22.5.06

momentos altos

um action man da literatura
Cuidado Indiana Jones! Em recitais ninguém bate Dionísio!
(reparem na caveira)

bem acompanhado - por uma junkie do século XIX

14.5.06

nota de imprensa

QUERIDAS AMIGAS E VERMES: peço opinião pela nota de imprensa. Sugestões e indigestões serão extremamente bem vindas


atenção: vai ser solto no Mundo o novo livro de Rafael Dionísio: chama-se LUCRÉCIA.

Nota de Imprensa:
Lucrécia é o novo romance (vanguardista se a palavra não tivesse caído em desuso), de Rafael Dionísio. Trata-se de uma viagem fabulosa, alucinante, aos mundos de uma personagem chamada Lucrécia (tenha ela os nomes que tiver). É uma história inteligente, mordaz, irónica, por vezes emotiva, perturbadora e/ou excessiva. É um livro que destila, para além alcóol, cultura por todas as páginas, num furor e alegria discursiva únicos e absolutamente ímpares na cultura portuguesa.


Excerto:
- julgas que vou arranjar trabalho agora? ano novo vida nova menino. agora estou em férias. foda-se. digo montes de palavrões. há homens que não gostam. fica feio dizer palavrões. – suspira. amachuca o maço de tabaco. chesterfield lights. cofia o cabelo no meio da testa, por cima do amarelo, com o dedo indicador. está a pensar. a sentir-se observada. a sentir-se um bocado animal de laboratório. hoje não está maquilhada. dantes pintava-se muito mais. ainda bem que agora tem menos estuque na cara.

Rafael Dionísio nasceu em 1971 e é autor de uma já bastante razoável produção literária. Publicou recentemente "A Sagrada Família" e "textos mais ou menos poéticos". Além da sua produção literária reparte-se pelo Estudo Crónico e ministrando cursos de Escrita Criativa na "Tuatara Atelier Aberto". Rafael Dionísio é senhor de vastos recursos estilísticos/literários apresentando uma obra com um carácter multi-dimensional e proteico.

2.4.06

adolescência



















tenho trinta e poucos anos. sou ainda um adolescente. sábado à noite depois de jantar com pessoas maravilhosas. e depois o bairro alto, magnífico, com as ruas roupas cheias de sorrisos, as ruas acotoveladas onde tanta nova e bonita. as ruas fremitantes de energia e de adolescências. muito alcóol, evidentemente, e cigarros em fila uns atrás dos outros para serem todos fumados.
e depois já é tarde e as ruas do bairro alto começam a escorrer gente para os lados, os bares estão a afechar. vai-se descendo para o calhariz, para o mítico e imutável "incógnito". cheio a rebentar. é uma casa grávida de multidões. o "d´´artagnan" não deixa entrar mais ninguém. mas lá conseguimos lá entrar. como todos os adolescentes ficámos ávidamente na fila à espera.
aquilo é entrar e tem um ambiente algo próprio. o próprio espaço tem auqele cunhbo de ser "buateque é uma palavra caída em desuso na nossa língua e qe designa locais assim parecidos nos asnos setenta, mas que por ser nos anos setenta, tinham uma aura mística de proibido, de transgressão pop/rock, de libertação, de crime contra os bons costumes. Parece-me que o "incógnito" tem algo disso assim. (ou então sou eu que vejo assim porque não cheguei a ter essa adolescência, tive outras).
e depois descemos para a pista de dança. e encontrei um amigo. e quando vejo a nossa amiga vou para cumprimentá-la e ficámos nos cumprimentando na boca durante quanto tempo?. clámo-nos num beijo fantástico, daqueles beijos que pela sua raridade são tão magníficos e especiais. nem dissemos nada um ao outro. pura e simplesmente nos beijámos com toda a sofreguidão do mundo. lambemos as gengivas, a língua, os lábios, os dentes, um do outro durante muitoooo tempo. enquanto isso távamos no meio da pista. no meio do turbilhão da música, dos fiordes de luz, dos encontrões das pessoas, não descolámos nem por nada, como se fossemos uma ilha num mar agitado. e por estarmos mesmo no meio de tanta gente é que estávamos no fundo tão sozinhos abraçados um ao outro.
só hoje de manhã é que vi os olhos dela. têm uma auréola cinzenta à volta do azul claro. como se fossem um eclipse de qualquer coisa, da íris para aí...
hoje de manhã despedimo-nos. parece-me que felizes. leves. surpreendidos.
e inconsequentes como todos os adolescentes.

18.3.06

lista numero cinco ou seis já não sei.












