocado frívola, enfim não muito, mas ela foi um bocado frívola mas ela era um bocado cabeça no ar. enfim, não muito mas eu sei que ela precisa de mim. ela podia voltar para mim. porque é que ela não podia voltar para mim? ¡podia claro!, eu iria perdoá-la, claro que tinha de a castigar, ela precisa de ser castigada de vez em quando, para ter a noção de algumas coisas ela precisa de ser castigada. eu sei que ela precisa de ser castigada de vez em quando, isso ajuda-a a saber os limites, até onde pode ir, ser castigada dá-lhe uma certa segurança. ajuda-a.
ela vai-se arrepender tanto de estar com aquele janota, com aqueles seus ares de menino fino, com aqueles parlapiês de meia tigela. ela não conhece a leonor. ele não conhece a leonor. ele não sabe o que é bom ou mau para ela. como é que ele a pode ajudar se não a conhece? eu conheço a leonor. ele não sabe o que é bom ou mau para ela. sei que ela precisa de ajuda. sei que ela precisa de ajuda. que nem tudo nela é o que parece. como é que ela pode ser ajudada se ele não a conhece? eu conheço a leonor. o jolie pensa que é fácil andar com a leonor. mas não é fácil. ela não é uma rapariga normal. ela precisa de ser castigada. tem as suas coisas, as suas particularidades, as suas manias, as suas idiossincrasias, as suas peculiaridades escondidas, o jolie não vai saber respeitar isso. nem a vai castigar quando ela precisa. vai andar com punhos de renda, e quando ela precisar de ser corrigida ele não vai saber lidar com isso. e é bem feito. é bem feito porque quando ela estiver em défice, quando ela estiver em dia não e se calhar o jolie ainda só apanhou maravilhas de dias sim, quando ela estiver em dia não ele não vai saber lidar com isso. e aí ele vai voltar para mim. é nesse momento que ela vai perceber que só eu a posso ajudar, que só eu a conheço como só eu a conheço.
e eu vou castigá-la quando ela voltar para mim. um castigo especial, diferente dos habituais, mas depois vou perdoá-la.
e se ela não chegar a voltar para mim? isso não pode acontecer, mas se isso que não pode acontecer acontecer eu vou ter que apagá-la. vou ter de a matar, vou ter de a matar. o que ela me está a fazer não se faz a ninguém. se ela não voltar rapidamente para mim vou ter que levar isto até às últimas consequências, vou ter de a matar. não é que eu queira levar isto até às últimas consequências, não é que eu queira. se eu a matar é porque ela me obrigou a isso. é claro que não quero fazer mal à leonorzinha. se ela voltar para mim em breve e pedir desculpas, se se mostrar arrependida e mostrar que está disposta a pagar pelo que me fez se isso acontecer ainda a vou perdoar. com um castigo valente em cima dela, mas acabo por a perdoar. mas se ela não voltar em breve, a pedir desculpa pelo que me fez, isso vai ter consequências muito duras para ela. é que ela não se apercebe que não podia fazer o que me fez. o que ela me fez estava-lhe vedado, por definição estava-lhe vedado.
ela não sabia que não me podia abandonar assim? claro que sabia, mas o jolie deve-lhe ter feito a cabeça. vai-se arrepender de lhe ter feito a cabeça. ela é meio estouvada mas mesmo assim não aceito o que ela me fez. não aceito e não tenho que aceitar. eu não sou obrigado a aceitar de bom grado que ela se vá assim embora de mim. sem ao menos uma explicação. seria o mínimo uma explicação. eu sei que ela só saiu do pé de mim porque o jolie lhe fez a cabeça. deve ser um grande d. juan o jolie! se ele pensa que chega ao pé da minha mulher e com meia dúzia de postas de pescada a leva para ele está muito enganado. vai-se arrepender. vai-lhe custar mesmo muito caro a brincadeira. para ele deve ser sempre assim só porque é jolie e bem falante. deve pensar que pode chegar à beira de todas as mulheres que quer e pegar nelas e levá-las para casa como se estivesse no supermercado. isso não é assim senhor jolie!!, esse luizinho galante está muito equivocado. e vai-lhe sair cara a brincadeira. mesmo muito. vou obrigá-lo a morrer. se ele pensa que pode levar a minha mulher, a minha leonorzinha, com ele está muito enganado.
a ela , se ela voltar e mostrar arrependimento, ainda a posso perdoar a ela. mas a ele não tenho dúvidas que o vou liquidar. ele vai pagar o que fez. vai mesmo. nem que seja a última coisa que faça.

10.10.06

ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ

O poeta é tão esquecido que não se lembrou de "postar" a sua participação no livro O Homem que desenhava na cabeça dos outros de Pedro Zamith & cia, editado pela Oficina do Livro e lançado ontem na FNAC do Chiado.

Livro de contos e prosas várias em que o sistema de ilustração foi invertido, ou seja, Pedro Zamith desenhou primeiro e depois deu a várias entidades escreverem sobre elas. Não sobre elas sob o ponto de vista crítico ou analítico mas sim sobre o que elas sugeriam de imaginário.