1. chovem dilúvios.
2. luz eléctrica.
3. jogar xadrez na internéte
4. músculos inchados e doridos.
5. ainda não mudei de roupa hoje.
6. ela olhou-me ontem. com os olhos de desejo que também são meus.
7. os pulmões depois da atmosfera.
8. ao estar tão fisicamente fatigado por isso os músculos enrolam-se nos ossos da indolência.
9. apetece-me tomar dois ou três comprimidos para dormir, e depois ficar narcótico a tentar resistir ao sono. como se existisse uma coisa chamada vontade e não apenas fenómenos bioquímicos e neuronais.
10. sente-se quando um olhar tem desejo dentro. quando uma mulher nos está a desejar.
11. será o mundo ilusão? buda deve ter dito ou pensado algo assim. mas ele não tinha que ter razão. de qualquer maneira os indianos nunca foram grandes pensadores. mas deram sempre bons ilusionistas.
12. eu acho que ela me olhou, ela me olhou com desejo físico no olhar, com uns olhos plenos de desejo e de fertilidade. isso a ser verdade, se era bom que fosse verdade, a ser verdade.
13. seria também cómico ela se calhar achar que eu não a desejo. como seu eu fosse alguém de muito importante quando sou a pessoa mais acessível do mundo com o coração espesso de sangue.
14. esta ultima frase é quase de antónio franco alexandre “recebe-me coração espesso de sangue” que é um verso lindíssimo.
15. (suponho pelos vistos que ela também me deseje, e que não seja a minha imaginação a fazê-la desejar-me)
16. estou a ler “théorie du corps amoreux”, do filósofo Michel Onfray, devia-lhe mandar um emaile um dia destes, e porque não? o subtítulo do livro é muito bonito “por une érotique solaire”.
17. sente-se quando um olhar é quente. quando tem desejo dentro.
18. é de noite. o cansaço espalha-se pelas costas. o cansaço é um eczema.
19. o desejo é perfeito. o desejo quando é proibido tem essa magia da transgressão, de ir contra a instituição do amor acinzentado quando durante muito tempo juntos.
20. (pressuponho portanto que ela também me deseja, e que não seja apenas a minha imaginação buda a fazer-me ela a desejar-me)
21. gosto particularmente de uma palavra inglesa para “estar baralhado”é “puzzled”. eu acho que tou puzzled com esta mulher.
22. fumei e bebi imenso ontem. mas também isso não faz mal.
23. já faço mais flexões e halteres. faço exercício para hipertrofiar os músculos. e esforço-me até encontrar a dor levantar-se dentro de mim. eu preciso definitivamente da dor para viver. da dor física, porque a emocional dispenso.
24. recuso-me categoricamente a sofrer por alguém.
25. será que imagino que ela também me deseja?
26. fumei e bebi imenso ontem. mas também isso não faz mal.
27. a carne do cérebro tenta adormecer. mas eu não vou deixar que isso aconteça.
28. as paredes olham para mim. estou no centro do quarto a escrever sobre o desejo, por uma pessoa concreta. e as paredes olham para mim como se eu fosse um acontecimento ou um fenómeno.
29. fiz agora roque pequeno. os ingleses chama a fazer o roque “to make a castle”. o que indica a filosofia feudal do xadrez. seguindo este raciocínio, de uma forma não muito brilhante, pode-se dizer que eu desejo a rainha que está do outro lado do tabuleiro e que tem provavelmente que ficar com o seu rei.
30. não tenho a certeza, mas acho que ela olhou para mim ontem. com uns olhos plenos de desejo. com olhos de desejo também de desejo os meus.
31. há uma fotografia dela na praia. é uma fotografia muito enigmática. com um rosto muito sonhador a olhar para a areia. se calhar à procura dos castelos perdidos da infância.
32. provavelmente, e como é habitual, não a irei beijar.
33. o desejo é do domínio do proibido e/ou da transgressão.
34. tenho a certeza que ela olhou para mim com “aqueles olhos”.
35. se acontecesse esse primeiro beijo, que me preparo de antemão e descontraidamente para não acontecer, isso seria uma descarga de adrenalina e de prazer profundamente bom e proibido.
36. vou baixar a música para ver se já voltou a chover.
37. um dia destes assim de chuva fui passear na serra de sintra à noite sozinho. pelo meio da floresta e a água por todo o lado humidade. hoje não me apetece.


11.3.06

vem aí a prima vera


e com ela, as flores abertas, e os insectos e vermes como eu a quererem cair lá para dentro à procura daquele melzinho bom que elas têm. para dentro daquelas corolas boas.

4.3.06

lista #4 (aurora)


1. sete da manhã.
2. as persianas estão fechadas. não há cortinas nas paredes o que dá um ar simultaneamente rude e confortável.
3. a atmosfera arrasta-se por cima da casa, com o poder do vento.
4. os pássaros lá fora, desarrumados pelas árvores, cantam o novo dia.
5. a minha gata é toda preta. tem os olhos amarelos. parece um bocado de sombra a olhar para mim.
6. fiz uma tatuagem. é um símbolo. demorou hora e meia a fazer. para o fim já me dóia. mas fiz uma tatuagem.
7. tive com as minhas amigas ontem. que bonitas que elas são. e que alegria por revivê-las.
8. estou à espera que caia mais chuva. era bom porque me iria fazer confortável e protegido.
9. no outro dia o demónio visitou-me. tive a partir coisas e a gritar durante meia hora.
10. hoje é sábado. não vou precisar de sair da cama até segunda feira.
11. tristes trópicos. de claude lévy strauss. uma maravilha de livro. uma surpresa.
12. gostava de adormecer e de ter sonhos que me encantassem.
13. oiço agora o som curvo e longínquo de um avião.
14. precisamos todos de coragem.
15. os aparelhos avariam-se. no fundo nunca está tudo a funcionar ao mesmo tempo.
16. o tempo leva as pessoas para longe. às vezes desaparecem.
17. precisava de me tornar uma pessoa melhor. de sofrer uma remodelação espiritual.
18. não sei se este quarto não precisaria de outras cores. uma cores que dessem mais saúde psíquica.
19. vou tentar adormecer.
20. chove outra vez toneladas de água. parece que o peso da água vai partir as casas todas ao meio.
21. amanhã. talvez amanhã. voltar a sonhar.

28.2.06

lista#3 (sábado à noite)


1. fotossensibilidade.
2. toca telemann na antena dois, dentro de um rádio fanhoso, enferrujado, mas que funciona. sabe mesmo bem ouvir telemann.
3. a ventoinha do recuerador de calor funciona. faz um barulho tranquilo e hipnótico.
4. combustível: troncos de madeira. espécie: oliveira. brasas abundantes que palpitam como miocárdios doentes.
5. combustão: reacção de oxidação. o oxigénio junta-se ao carbono formando novas moléculas. (dióxido e monóxido de carbono). nessa reacção partem-se as ligações covalentes. libertação de energia.
6. leitura de um livro de parapsicologia.
7. constipação de dimensões médias. uma qualquer estirpe do virus influenza.
8. ligeira tosse e irritação.

9. sonolência profunda potenciada pela gripe e pela ressaca de exageros físicos.
10. cabeça quente mas talvez sem febre. sensação de "pedrada facial", como nas enxaquecas.
11 coração batendo regular e talvez nostalgicamente. pulsação normal. vísceras processando um grande prato de sopa de feijão.
12. leucócitos raros, na urina.
13. hemoglobina com bons níveis.
14. desespero médio mas não preocupante.
15. adormecimento temporário.

18.2.06

lista #3(escritório)



1. divisão 4X4 metros
2. tapete de ponto grosso, desenho dos anos sessenta, abstracto, em tons vermelho vivo e amarelo vivo.
3. divisão com aspecto geral de cheio.
4. gato preto, fêmea, com olhos bonitos a passear-se. tamanhp pequeno/médio.
5. estantes com livros. dimensões e materiais variáveis.
6. mesa de trabalho com tampo contraplacado. pernas de oficina.
7. candeeiro arte deco, no centro do tecto, anos trinta, linhas puras, câmpanulas de vidro salmão.
8. máscara de gás pendurada na parede, I Grande Guerra, supõe-se do Corpo Expedicionário Português.
9. paredes riscadas. citações de autores. máximas e reflexões. números de telefone e de multibanco.
10. vasos com plantas. no parapeito da janela e no chão. dois dos vasos têm plantas com folhagem luxuriosa, cerrca de 1.80 a 2 metros de altura. folhas e caules a debruçarem-se na janela (fonte de luz natural).
11. fotografia emoldurada de um bisavô. nome: joaquim rodrigues gomes. o sujeito está fardado com um indivíduo africano aos pés, sentado descalço em posição submissa como se fosse um cão.
12. estirador sólido de madeira. com computador e ecrã de plasma.
13. indivíduo do sexo masculino, de constituição robusta, estatura média, suiças, olhos e cabelos castanhos, a olhar parado. expressão de melancolia. uma certa lentidão nos gestos denotando nosológicamente apatia. rosto com expressão cansada. ténis de marca nike "air pegasus". roupa práctica, desportiva. calças de fato de treino.
15. tempo cronológico: sexta feira à noite. supõe-se que as pessoas se divertem e se riem, com as suas companheiras.
16. o indivíduo que olha para lado nenhum alega desencanto crónico no amor. tenta assim justificar a sua abulia e ombros desistentes em vez de reagir.

14.2.06

lista#2 (nascimentos)


1. mithra nasceu de um rochedo.
2. dionysos ficou incubado na barriga da perna do seu pai.
3. a minha irmã vai ter gémeos, bivitelinos, vão-se chamar marta e joão.
4. tiamat nasceu do caos e da lama.
5. se eu não tivesse nascido então eu nunca iria morrer.
6. fausto partiu a cabeça a um transeunte. tirou de lá de dentro um gólem embrulhado em pensamentos.
7. o sol está combustão a dar à luz.
8. outros deuses nasceram das situações as mais variadas.
9. quem pariu jesus era virgem.
10. a minha mãe teve três filhos. e antes teve um espontâneo aos cinco meses, e um nado morto aos nove. não sei se tinham nome.
11. a cesariana faz-se abrindo a barriga. é uma operação actualmente muito comum.
12. as vacas têm partos difíceis. mugem ao mesmo tempo que rangem da bacia. e é preciso puxar as crias para fora atando uma corda aos pés.
13. a felicidade nasce em canaviais, em ovos postos clandestinamente pela lua cheia.
14. adónis nasceu de dentro de uma árvore.
15. as baleias nascem em ninhos de água.
16. ulisses e os seus camaradas foram paridos para fora de uma grande égua.
17. jonas teve por mãe um cetáceo.
18. o sol acordará os ovos postos no canavial e, pelo menos um dia, a felicidade reinará.
19. no neolítico enterrava-se o cadáver em posição de bebé dentro da barriga da mãe-terra. assim deveria continuar por todo o sempre.
20. um dia destes nasço outra vez. tá-me a apetecer.

11.2.06

lista#1 (quarto)



















1. aparelho simples para abdominais no chão.
2. tapete anos oitenta cores vermelhas.
3. candeeiro de metal, com campânula generosa, em cima de mesinha de cabeceira com livros.
4. livro que aparece primeiro: satyricon, de petrónio, edição barcelona, 1965.
5. três sofás, uma cadeira, um banco.
6. aquecimento de metal, de parede, cor creme, anos setenta, design incaracterístico.
7. paredes pintadas rudemente de branco, com as declinações do latim escritas nelas.
8. cama tipo "clássico" pintada de branco e com inscrição a marcador: "labor omnia improbus uincit".
9. ténis espalhados pelo chão
10. livros, papéis, espalhados pelo chão.
11. roupa espalhada pelo chão e pelos móveis.
12. saco de boxe, vermelho, pendurado no tecto.
13. quarto amplo, talvez 7X3,5 m.
14 pé-direito normal.
15. cómoda com tampo de máromore. pintada de branco. (sujo)
16. quadro na parede, tela sem armadura, representando um jogo de xadrez. (7m) em tons rosa avermelhado.
17. quadros abstractos, em tons de branco.
18. lareira de tijoleira, com girafa africana sem cabeça de madeira, e um monte (literalmente na forma de monte) de livros por cima.
19. janelas de duas folhas, de abertura à francesa. duas janelas e uma porta-janela que dá para o quintal.
20. pessoa a escrever deitada na cama. a escrever em caderno de notas de baixa qualidade. a escrever uma lista das coisas que há no quarto.


11.12.05

explicação do fogo



a lareira arde na escuridão
espalha sombras pelo tecto
e suja as paredes com agitação,

já houve alturas
em que o fogo tinha uma alma
agora nele só há química,
ligações covalentes que se partem,
a energia que é liberada,
a fluidez gasosa das chamas
a termodinâmica da temperatura,
e a radiação que fica vermelhando

heraclito,
também pensava no fogo
e nesse seu pensar
existia um mundo em devir

prometeu,
como o amigável satã,
ama o fogo e o conhecimento
contra o fascismo de deus

cristo,
talvez fosse melhor cristo,
ter sido incenerado
escusávamos de ter hoje seitas
que adoram um cadáver

as cinzas,
devem ser inertes, minerais,
a parte mais inanimada
do fogo que se evapora

o fogo faz parte
do ciclo do carbono
do qual também nós fazemos parte)
e é essa
a sua última poesia

quando me sento em frente ao fogo
sento-me em frente de uma pessoa
que está como eu
nero em combustão

um sonho
com o cérebro combustível
(sonâmbulo incêndio)
um sonho desde
o núcleo do carbono
até ao fim do fumo

um sonho desses
é o que eu mais desejo

4.12.05

no centro do sangue

no centro do sangue
acontecem algumas coisas

e os sentimentos dilatam
as paredes musculosas
da parede vascular

(acelero o carro
pela estrada de árvores
as luzes das viaturas passam
como se penduradas no ar velocidade)

no centro do cérebro
lá dentro no profundo
acontecem coisas
que mais tarde ou mais cedo
vão ter de ser ditas