Entre os 20 autores, vamos encontrar Adília Lopes, Ana Ruivo, António Cerveira Pinto, David Soares, João Paulo Cotrim, Luís Camilo Alves, Marcos Farrajota, Pedro Rosa Mendes entre outros nomes...

10.9.06

(sonho/ jau)

"um sítio que era um vale, no entanto assim meio em socalcos meio quase declive ligeiro declive. a quinta antiga. os palheiros, as casas dos animais ao lado dos outros edifícios risíveis como galinheiros e coelheiras. tinha havido uma tromba de água e havia toneladas e toneladas de água, esse monstro aquático das inundações que afogam fluxo de água que debaixo de água todos. e havia compactos detritos que lama compactada, encostado às construções agrícolas como esterco dos céus, havia muita gente morta por todo o lado gente morta. com os braços no ar a emergirem do lodo, expressionistas a pedirem a ajuda de deus que nunca veio existe, havia um novo lago onde lago talvez de água de metro e meio. tinha havido uma tromba de água e por isso muita gente debaixo sepultada debaixo enterrada no lodo como areia movediça morrer lá dentro. e alguns cadáveres no meio do lixo. as crianças atiravam-se miúdos para dentro do lago como se atiram euforia em qualquer tanque ou lago urbano. tentavam não bater nos corpos corpos barrigas inchadas pareciam chocos gigantes mortos com a barriga branca cheia de água morta. não bater nos corpos ao mergulharem os rapazes a saltarem para dentro de água. como quem saltar dentro água depois fugir limos. fugir na água de uma alforreca ou de qualquer bicho peganhoso debaixo de água.
havia braços e pernas a saírem dos montes de lama parada, como se fossem cepos e cotovelos. como se fossem lixo. e as crianças atiravam-se os rapazes em calções para o banho, para o lago, num chinfrim de crianças euforia no verão.
acordei, devo mesmo estar a ficar chanfrado da cartolina... "

(- o humprey boghart acabou de esbofetear uma gaja bêbeda duas vezes no filme que está a brotar da televisão...
- isso é um clássico pá!)

8.9.06

feedback + conto

«Dionísio sintetiza, de forma inovadora, uma longa tradição cultural ocidental, as matizes culturais Clássica e Judaico-Cristã entrelaçadas no estilhaçar de personalidade característico do pós-Modernismo» é o que a revista gratuita de música Underworld comenta em relação à Lucrécia. E ainda tem 4 como pontuação (em 5).
Para além disso, o poeta ainda escreve um conto na revista, ilustrado por João Maio Pinto.

23.8.06

(às vezes no fim só fica mesmo é a raiva).

jau meteu-se na praia da adraga. meteu-se lá dentro como quem quer ficar soterrado (subterrado, aterrado, enterrado, sepultado) pelo mar ou soterrado pelo peso ctónico tão enorme muito grande falésias. jau foi até à praia da ursa, desceu lá abaixo para nem-sabe-o-quê para apenas ar nas fuças, arejar as fossas nasais, apanhar sol no masséter, na praia da ursa há uma rocha muito grande mesmo enorme que tem lá um perfil que parece um boneco de uma ursa, embora a mim me pareça mais um coelhito, e essa rocha dá o nome à praia. a praia da ursa, pois então. jau foi passear ali ao pé do cabo espichel do lado trás daquela coisa que parecem umas estrebarias dos lados com um palheiro em forma de igreja no centro, ali por trás desse século dezassete ou dezoito, acho eu, ali junto das falésias, ali mesmo, onde há uma certa tradição de suicídio, pode ser que alguém se atirasse lá para baixo e isso lhe fizesse esquecer a leonor enquanto o corpo ia caindo bocados cão atirado aos bocados a desfazer-se escarpas abaixo. e as escumas lá em baixo a baterem escumalha nas escarpas. e escunas a passarem com as pantalonas desfraldadas.
jau estava portanto em sines, na praia ao pé das centrais térmicas, a ver a água a revolucionar-se como se fosse outubro na rússia, e os tendões do mar contorciam-se e o esforço do mar era hérnias, no mar estava em peniche a ver o mar, em frente ao mar tinha acabado de passar as salinas de aveiro, ali para os lados de faro, e por isso estava a ver o mar de lisboa,
e assim em frente ao mar jau mascava uns pensamentos, vamos pôr-lhe uma sonda no crânio e ouvir-lhe os cognitivos (não sou um narrador omnisciente, ainda não, continuo a estudar isso é certo, mas por agora preciso da sonda). jau pensa os seus cognitivos como quem assa os seus raciocinados, assim como se quisesse impressionar com os seus próprios pensamentos, como se quisesse estetizar a sua dor e dar-lhe, por meio de uma lambidela filosófica, torná-la portanto digna e universal:
-"ficarmos amigos", disse ela, "olha jau, podemos sempre ficar amigos", isso não faz sentido nenhum eu não quero ser amigo dela, nem de ninguém. eu não consigo ficar teu amigo com esse cabresto ao teu lado. isso não faz sentido nenhum que eu não quero ser amigo de ninguém. metes-me raiva leonor. odeio-te. já te amei mas agora só te odeio. não consigo esquecer o que me fizeste. não. não podemos ficar amigos. isso de ficar amigos é o quê? é só conversa para despachar. pensas que eu sou parvo ou quê? "podemos ficar amigos": estás a querer enganar quem? isso é só conversa para me sossegar, mas eu não vou sossegar. deves estar a fingir com essa do "ficarmos amigos" que eu caio nessa. ah, eu não aceito isso leonor, amei-te tanto. ainda te amo. mas estou tão desgostado, parece que me arrancaram um bocado de mim de dentro do corpo, amei-te tanto, será que não percebes? amo-te tanto "ficar amigos" que raiva, que nojo, que ódio. eu não aceito que as coisas fiquem assim. amei-te tanto, amo-te tanto, merda, merda, merda, será que ela não percebe? "ficar amigos..." olha-me o desplante desta gaja "jau, podemos ficar amigos" pois para ela é fácil é ela que me pôs a andar. manda-me passear, manda-me à merda e diz com a sua simpatiazinha "podemos ficar amigos".
(às vezes no fim só fica mesmo é a raiva).