(espero
como se estendesse uma armadilha?)

no centro do sangue
surge um segredo mais forte
que frutifica e fertiliza
todo um coração que se expande

(um dia destes digo-lhe)

27.11.05

a moagem do meu avô


a moagem era bela a moagem
com as suas janelas verdes quadradinhos-vidro
com o seu pé direito alto de girafa
e com as suas maquinetas de madeira
e articulações de aço

eu não vi a moagem a trabalhar
morreu pela primeira vez talvez
nos anos quarenta nem sei
mas passei tantas tardes
dentro desse edifício agro-industrial
que pensava que ele também era eu

e as máquinas paradas
eram fantasmas do movimento,
o caruncho ia mastigando as madeiras
e os silos,
enquanto as partes de ferro fundido
davam um ar expressionista à inactividade
como se estivessem as máquinas
estupefactas e sem trabalho

gostava particularmente das roldanas
das rodas dentadas,
do silêncio
e do pó

passei a infância
na solidão e no sonho
em sítios como aquela moagem

por vezes subia ágil
pelas condutas acima até aos silos
e ficava escondido a observar o silêncio
(como se fosse um pequeno animal furtivo)

este sítio foi demolido
só ficou um rasto de roldanas
paradas na minha memória
aquele sítio era uma cetedral industrial
de madeira e de cheiros secos e cereais
e tinha uma dignidade de teatro
ou de fóssil

este sítio foi demolido
e tenho pena de nunca nele
ter beijado uma mocinha
de espigas loiras como tranças,

bem, agora já não importa
já tudo foi demolido
mas ficou a recordação doce
daquele sítio que já morreu

18.11.05

gineceu

hoje sonhei
que estava com três mulheres
reclinado em almofadas,
rei no gineceu,
a apalpar-lhes os seios
as ancas, os rabos,
os cabelos e as vulvas,
sedado
pelos aromas que das fêmeas
saem

eu, que ninguém tenho,
(e talvez por isso mesmo)
sonhei que era proprietário
de três fêmeas

deito-me portanto para ser recebido
por paisagens oníricas
(e mulheres que me aceitem)
e enquanto isso, o sono, não acontece
deito-me no colchão no chão
e observo de baixo para cima:
(e observar rente ao solo
é como se voltássemos à infância)
observo a mesa de elefantes
dedicada a shiva
os sofás duma lisboeta casa antiga
as paredes com restos de mecanismos
as minhas plantas pujantes e verdes
as minhas estantes com livros
o calor do meu corpo e o conforto
os sofás castanhos e antigos e lisboetas
este quarto escritório tão seguro
como se fosse a infância que tive
como se fosse invulnerável
e pudesse sorrir ao futuro

deito-me aqui para sonhar
com mulheres, ou com aquela mulher
adolescente e de rosto de criança
com quem tive uma bela conversa
no outro dia

e sempre com a sensação negra
de a ela não poder ter direito
como se eu fosse um túmulo vivo

e enfim, sonhei-me com três mulheres
eu que nenhuma tenho
e ao acordar depois disso
masturbo-me mais uma vez
e depois fico a olhar para o tempo no tecto
as suas sombras
as suas fracturas no estuque
e uma ou outra aranha
octopernada
e vagarosa
a passar

8.11.05

pigmalião


um dia, sim, um dia
vou voltar a pintar, talvez,
agora sem pretensões
nem parvoíves conceptuais

por isso é que desisti da pintura
porque estava preocupado
com a aura da arte e do artista
balelas
além de que não tinha talento
mesmo

foi só quando desisti
é que me realizei o meu melhor quadro:
está ali, ela, a olhar para mim
com os seus profundos olhos da prússia
de vermelhos lábios e lábios menina
a pele rosada e lisa, as maçãs do rosto,
as curvas do pescoço e do queixo,
o rosto que apetece percorrer com a ponta
dos dedos ou com as narinas respirando-lhe a pele
até à base do pescoço, as clavículas,
o começo do peito, a pele

esta ali, ela, a olhar para mim
com as suas discretas orelhas de elfo
um seu o cabelo comprido apanhado atrás
um seu o pescoço tão modigliani
um seus os seus lábios carnudos
e tão profundamente sexuais

num sorriso tranquilo
benevolente, de quem me aceita,
ela está ali a olhar,
a sorrir, antes de sorrir
mesmo

está ali, ela, a olhar para mim
um dia, sim, um dia
vou perder o medo,
vou agarrá-la pela nuca
com ambas as mãos
e beijar os lábios dela
com toda a força

e dela recuperar o amor
que não chegou a chegar

2.11.05

a força e a matéria


primeiro
a força e a matéria
eram as coisas que existiam

depois a matéria sofreu
uma doença

a isso se chamou
"a vida"

23.10.05

monserrate


durante muitos anos
(agora já não)
quis morrer

e passava longas horas
pelos parques perdido
a contemplar as flores
à espera que elas me matassem

a beleza dos parques, das flores,
dsa mulheres (que como toda a gente
sabe são uma espécie de flores)
fazia-me sofrer a beleza
a inalcansabilidade
dessas coisas

durante muitos anos
(agora já não)
quis morrer
e passava largas horas pelos
parques perdido

uma vez descia a alameda
em monserrate, nunca lá tinha ido
antes (estava sempre a tentar ir
a sítios novos para me salvar),
e senti-me tão bem, tão bem,
senti-me maternalmente
protegido, a luz era incrível,
as plantas estavam tão vivas
tão verdes e "falavam" comigo
senti uma sensação tão forte
e tão reconfortante, tão de sonho,
que pensei que era algo
de outra vida a chegar até mim

hoje lembrei-me disso
e descobri pela memória
porque assim me senti:
eu tinha quatro cinco anos
descia a alameda entre os
meus adorados avós
com os olhos a um metro
do chão
e em frente, no meio das flores
e das magníficas árvores,
suspenso na luz filtrada pelas
redes de ramos e folhas,
surge um palácio mourisco
com janelas de fantasia

sim, tenho tido também
alguns dias felizes
talvez muitos, nem sei bem

e não acho nada
que a infelicidade
tenha, necessariamente,
alguma poesia
lá dentro

12.10.05

um valor de sempre: a amizade

hoje
descia o chiado,
quando um antigo companheiro
de charros, de copos, da night
(um daqueles que enlouquecíamos
na vertigem das horas noctívagas
e enlouquecíamos a filosofar,
a conversar e a cantar)

hoje
eu ia às compras,
descia o chiado,

ele mendigava.
virei a cara
e não lhe falei.