6.8.06

jau/leonor

(jau/leonor)
- porque é que não tentamos outra vez?
- porque não ia dar certo.
- como é que sabes que não ia dar certo?
- já falámos nisto um milhão de vezes jau. não vai dar certo.
- se não tentarmos é que não podemos saber se vai dar certo ou não. porquê? porque é que és tão negativa? podias fazer um esforço por acreditar.
- as coisas não são assim como tu queres, as coisas não são carregar num botão e está feito. sabes perfeitamente que não vai ser possível tentarmos. já tentámos muitas vezes.
- podias acreditar...
- não não posso, não se pode investir numa coisa que não acredito à partida. para que é que vou apostar num cavalo que morreu?, não faz sentido nenhum, pois não, jau?
- não faz sentido porque não queres que faça sentido, porque te recusas a acreditar, podias fazer um esforço para acreditar.
- mas eu não acredito. contra isso não posso inventar sentimentos ou posso?
- mas é por não quereres. sabes perfeitamente que querer é poder,
- ah, não me venhas com clichés, mas porque raio é que queres fazer tudo mais difícil. sabes perfeitamente que eu não consigo tar mais contigo.
- mas isso é porque existe essa pessoa que tu insistes em dizer que gostas.
- não ponhas as coisas nesses termos
- então ponho como.
- estou cansada jau. gostava que ficássemos amigos, não te tenho nada contra ti. só quero viver a minha vida.
- amigos?!
- mas porque é que tens de fazer tudo mais difícil? porque é que contigo é sempre tudo assim? porque é que não me deixas ir em paz à minha vida? já conversámos sobre isto. não me podes obrigar a gostar de ti.
- podia dar certo outra vez, sabes perfeitamente.
- ah, lá tás tu com os teus "perfeitamente" tão irritantes. tenho mesmo que te responder que sabes per-fei-ta-men-te que não dá, acabou!, morreu!, parte para outra, get a life!, pára de me massacrares!
- deves pensar que as pessoas são todas como tu!, para ti é fácil, trocas-me como se fosses à loja trocar de roupa!
- ah, não comeces com golpes sujos a ver se eu tenho pena de ti. olha, não tenho peninha nenhuma de ti ouviste?, tivesses pensado em me tratar bem este tempo.
- ah eu não te tratava bem? eras quê?, uma mulher da violência doméstica não?
- não sejas parvo, não mudes de assunto,
- eu é que ´tou a mudar de assunto?
- opá eu mais uma vez vim falar contigo para ver se podíamos acabar numa boa. podíamos ficar amigos e tu não deixas.
- olha é fácil isso do "ficar amigos"? achas que para mim é fácil? acabas comigo e achas que podemos "ficar amigos"??? se quisesses podias acreditar. sabes lindamente que podias acreditar, é uma questão de querer.
- pronto, voltamos ao mesmo...
- porque é que tens essa atitude? aí a encolheres os ombros com desprezo para mim?
- bem, esta discussão não vai levar a lado nenhum. vou-me embora.
- não. não vás.
- larga-me o braço jau.
- dá-me uma oportunidade.
- larga-me o braço se fazes favor.
- fomos tão felizes, porque é que me estás a fazer isto?
- estás-me a magoar jau, se fazes o favor largas-me.
- porque é que não tentamos outra vez?
- DEIXA-ME!!- grita leonor com um sacão do braço libertando-se da ventosa jaussiana. leonor vira-lhe as costas e vai-se embora. jau que fingia ainda acreditar que seria possível a leonor reconquistada. deixa cair o rosto ao chão em desespero. mostra no desalento o seu verdadeiro estado de espírito em relação à miúda: um semblante devastado, a derrota. mais uma vez a derrota com as mulheres.
- granda melão- diria um cueca-napoleão se o visse agora. ainda bem que jau estava sozinho (na rua, em casa, no cinema, na esplanada, ou noutros sítios) senão ia ficar muita chateadão de lhe verem perder de sua amada a mão.

25.7.06

fotos da digressão nortenha


na Matéria-Prima (Artes em Partes, Porto)


Fotos: José Feitor
na Velha-a-Branca (Braga)


... e assim aproveitamos para avisar que o novo (anti)romance Lucrécia está à venda nestes dois sítios.

15.7.06

jau ia no seu pópó para a margem sul. para casa, pois então!, estava a lembrar-se de uma gata de patas para o ar. e por isso mesmo o seu carro ronronava tranquilo. e já era tarde, pois então!, atravessava a ponte vinte e cinco de abril. antes de chegar à parte de metal cruzou-se com havia uma data de luzinhas azuis, uma data de luzinhas do outro lado da estrada. ambulâncias, policiais, etc. era um acidente, pois então!, estava uma carrinha branca do outro lado espatifada de barriga pró ar. nem parou o carro para ver se via sanguinho. até ele já estava farto de ver acidentes rodoviários portugueses. apetecia-lhe ver outro tipo de acidentes. sei lá, um avião a chocar com uma vaca por exemplo. ou um comboio a atropelar uma mulher grávida.
a noite tinha sido estucada uniformemente, uma demão cinzenta avermelhada no céu e assim não se viam estrelas. as nubladas fingiam-se de alvenaria de nuvens para dar um rosto opaco à noite. como se caixão de cimento em chernobyl era a cabeça estava azamboada a cabeça era de jau. azambujada de trabalho. as articulações maçadas pelas longas horas de pé. farto da esquadra do restelo, do chefe, dos colegas, que nem eram assim tão maus como isso mas hoje estava farto de tudo.
estava em estresse, mas o que lhe causava mais estresse é saber que.

22.5.06

momentos altos

um action man da literatura
Cuidado Indiana Jones! Em recitais ninguém bate Dionísio!
(reparem na caveira)

bem acompanhado - por uma junkie do século XIX

14.5.06

nota de imprensa

QUERIDAS AMIGAS E VERMES: peço opinião pela nota de imprensa. Sugestões e indigestões serão extremamente bem vindas


atenção: vai ser solto no Mundo o novo livro de Rafael Dionísio: chama-se LUCRÉCIA.

Nota de Imprensa:
Lucrécia é o novo romance (vanguardista se a palavra não tivesse caído em desuso), de Rafael Dionísio. Trata-se de uma viagem fabulosa, alucinante, aos mundos de uma personagem chamada Lucrécia (tenha ela os nomes que tiver). É uma história inteligente, mordaz, irónica, por vezes emotiva, perturbadora e/ou excessiva. É um livro que destila, para além alcóol, cultura por todas as páginas, num furor e alegria discursiva únicos e absolutamente ímpares na cultura portuguesa.


Excerto:
- julgas que vou arranjar trabalho agora? ano novo vida nova menino. agora estou em férias. foda-se. digo montes de palavrões. há homens que não gostam. fica feio dizer palavrões. – suspira. amachuca o maço de tabaco. chesterfield lights. cofia o cabelo no meio da testa, por cima do amarelo, com o dedo indicador. está a pensar. a sentir-se observada. a sentir-se um bocado animal de laboratório. hoje não está maquilhada. dantes pintava-se muito mais. ainda bem que agora tem menos estuque na cara.

Rafael Dionísio nasceu em 1971 e é autor de uma já bastante razoável produção literária. Publicou recentemente "A Sagrada Família" e "textos mais ou menos poéticos". Além da sua produção literária reparte-se pelo Estudo Crónico e ministrando cursos de Escrita Criativa na "Tuatara Atelier Aberto". Rafael Dionísio é senhor de vastos recursos estilísticos/literários apresentando uma obra com um carácter multi-dimensional e proteico.

2.4.06

adolescência



















tenho trinta e poucos anos. sou ainda um adolescente. sábado à noite depois de jantar com pessoas maravilhosas. e depois o bairro alto, magnífico, com as ruas roupas cheias de sorrisos, as ruas acotoveladas onde tanta nova e bonita. as ruas fremitantes de energia e de adolescências. muito alcóol, evidentemente, e cigarros em fila uns atrás dos outros para serem todos fumados.
e depois já é tarde e as ruas do bairro alto começam a escorrer gente para os lados, os bares estão a afechar. vai-se descendo para o calhariz, para o mítico e imutável "incógnito". cheio a rebentar. é uma casa grávida de multidões. o "d´´artagnan" não deixa entrar mais ninguém. mas lá conseguimos lá entrar. como todos os adolescentes ficámos ávidamente na fila à espera.
aquilo é entrar e tem um ambiente algo próprio. o próprio espaço tem auqele cunhbo de ser "buateque é uma palavra caída em desuso na nossa língua e qe designa locais assim parecidos nos asnos setenta, mas que por ser nos anos setenta, tinham uma aura mística de proibido, de transgressão pop/rock, de libertação, de crime contra os bons costumes. Parece-me que o "incógnito" tem algo disso assim. (ou então sou eu que vejo assim porque não cheguei a ter essa adolescência, tive outras).
e depois descemos para a pista de dança. e encontrei um amigo. e quando vejo a nossa amiga vou para cumprimentá-la e ficámos nos cumprimentando na boca durante quanto tempo?. clámo-nos num beijo fantástico, daqueles beijos que pela sua raridade são tão magníficos e especiais. nem dissemos nada um ao outro. pura e simplesmente nos beijámos com toda a sofreguidão do mundo. lambemos as gengivas, a língua, os lábios, os dentes, um do outro durante muitoooo tempo. enquanto isso távamos no meio da pista. no meio do turbilhão da música, dos fiordes de luz, dos encontrões das pessoas, não descolámos nem por nada, como se fossemos uma ilha num mar agitado. e por estarmos mesmo no meio de tanta gente é que estávamos no fundo tão sozinhos abraçados um ao outro.
só hoje de manhã é que vi os olhos dela. têm uma auréola cinzenta à volta do azul claro. como se fossem um eclipse de qualquer coisa, da íris para aí...
hoje de manhã despedimo-nos. parece-me que felizes. leves. surpreendidos.
e inconsequentes como todos os adolescentes.