1.10.05

praia da adraga

o mar está picado...
como eu, o mar é um homem
revoltado

entre a bruma de outubro
e as rochas batidas pelo sal
a luz prateada e ofuscante,
a maré vazia,
os penhascos em volta
espetam a barriga do vento,

a maré vazia cheira intensamente:
cheira a pescado e ao norte da europa

o mar sorri-me aos trambulhões
como se estivesse bêbado e neurótico

e eu sou um animal revoltado
numa jaula
(firo-me nas grades para tentar sair)
mas se me quiseres ajudar,
podes ter a certeza:
mato-te

26.9.05

escuto a música de john adams

a persiana está estragada
oiço violinos subirem paredes acima
estou imóvel na cama
a fazer força para escutar
os tambores a triturarem, a mastigarem
os meus músculos a ouvirem, esticados,
o corpo todo como se fosse um ouvido

a persiana está estragada
o autocolismo não funciona
uso o balde que é muito mais
rupestre, e dá-me um conforto
primitivista e indolente

(a persiana está estragada)
escrevo riscos na parede
nas muralhas da cama
oiço a força de john adams
e não me importo nada
que as pessoas e os objectos
se estraguem

21.9.05

depois de darwin


na janela do meu quarto tenho uma companhia diferente e divertida. de noite, estou a ler, e deixo propositadamente a persiana meia e a luz acesa. a luz acesa atrai os insectos. e eles voam nessa "caixa", entre o vidro e a persiana. ora isso é uma armadilha predatória. porque nessa "caixa" também vai inteligentemente um réptil, um predador temível na escala dos insectos.
as traças tracejam voos desajeitados. a osga, ágil e de movimentos espertos, abocanha e engole o corpo dos animais e até parece que se ri quando a borboleta esbraceja a ser mastigada. e a sua barriguita anda gorda!
não sei porque é que as "pessoas" acham repugnante um animal como a osga. tem um sorriso fantástico. tem uns olhos de intelectual e umas luvas de cirurgião em cada pata. corre velozmente. é um predador, o que requer sempre mais inteligência. e tem um casaquinho de escamas sarapintadas. faz uma alegre matança de insectos para viver e eu gosto de a ver nos seus movimentos ondulatórios de corpo todo.
a minha osga partilha com as minhas flores o seu interesse pelos insectos. e não lhes fica atraz em beleza. é uma maravilha da evolução, filha de darwin, e eu gosto de a ver feliz com a barriguita quase a rebentar de cadáveres invertebrados.

12.9.05

praias vazias no fim do verão


ainda vou "tentar"
encontrar o sol e as falésias
o nevoeiro na praia
e os murmúrios do outono

as faixas geológicas
nas feridas das falésias
lembram-me a irrelevância
dos seres humanos

ainda vou "tentar"
encontrar uma sombra fresca
no ar húmido do mar bravo
e um nicho na rocha
onde tecer um covil de poemas
e me sinta seguro e calmo,
para ficar a olhar para o mar,
sem estar irrequieto e nervoso,
a olhá-lo assim de frente
olhos nos olhos mais uma vez
agora que o verão está crepuscular
e já deixei de esperar
que "alguém" chegue
com pés de areia

2.9.05

o "quarto dos meninos"


em tons amarelos e secos
as cortinas pesadas, monumentais,
as paredes eram azul desmaiado
de tabaco

e havia uma máquina de costura
enorme, coberta com um pano terra
que parecia um vulto assustador
fascinante, misterioso

a colcha era de desenhos estampados,
tecido liso e fino, era uma rede
de florzinhas estilizadas e pontinhos

passava horas de olhos abertos
imerso em terror e em espanto
olhando o tecto, as cortinas, o vulto,
imaginando coisas
e sonhando

passava horas de olhos abertos
a olhar em redor, fascinado,
no centro do mundo.

e hoje passo horas
a imaginar-me quando estava a imaginar
quando naquele "quarto dos meninos"
podia ser tudo porque imaginário

30.8.05

clorofilia





eu sou a chuva,
entre os pinheiros nocturnos e calmos
a caruma e as estrelas no meio das copas,
eu sou a chuva a horas tardias
noite-jardim, de mangueira em punho

brincando e fazendo curvas
com o jacto de água que sai...
do ponto de vista do jardim
eu sou a chuva

as gotículas agarram-se às folhas
os aromas desprendem-se das plantas
molhadas

alfazema, hortelã, cidreira
canteiros que são ecossistemas
plantas silvestres,vasos

brincando e fazendo curvas
com o jacto de água que sai:
eu sou a chuva!