18.3.06

lista numero cinco ou seis já não sei.












1. chovem dilúvios.
2. luz eléctrica.
3. jogar xadrez na internéte
4. músculos inchados e doridos.
5. ainda não mudei de roupa hoje.
6. ela olhou-me ontem. com os olhos de desejo que também são meus.
7. os pulmões depois da atmosfera.
8. ao estar tão fisicamente fatigado por isso os músculos enrolam-se nos ossos da indolência.
9. apetece-me tomar dois ou três comprimidos para dormir, e depois ficar narcótico a tentar resistir ao sono. como se existisse uma coisa chamada vontade e não apenas fenómenos bioquímicos e neuronais.
10. sente-se quando um olhar tem desejo dentro. quando uma mulher nos está a desejar.
11. será o mundo ilusão? buda deve ter dito ou pensado algo assim. mas ele não tinha que ter razão. de qualquer maneira os indianos nunca foram grandes pensadores. mas deram sempre bons ilusionistas.
12. eu acho que ela me olhou, ela me olhou com desejo físico no olhar, com uns olhos plenos de desejo e de fertilidade. isso a ser verdade, se era bom que fosse verdade, a ser verdade.
13. seria também cómico ela se calhar achar que eu não a desejo. como seu eu fosse alguém de muito importante quando sou a pessoa mais acessível do mundo com o coração espesso de sangue.
14. esta ultima frase é quase de antónio franco alexandre “recebe-me coração espesso de sangue” que é um verso lindíssimo.
15. (suponho pelos vistos que ela também me deseje, e que não seja a minha imaginação a fazê-la desejar-me)
16. estou a ler “théorie du corps amoreux”, do filósofo Michel Onfray, devia-lhe mandar um emaile um dia destes, e porque não? o subtítulo do livro é muito bonito “por une érotique solaire”.
17. sente-se quando um olhar é quente. quando tem desejo dentro.
18. é de noite. o cansaço espalha-se pelas costas. o cansaço é um eczema.
19. o desejo é perfeito. o desejo quando é proibido tem essa magia da transgressão, de ir contra a instituição do amor acinzentado quando durante muito tempo juntos.
20. (pressuponho portanto que ela também me deseja, e que não seja apenas a minha imaginação buda a fazer-me ela a desejar-me)
21. gosto particularmente de uma palavra inglesa para “estar baralhado”é “puzzled”. eu acho que tou puzzled com esta mulher.
22. fumei e bebi imenso ontem. mas também isso não faz mal.
23. já faço mais flexões e halteres. faço exercício para hipertrofiar os músculos. e esforço-me até encontrar a dor levantar-se dentro de mim. eu preciso definitivamente da dor para viver. da dor física, porque a emocional dispenso.
24. recuso-me categoricamente a sofrer por alguém.
25. será que imagino que ela também me deseja?
26. fumei e bebi imenso ontem. mas também isso não faz mal.
27. a carne do cérebro tenta adormecer. mas eu não vou deixar que isso aconteça.
28. as paredes olham para mim. estou no centro do quarto a escrever sobre o desejo, por uma pessoa concreta. e as paredes olham para mim como se eu fosse um acontecimento ou um fenómeno.
29. fiz agora roque pequeno. os ingleses chama a fazer o roque “to make a castle”. o que indica a filosofia feudal do xadrez. seguindo este raciocínio, de uma forma não muito brilhante, pode-se dizer que eu desejo a rainha que está do outro lado do tabuleiro e que tem provavelmente que ficar com o seu rei.
30. não tenho a certeza, mas acho que ela olhou para mim ontem. com uns olhos plenos de desejo. com olhos de desejo também de desejo os meus.
31. há uma fotografia dela na praia. é uma fotografia muito enigmática. com um rosto muito sonhador a olhar para a areia. se calhar à procura dos castelos perdidos da infância.
32. provavelmente, e como é habitual, não a irei beijar.
33. o desejo é do domínio do proibido e/ou da transgressão.
34. tenho a certeza que ela olhou para mim com “aqueles olhos”.
35. se acontecesse esse primeiro beijo, que me preparo de antemão e descontraidamente para não acontecer, isso seria uma descarga de adrenalina e de prazer profundamente bom e proibido.
36. vou baixar a música para ver se já voltou a chover.
37. um dia destes assim de chuva fui passear na serra de sintra à noite sozinho. pelo meio da floresta e a água por todo o lado humidade. hoje não me apetece.


11.3.06

vem aí a prima vera


e com ela, as flores abertas, e os insectos e vermes como eu a quererem cair lá para dentro à procura daquele melzinho bom que elas têm. para dentro daquelas corolas boas.

4.3.06

lista #4 (aurora)


1. sete da manhã.
2. as persianas estão fechadas. não há cortinas nas paredes o que dá um ar simultaneamente rude e confortável.
3. a atmosfera arrasta-se por cima da casa, com o poder do vento.
4. os pássaros lá fora, desarrumados pelas árvores, cantam o novo dia.
5. a minha gata é toda preta. tem os olhos amarelos. parece um bocado de sombra a olhar para mim.
6. fiz uma tatuagem. é um símbolo. demorou hora e meia a fazer. para o fim já me dóia. mas fiz uma tatuagem.
7. tive com as minhas amigas ontem. que bonitas que elas são. e que alegria por revivê-las.
8. estou à espera que caia mais chuva. era bom porque me iria fazer confortável e protegido.
9. no outro dia o demónio visitou-me. tive a partir coisas e a gritar durante meia hora.
10. hoje é sábado. não vou precisar de sair da cama até segunda feira.
11. tristes trópicos. de claude lévy strauss. uma maravilha de livro. uma surpresa.
12. gostava de adormecer e de ter sonhos que me encantassem.
13. oiço agora o som curvo e longínquo de um avião.
14. precisamos todos de coragem.
15. os aparelhos avariam-se. no fundo nunca está tudo a funcionar ao mesmo tempo.
16. o tempo leva as pessoas para longe. às vezes desaparecem.
17. precisava de me tornar uma pessoa melhor. de sofrer uma remodelação espiritual.
18. não sei se este quarto não precisaria de outras cores. uma cores que dessem mais saúde psíquica.
19. vou tentar adormecer.
20. chove outra vez toneladas de água. parece que o peso da água vai partir as casas todas ao meio.
21. amanhã. talvez amanhã. voltar a sonhar.

28.2.06

lista#3 (sábado à noite)


1. fotossensibilidade.
2. toca telemann na antena dois, dentro de um rádio fanhoso, enferrujado, mas que funciona. sabe mesmo bem ouvir telemann.
3. a ventoinha do recuerador de calor funciona. faz um barulho tranquilo e hipnótico.
4. combustível: troncos de madeira. espécie: oliveira. brasas abundantes que palpitam como miocárdios doentes.
5. combustão: reacção de oxidação. o oxigénio junta-se ao carbono formando novas moléculas. (dióxido e monóxido de carbono). nessa reacção partem-se as ligações covalentes. libertação de energia.
6. leitura de um livro de parapsicologia.
7. constipação de dimensões médias. uma qualquer estirpe do virus influenza.
8. ligeira tosse e irritação.

9. sonolência profunda potenciada pela gripe e pela ressaca de exageros físicos.
10. cabeça quente mas talvez sem febre. sensação de "pedrada facial", como nas enxaquecas.
11 coração batendo regular e talvez nostalgicamente. pulsação normal. vísceras processando um grande prato de sopa de feijão.
12. leucócitos raros, na urina.
13. hemoglobina com bons níveis.
14. desespero médio mas não preocupante.
15. adormecimento temporário.

18.2.06

lista #3(escritório)



1. divisão 4X4 metros
2. tapete de ponto grosso, desenho dos anos sessenta, abstracto, em tons vermelho vivo e amarelo vivo.
3. divisão com aspecto geral de cheio.
4. gato preto, fêmea, com olhos bonitos a passear-se. tamanhp pequeno/médio.
5. estantes com livros. dimensões e materiais variáveis.
6. mesa de trabalho com tampo contraplacado. pernas de oficina.
7. candeeiro arte deco, no centro do tecto, anos trinta, linhas puras, câmpanulas de vidro salmão.
8. máscara de gás pendurada na parede, I Grande Guerra, supõe-se do Corpo Expedicionário Português.
9. paredes riscadas. citações de autores. máximas e reflexões. números de telefone e de multibanco.
10. vasos com plantas. no parapeito da janela e no chão. dois dos vasos têm plantas com folhagem luxuriosa, cerrca de 1.80 a 2 metros de altura. folhas e caules a debruçarem-se na janela (fonte de luz natural).
11. fotografia emoldurada de um bisavô. nome: joaquim rodrigues gomes. o sujeito está fardado com um indivíduo africano aos pés, sentado descalço em posição submissa como se fosse um cão.
12. estirador sólido de madeira. com computador e ecrã de plasma.
13. indivíduo do sexo masculino, de constituição robusta, estatura média, suiças, olhos e cabelos castanhos, a olhar parado. expressão de melancolia. uma certa lentidão nos gestos denotando nosológicamente apatia. rosto com expressão cansada. ténis de marca nike "air pegasus". roupa práctica, desportiva. calças de fato de treino.
15. tempo cronológico: sexta feira à noite. supõe-se que as pessoas se divertem e se riem, com as suas companheiras.
16. o indivíduo que olha para lado nenhum alega desencanto crónico no amor. tenta assim justificar a sua abulia e ombros desistentes em vez de reagir.