21.8.05

candeeiro, madrugada



a luz é insidiosa, silenciosa,
os olhos de um filósofo
olham-me numa gravura
a meio caminho de ser comida
pela humidade e pelo desagregar do
tempo

a aparelhagem e os seus botõezinhos
cinzentos, tecnológicos, complexos
lembram-me as promessas da adolescência
que não chegaram a ser
cumpridas

o padrão da carpete
esconde famílias, pegadas
de pessoas passadas,
pessoas que morreram à pouco
mas que morreram tão
irreversíveis

eu também tenho morrido
e de vez em quando
tenho morrido asfixia
com os objectos espalhados pelo quarto
que naufragam
pelo chão
adentro

18.8.05

depois de darwin



a gata rebola-se na carpete
com os seus olhos extraterrestres
rebola-se nos meus dedos
quase pornográfica

com uma imensa ternura
com as garras recolhidas
e com a sua espinha dorsal
serpenteando nos meus braços
dormimos juntos
numa meiguice e amizade
inter-espécies

e de madrugada,
corremos atrás dos ratos,
e é certo, saudável e científico:
só os mais fortes
sobrevivem

14.8.05

las meninas*



as meninas banham-se nas
másculas ondas, atravessam-nas
leves com os seus corpos dinâmicos
propulsionadas por fortes coxas

as adolescentes de deliciosos biquinis
parecem focas furando
as ondas de água muralhada
com as ancas a deslizarem
aquáticas no mar e cheias
de vida

desviam-se das turbulentas ondas
ágeis e femininas, difíceis de agarrar,
fortes e férteis, curvilineas como violinos,
e os lábios cheios de sangue

e olho paralisado na toalha
para o mar dentro delas


* o livro "les mots et les choses", de michael foucault, começa com um capítulo sobre o lugar do eu e da perspectiva (ou qualquer coisa do género) sobre um quadro de velásquez intitulado`"las meninas". todos os textos meus que tiverem este título referem-se subrepticiamente a esse capítulo (digo eu, sei lá).
a pintura do mar com umas miudas debaixo de água é do gerhard richter.

8.8.05

o som e o silêncio



o rádio a pilhas
com música clásscia dentro
chamusca o ar de violinos
fanhosos e árias com interferências

situo-me na horizontal,
imaginando o barulho do rádio,
se estivesse ligado

e oiço de memória
várias melodias de vários compositores
que amo com maravilhamento,

a música é uma dádiva
e quando estamos noite dentro
em profundo silêncio
podemos ainda ouvir a reverberação
dos acordes e das sinfonias
ainda a ecoarem nas profundezas
das células

só, e em silêncio,
é que se pode escutar
pela memória, a verdade
da música

4.8.05

os vasos de flores

são vários vasos de flores
plantas que se exprimem
em folhas dentadas,cores
invisíveis, caules cartilaginosos
carnudos e cheios de seiva

deito-lhes um pouco mais
de água do que devia, para
ver os fundos e cogumelos
brotarem nas cascas podres

as flores da minha janela
engolem muito sol e espreitam
lá para fora como se quisessem
fugir de casa, as folhas são cheias
de veias verdes, cheias de arames
e teias de veias verdes

os meus vasos de flores
brotam por entre as paredes
e eu sorriso para elas

29.7.05

mütter

o coração da minha mãe
é um papel de seda
ensopado em sangue

odieia-a anos a fio
lembro-me da indiferença,
quase alegria, quando ela
bateu com o carro e me tele
fonou, às quatro da tarde,
comigo a ressacar

é mais fácil escrever à paulada
que escrever um poema à mãe
(a não ser que sejamos russos)

o coração da minha mãe
é um papel de seda
ensopado em sangue
puxado para a frente e para trás
e que um dia se rasgará
espero daqui a muitos anos

27.7.05

monóxido de carbono (ou: máquina e remorso)

os pulmões do motor
a asmarem furiosos força,
as nuvens no céu, a invadirem
a terra, com as suas toneladas
o seu peso, e a sua ânsia em
morrerem

o motor em asma,
com os brônquios do óleo
tubagens pulmonares
e o dínâmo da força
a fazer força

a correia das nuvens,
a roda dentada ignição,
o relâmpago, o monóxido, as sombras,
sujas de óleo, do motor,
das âmpolas e das engrenagens
que se sucedem em força

agora
a máquina e o remorso
estão ligados

observatório

este candeeiro tem uma
determinada, específica, luz,
estas mãos têm determinadas
palavras que se juntam
fazendo textos, e por vezes
enxurradas e por isso afogar

este quarto tem verão
agarrado às paredes, e
cómodas com imperadores
romanos lá dentro, tapetes
incaracterísticos, um armário

um tecto de quatro cantos,
uma tijoleira vermelha,
um colchão no chão
e nele um "poeta"
a escrever umas coisas

25.7.05

a menina das tranças

a miúda jovem mulher das tranças
e dos seios grandes e fortes a
menina das tranças na esplanada

de biquini azul bebe um sumo
e os lábios dela são inchados
de "fertilidade" e de beijos por dar
de cara bolachuda e perfeita,
curvada sobre a mesa, ausente
dos olhos gulosos do "poeta"
que transforma o mais puro e
duro desejo sexual em arte literária

a licra zul clara não esconde
as suas maminhas tão filosóficas
quanto grandes e interessantes ao tacto
que ela coça destraidamente
para gáudio e excitação do "poeta"
que morde as mãos para se acalmar

a menina das tranças
é a "fertilidade" em pessoa,
e o "poeta" teria muito gosto
em vê-la inchar com a sua semente

21.7.05

ceci ne cést pas un pipe

escolho as palavras
cuidadosamente pego nelas,
como se fossem microscópios,
e perante o mar escolho
a palavra mar para o descrever

a "lua" é um bocado de terra
morta no meio das estrelas

a rapariga passa e sorri,
nada do mundo é mais belo
que uma rapariga que passa

e a "lua" é uma lata velha
suja de crateras

silence still

farto do fausto e das suas merdices decidi suspendê-lo por tempo indeterminado e fazer uns poemas que se poderão agrupar segundo um grupo (ou livro) que se chamará CICLO DO CARBONO. tou numa tentativa de escrever cenas menos agrestes, de ter um tom o mais neutro possível, poemas descritivos enfim sempre um bocadinho melancólicos (o que fica sempre bem). acho que já tentei escrever assim muitas vezes. mas acabo sempre por começar aos pinotes e aos pontapés e a meter facas nos textos e sangramentos diversos, pústulas infectadas e outras mui variadas mazelas em odivelas, etc... lol, então aqui vai:






Silence Still


o ladrar de um cão ao longe
a luz da lâmpada no papel
estes livros e estas canetas
o escruto por detrás das persianas

o barulho morno do trânsito,
misturando com a água das ondas
que se ouvem ao longe,
um pássaro retardatário
uns ramos quem barulho nos ramos

estar parado a reflectir ou a sonhar
estar atento aos barulhos da noite
da noite não tem vento

um ar condicionado, a sua ventoinha
o calor geológico do verão
e a "imortalidade"

29.7.04

21 sonetos

1. um calor de canícula. os antigos chamavam canícula porque a época do calor coincide com a constelação do cão. a casa resfolega frigoríficos. barulhos eléctricos. e na rua as cigarras vão esfuracando prédios. um cão ladra, derretendo-se no passeio. uma gaivota passa com um riso de hiena. e o cão mostra os dentes às estrelas.