14.2.06

lista#2 (nascimentos)


1. mithra nasceu de um rochedo.
2. dionysos ficou incubado na barriga da perna do seu pai.
3. a minha irmã vai ter gémeos, bivitelinos, vão-se chamar marta e joão.
4. tiamat nasceu do caos e da lama.
5. se eu não tivesse nascido então eu nunca iria morrer.
6. fausto partiu a cabeça a um transeunte. tirou de lá de dentro um gólem embrulhado em pensamentos.
7. o sol está combustão a dar à luz.
8. outros deuses nasceram das situações as mais variadas.
9. quem pariu jesus era virgem.
10. a minha mãe teve três filhos. e antes teve um espontâneo aos cinco meses, e um nado morto aos nove. não sei se tinham nome.
11. a cesariana faz-se abrindo a barriga. é uma operação actualmente muito comum.
12. as vacas têm partos difíceis. mugem ao mesmo tempo que rangem da bacia. e é preciso puxar as crias para fora atando uma corda aos pés.
13. a felicidade nasce em canaviais, em ovos postos clandestinamente pela lua cheia.
14. adónis nasceu de dentro de uma árvore.
15. as baleias nascem em ninhos de água.
16. ulisses e os seus camaradas foram paridos para fora de uma grande égua.
17. jonas teve por mãe um cetáceo.
18. o sol acordará os ovos postos no canavial e, pelo menos um dia, a felicidade reinará.
19. no neolítico enterrava-se o cadáver em posição de bebé dentro da barriga da mãe-terra. assim deveria continuar por todo o sempre.
20. um dia destes nasço outra vez. tá-me a apetecer.

11.2.06

lista#1 (quarto)



















1. aparelho simples para abdominais no chão.
2. tapete anos oitenta cores vermelhas.
3. candeeiro de metal, com campânula generosa, em cima de mesinha de cabeceira com livros.
4. livro que aparece primeiro: satyricon, de petrónio, edição barcelona, 1965.
5. três sofás, uma cadeira, um banco.
6. aquecimento de metal, de parede, cor creme, anos setenta, design incaracterístico.
7. paredes pintadas rudemente de branco, com as declinações do latim escritas nelas.
8. cama tipo "clássico" pintada de branco e com inscrição a marcador: "labor omnia improbus uincit".
9. ténis espalhados pelo chão
10. livros, papéis, espalhados pelo chão.
11. roupa espalhada pelo chão e pelos móveis.
12. saco de boxe, vermelho, pendurado no tecto.
13. quarto amplo, talvez 7X3,5 m.
14 pé-direito normal.
15. cómoda com tampo de máromore. pintada de branco. (sujo)
16. quadro na parede, tela sem armadura, representando um jogo de xadrez. (7m) em tons rosa avermelhado.
17. quadros abstractos, em tons de branco.
18. lareira de tijoleira, com girafa africana sem cabeça de madeira, e um monte (literalmente na forma de monte) de livros por cima.
19. janelas de duas folhas, de abertura à francesa. duas janelas e uma porta-janela que dá para o quintal.
20. pessoa a escrever deitada na cama. a escrever em caderno de notas de baixa qualidade. a escrever uma lista das coisas que há no quarto.


11.12.05

explicação do fogo



a lareira arde na escuridão
espalha sombras pelo tecto
e suja as paredes com agitação,

já houve alturas
em que o fogo tinha uma alma
agora nele só há química,
ligações covalentes que se partem,
a energia que é liberada,
a fluidez gasosa das chamas
a termodinâmica da temperatura,
e a radiação que fica vermelhando

heraclito,
também pensava no fogo
e nesse seu pensar
existia um mundo em devir

prometeu,
como o amigável satã,
ama o fogo e o conhecimento
contra o fascismo de deus

cristo,
talvez fosse melhor cristo,
ter sido incenerado
escusávamos de ter hoje seitas
que adoram um cadáver

as cinzas,
devem ser inertes, minerais,
a parte mais inanimada
do fogo que se evapora

o fogo faz parte
do ciclo do carbono
do qual também nós fazemos parte)
e é essa
a sua última poesia

quando me sento em frente ao fogo
sento-me em frente de uma pessoa
que está como eu
nero em combustão

um sonho
com o cérebro combustível
(sonâmbulo incêndio)
um sonho desde
o núcleo do carbono
até ao fim do fumo

um sonho desses
é o que eu mais desejo

4.12.05

no centro do sangue

no centro do sangue
acontecem algumas coisas

e os sentimentos dilatam
as paredes musculosas
da parede vascular

(acelero o carro
pela estrada de árvores
as luzes das viaturas passam
como se penduradas no ar velocidade)

no centro do cérebro
lá dentro no profundo
acontecem coisas
que mais tarde ou mais cedo
vão ter de ser ditas

(espero
como se estendesse uma armadilha?)

no centro do sangue
surge um segredo mais forte
que frutifica e fertiliza
todo um coração que se expande

(um dia destes digo-lhe)

27.11.05

a moagem do meu avô


a moagem era bela a moagem
com as suas janelas verdes quadradinhos-vidro
com o seu pé direito alto de girafa
e com as suas maquinetas de madeira
e articulações de aço

eu não vi a moagem a trabalhar
morreu pela primeira vez talvez
nos anos quarenta nem sei
mas passei tantas tardes
dentro desse edifício agro-industrial
que pensava que ele também era eu

e as máquinas paradas
eram fantasmas do movimento,
o caruncho ia mastigando as madeiras
e os silos,
enquanto as partes de ferro fundido
davam um ar expressionista à inactividade
como se estivessem as máquinas
estupefactas e sem trabalho

gostava particularmente das roldanas
das rodas dentadas,
do silêncio
e do pó

passei a infância
na solidão e no sonho
em sítios como aquela moagem

por vezes subia ágil
pelas condutas acima até aos silos
e ficava escondido a observar o silêncio
(como se fosse um pequeno animal furtivo)

este sítio foi demolido
só ficou um rasto de roldanas
paradas na minha memória
aquele sítio era uma cetedral industrial
de madeira e de cheiros secos e cereais
e tinha uma dignidade de teatro
ou de fóssil

este sítio foi demolido
e tenho pena de nunca nele
ter beijado uma mocinha
de espigas loiras como tranças,

bem, agora já não importa
já tudo foi demolido
mas ficou a recordação doce
daquele sítio que já morreu

18.11.05

gineceu

hoje sonhei
que estava com três mulheres
reclinado em almofadas,
rei no gineceu,
a apalpar-lhes os seios
as ancas, os rabos,
os cabelos e as vulvas,
sedado
pelos aromas que das fêmeas
saem

eu, que ninguém tenho,
(e talvez por isso mesmo)
sonhei que era proprietário
de três fêmeas

deito-me portanto para ser recebido
por paisagens oníricas
(e mulheres que me aceitem)
e enquanto isso, o sono, não acontece
deito-me no colchão no chão
e observo de baixo para cima:
(e observar rente ao solo
é como se voltássemos à infância)
observo a mesa de elefantes
dedicada a shiva
os sofás duma lisboeta casa antiga
as paredes com restos de mecanismos
as minhas plantas pujantes e verdes
as minhas estantes com livros
o calor do meu corpo e o conforto
os sofás castanhos e antigos e lisboetas
este quarto escritório tão seguro
como se fosse a infância que tive
como se fosse invulnerável
e pudesse sorrir ao futuro

deito-me aqui para sonhar
com mulheres, ou com aquela mulher
adolescente e de rosto de criança
com quem tive uma bela conversa
no outro dia

e sempre com a sensação negra
de a ela não poder ter direito
como se eu fosse um túmulo vivo

e enfim, sonhei-me com três mulheres
eu que nenhuma tenho
e ao acordar depois disso
masturbo-me mais uma vez
e depois fico a olhar para o tempo no tecto
as suas sombras
as suas fracturas no estuque
e uma ou outra aranha
octopernada
e vagarosa
a passar

8.11.05

pigmalião


um dia, sim, um dia
vou voltar a pintar, talvez,
agora sem pretensões
nem parvoíves conceptuais

por isso é que desisti da pintura
porque estava preocupado
com a aura da arte e do artista
balelas
além de que não tinha talento
mesmo

foi só quando desisti
é que me realizei o meu melhor quadro:
está ali, ela, a olhar para mim
com os seus profundos olhos da prússia
de vermelhos lábios e lábios menina
a pele rosada e lisa, as maçãs do rosto,
as curvas do pescoço e do queixo,
o rosto que apetece percorrer com a ponta
dos dedos ou com as narinas respirando-lhe a pele
até à base do pescoço, as clavículas,
o começo do peito, a pele

esta ali, ela, a olhar para mim
com as suas discretas orelhas de elfo
um seu o cabelo comprido apanhado atrás
um seu o pescoço tão modigliani
um seus os seus lábios carnudos
e tão profundamente sexuais

num sorriso tranquilo
benevolente, de quem me aceita,
ela está ali a olhar,
a sorrir, antes de sorrir
mesmo

está ali, ela, a olhar para mim
um dia, sim, um dia
vou perder o medo,
vou agarrá-la pela nuca
com ambas as mãos
e beijar os lábios dela
com toda a força

e dela recuperar o amor
que não chegou a chegar

2.11.05

a força e a matéria


primeiro
a força e a matéria
eram as coisas que existiam

depois a matéria sofreu
uma doença

a isso se chamou
"a vida"