2. o guincho de um autocarro. uma travagem. a noite é espessa e escura. o ar é tão forte que o ar não consegue o tórax. o suor. o corpo nu e vazio. inchado de constelações e desespero. percorrer a rua com a língua. com a humilhação própria. com a revolta. de um lado para o outro.
um insecto antes de ser esmagado. o estômago depois do pesticida.

3. a impotência e a prisão. a tortura no crâneo. as plantas adaptadas ao calor. com as suas patas verdes a mexerem-se. o meu corpo de insectos.

4. a passagem da página. os restosw dos crustáceos. comer animais com muitas pernas. os homens a recolherem o lixo. o vagabundo que mora e morre naquela esquina.

5. as flores que se enchem de água e de pólen. as chaminés ao longe. a incompreensão de tudo. os carros passam passeando-se pela avenida. os candeeiros altos que iluminam. ninguém.

6. a doença que se prolonga. os outros que são felizes. as telhas de aba e canudo, vermelhas de argila. o céu onde se riscou uma estrela cadente. para sempre.

7. a poesia são aqueles caixotes do lixo onde as doenças e os ratos se propagam.

8. a rua caiada de sol.as vértebras do pescoço que se curvam perante a escrita. a penunbra da casa. o rame-rame da ventoinha.

9. pratos do alentejo nas paredes. um livro de saint john perse. uma carcassa meia comida. as cortinas paradas nas janelas. o calor abstracto.

10. um jornal de ontem. um copo vazio. uma caneta. uma carteira algo já usada. uma pulseira. uns óculos de sol e uns óculos de ver. a mesa de azulejos.

11. o murmúrio das pessoas na rua. o vento muito suave abana as ruas e o escuro. ouve-se um travão de um carro. pessoas saem e conversam.

12. o telemóvel sobre a mesa. a mesa é circular. duas canecas vazias e fausto a pensar ir buscar mais uma. está uma bela noite. cheira a incêndio. por essas serras e florestas a estas horas já deve estar tudo a arder. fausto acaba a caneca. vai ao bar buscar mais uma.

13. na rua passa um casal embriagado. ela está histérica e a discutir. talvez ele perca a paciência e lhe levante a mão. os insectos juntam-se no candeeiro. outras pessoas conversam na esplanada com copos. há a felicidade.

14. fausto sente o excesso de actividade física. recosta-se na cadeira e embriaga-se feliz. as casas são esquisitas. têm demasiadas janelas e isso perturba. houve uma altura em que tinha medo das casas. e elas estão por todo o lado e a isso se chama cidade.

15. há um toldo amarelo por cima. a noite começa a canibalizar as casas. os sentidos embaciam-se e tornam-se cambaleantes. o ar está cada vez mais inflamável. fausto bebe grandes golfadas de cerveja pela caneca.

16. fausto pensa que qualquer soneto é uma cadeira vazia na mesa onde fausto está sentado. apoia a cabeça numa mão. o cabelo cheira a fumo, e a noite é tão grande como a descida de um batiscafo à verdade.

17. o pânico que o bar feche e que a noite acabe. pedir mais uma caneca. tentar falar com o telemóvel. o chão é de cianeto hexagonal. parece uma colmeia ou uma fábrica.

18. fausto tinha fobia das casas. era como se elas olhassem para ele e o culpassem.

19. gostaria de estar só e tranquilo, a meditar transcendências. metido na pequena casa de madeira no meio da floresta. rodeado de livros e o inverno neve na floresta.

20. o mar é uma casa na floresta.

21. mais tarde ou mais cedo o incêndio chegaria a fausto. e como fausto é uma pessoa de papel arderia rapidamente no ar. como uma borboleta de fogo a voar na floresta.

5.7.04

adraga

fschhhhhhhhh... fcsch...... ondas. a areia. ondas na areia. grãos. grãos são a areia. um livro. agora um livro. paul eluárd. uma garrafa de água verde. água das pedras. a toalha de praia na praia. toc. toc. toc. as raquetes toc. toc. as ondas fschhhhhhhhh... fcsch...... o chapéu de sol. cores. azul. vermelho. amarelo. são as cores primárias. toc. toc. toc. as raquetes. uma mulher nova adormecida ao sol. fato de banho azul claro. a duna na anca. o mar fschhhhhhhhh... fcsch...... o sol a mover-se. devagar e imperceptível. as horas suspensas no calor. a praia. o vento levemente frio. o sol forte. a mulher adormecida. a mala de praia. o tecido tafetá. o mar fschhhhhhhhh... fcsch...... o calor poing. a humidade vzzlle. a bandeira amarela. a bandeira amarela brlu brlu ao vento. as ondas fschhhhhhhhh... fcsch......
as raquetas calaram-se. já não toc. toc. toc. agora apenas mar. agora apenas mar fschhhhhhhhh... fcsch...... a mulher nova dorme ao sol. o monte tem verde mediterrâneo do lado esquerdo e cinzento calcáreo do lado direito. o verde e o cinzento misturam-se. uma rocha afocinhada no mar. agora tirar uma fotografia a uma rocha afocinhada no mar. no mar fschhhhhhhhh... fcsch...... e a bandeira amarela brlu brlu ao ventoas pessoas na praia. em flocos sobre o areal. a mulher nova dorme reflectindo o sol. um insecto rastejante passa. o guarda sol. debaixo do guarda sol.
(foi nesta praia que o poeta se afogou, por isso fausto escreve objectivamente, adjectivando o menos possível. nem sequer escreve. enumera. porque a poesia morreu. se o poeta morreu então a poesia morreu com ele)
e a mulher dorme fêmea ao sol.
e o mar fschhhhhhhhh... fcsch......
e as raquetas recomeçaram toc. toc. toc.
e a bandeira amarela ao vento brlu. brlu. brlu.
e o sono de fausto rrrrr.... rrrr...

22.5.04

estar doente

a planície está vazia
de coração arrancado,
as veias estrangulam-se nos pés,
e fizeram tropeçar fausto

também édipo caminhou assim
com o coração pesados nos pés
antes e depois
de mutilar os olhos

que peso desce coração
aos pés tanto peso?

como se o centro do corpo
percutisse pulsações doentes
batidas de quem pede ajuda

(e o plexo solar
a pôr-se no horizonte)

8.5.04

o pai de fausto

estava com as pernas desatarrachadas da bacia, porque tinha estado a morrer durante três semanas há três anos. estava tecnicamente acamado. em linguagem popular estava aleijado.
não é que fausto tivesse assim uma pena tão profunda. antes pelo contrário. havia uma grande parte de si que gostava de o ver diminuído e dependente.
lembrava-se muito bem de todos os infinitos sermões, em que era requisitado burocraticamente por seu pai até ao gabinete, e que o ouvia humilhando-o intelectualmente com "discursos". discursos que invariavelmente o amesquinhavam em relação aos outros, a todos os outros, e que lhe davam um sentimento de culpa em relação ao mundo que continuava profundamente enquistado no seu ser.
e agora o pai de fausto estava acamado. fausto tinha que lhe levar o tabuleiro de jantar e ainda tinha que ouvir a sua voz autoritária e insolente a chamar para lhe ir buscar um papel ou para verificar pela enésima vez um estrato de conta.
um dia destes havia de lhe atirar o jantar na cara. queimando-o e demonstrando-lhe finalmente o que sentia.
mas por agora continuava a obedecer como se gostasse dele.

3.5.04

cadernos de fausto

tinham-lhe despejado cimento no coração, e assim sentia como que uma fossilização do plexo solar. tinha peso na respiração e o esforço do diafragma em erguer e esticar os pulmões para erspirar era aço inoxidável.
ficaria assim, deitado, na luta pelo oxigénio, a olhar inexpressivo as paredes, a pensar em tudo o que viveu e em tudo o que gostaria de ter vivido. a pensar, ventilando ideias com dificuldade, com o sangue espesso a empapar-se no cimento.
e ficou assim, a olhar. à espera. apenas à espera.

10.4.04

declaração de amor

a adriana e eu tivemos a beber e fumámos um charro. depois fomos para casa. e quando me fui deitar ela perguntou-me "como é que vieste aqui parar?"
ela tava cheia de vontade de tagarelar e eu de dormir. (távamos com mocas muito diferentes)
e ela pediu-me "faz-me uma declaração de amor"
e eu respondi "olha, já és parte da mobília da casa, pareces um rodapé"

hoje á tarde já fizemos as pazes sem termos chegado a ficar zangados.

3.4.04

à lareira

uma aranha caída
numa teia de brasas,
encolhe os seus tentáculos
na dor

a adriana dorme
enrolada no bem estar
ali no colchão

e eu contemplo
a evaporação da aranha
esperneando oito vezes
a sua morte

1.4.04

não consigo falar

por baixo dos pés, por debaixo de mil metros de profundidade, por baixo do húmus e das rochas concentracionárias, existe o mar. o mar a mil metros de profundidade, a apodrecer os ossos da cidade, ao fundo de um poço, existe o mar a mil metros de profundidade, por baixo das fundações e das, e dos lixos centenários, e dos por baixo dos pés, a mil metros de profundidade existe o mar.
o mar a apodrecer a terra toda, a infiltrar-se pelas bainhas da carne do mundo.

19.3.04

o meu coração remexe-se
estica os seus braços
como se se espreguiçasse

bate como um arquipélago
através das costelas
bombeando
caixas e caixas de sangue.

e a serpente mexe-se
como algo obsceno
e divide a erva em duas.

14.3.04

e os mortos espalhados pelos combóios, como estrofes partidas. alguns ainda sentados nos bancos, a olharem espantados através de ferros retorcidos, à espera que os socorram.

10.3.04

está a chegar a primavera, e com ela as flores e as mulheres cada vez mais bonitas, os dias grandes como naves de catedrais, a alegria. o calor. as cores e a vida ficam mais intensas, e com elas a vontade de me mutilar outra vez.

6.3.04

gostava de conhecer aquele lado, talvez. a água é funda, de uma profundidade metálica. as ondas marulham no molhe, com uma calmaria melancólica, de águas magestosas que descem em corrente.
cheira a maresia e do outro lado há um outro molhe, uma parede de betão suja pelos anos, gaivotas mudas no espaço, o motor de uma traineira ao longe, o céu pesado, nuvens mumificadas, estáticas de nostalgia. o céu como uma bifurcação irreversível.
foi já uns anos que essa possibilidade foi deixada para trás. mas eu explico melhor, assim com uma imagem: gostava de conhecer aquele lado, talvez, aquela margem ali, com as suas dunas e pássaros (passa uma lancha no meio da ria, a ondulação bate na muralha de pedras como um velho cargueiro a arrastar-se na água, um peixe salta, quebrando a monotonia).
gostava de conhecer aquela margem, talvez. mas penso que é melhor ficar deste lado e não ir passear pelas dunas e molhes, arbustos e pássaros daquele lado. se fosse à outra margem ficaria a saber como ela é. prefiro ficar por aqui, a pensar que aquele lado direito do rio é melhor que este lado esquerdo.
sei que quando conhecer aquelas terras além vou ficar desiludido. prefiro não ir. não me mexer. não quero saber. e consigo imaginar aquelas terras além muito mais poéticas do que estas.
e os faróis do porto, e os reservatórios de gás brancos e esféricos, e os reservatórios de crude cinzentos e cilindricos, e os guindastes, e as construções marítimas, e a profunda melancolia do céu encoberto e disto tudo. o céu nublado lembrando uma rapariga que se afogou no rio uns anos atrás. uma rapariga linda e que hoje já quase ninguém se lembra dela.