28.1.07

os fungos de fausto






fausto coleccionava fungos. fausto coleccionava fungos e chamava a isso "as minhas podridões". fausto coleccionava fungos porque podridões. fausto coleccionava porque num ninho de ciência e de doença.
no seu laboratório frascos com fungos ferozes. e lá dentro fausto havia frascos com fungos. ele gostava de fungos porque doenças. ele gostava de fungos porque bacteriológica e porque doenças bacteriológicas. ele gostava porque silos com bacilos. ele gostava de fungos e de podridão putrefacção em geral. e de doenças. do poder que as doenças lhe davam. bacteriológico. do poder que os bacteriológicos trazem. do poder dos bacilos. dos organismos vivos que venenos.
ele gostava de fungos porque bacteriológico e doenças. fausto na floresta: ervanário do mal. fausto na floresta fungos e bocados de seres vivos. organismos retirados a fórceps da natureza, retirados a fórceps extracção forçada natureza.
às vezes levava nas suas expedições científicas à floresta, levava mulheres. levava mulheres à floresta e acabava por se deitar em cima delas nos fetos, como uma sombra por cima delas e inoculava-lhes o seu esperma incubo. raramente se debatiam a não ser na aflição do orgasmo testemunha a floresta. fausto na floresta ervanário do mal. elas raramente se debatiam porque sabiam ao que iam.
fausto na floresta recolhia fungos e doenças como se fossem seus filhos. trazia-os para o laboratório. fabricava fungos e filtros, ciência e doença. e na sua organização de bacilos entrava por vezes em delírio pelas doenças que experimentava.
e, por cima de todos os seus boiões e godés, por cima do aparato de lâminas e microscópios, encontrava-se, o olhar espancado de um cristo. não que fausto fosse cristão mas porque aquilo simbolizava uma das maiores fraudes que um ser humano tinha perpetuado. fausto celebrava essa fraude. fausto sabia, desde as noites sonâmbulas dos tempos, que o que movia pessoas como o nazareno era a luxúria da glória, o exibicionismo masoquista, o sofrimento sacralizado, a luxúria da glória, a loucura de se exibir no seu triunfo da morte. só para que os outros o considerassem deus, só para se perpetuar na memória dos homens. e fausto não achava que esse logro do cristianismo, na figura de um doente perverso e exibicionista, fosse errado. cristo era admirado por fausto pelo seu engenho maquiavélico em enganar. e isso estava certo. tornar-se um deus face aos ignorantes. isso estava certo. triunfar e sobressair da massa ignorante e supersticiosa. isso estava certo. exibir o seu gozo e o seu martírio perante todos, tornar-se adorado deixando-se levar em suicídio ao gólgota. isso estava certo.
como fausto compreendia essa furiosa demência humana... tornar-se deus... como fausto compreendia que um galileu tenha morrido para se imortalizar... só alguém tão perverso como cristo é que o poderia ter feito. só cristo ou o próprio demónio, mestre do logro, rei do engano, para poder parir o monstro do cristianismo.suicidar-se para ser deus. que perversidade maravilhosa! eis a que se resume uma das mais belas obras do demónio. e, diga-se em sua justiça: a mais perfeitamente executada.








13.1.07

a conquista do filósofo, na primeira pessoa

no outro dia era um lago, os bichos podres lá dentro, no outro dia era um lago com bichos podres lá dentro. e eu ainda queria um aquário com aqueles bichos todos podres todos lá dentro lago. com aqueles bichos podres lá dentro.
eram falácias entre as cordas e eu não conseguia voltar, e num dos trilhos havia drogados injecção e queriam injecção e agarrarem as pernas das pessoas passam na rua e eles como se fossem polvos drogados.
mas eu não conseguia voltar. quando lá se vai já não se vai conseguia voltar. mas eu não conseguia logo lago voltar. e com bichos podres lá dentro. era aquele caminho mas eu não conseguia voltar. e com bichos podres lá dentro. e eu lixo desarrumados pelo chão. em toda a glória e psicologia descontrolados pelo chão. drogas descargas impulsos electrocussão.
as barreiras, os obstáculos, e eu tinha medo porque outros assim com força, com força extremista, levadas as pessoas poesia como extremos levadas as pessoas como, levadas à porta dos precipícios e lá em baixo largos lagos com bichos mortos podres lá dentro, lagos mortos. com extrema irracionalidade. com extrema intencionalidade. os obstáculos. com as ideias a ficarem quem sou eu onde estou como vim aqui parar? com as ideias a dizerem porque é que estas pessoas estão faustomortas?
com extremo cansaço, erguendo o braço morte músculos do lago, como quando combustão. e assim exemplo pessoa a arder no meio do caminho, a ficarem ideias como sou, com as ideias a dizerem porque é que estão mortas?
e a psicologia descontrolada. com extrema intencionalidade. com extremo cansaço, por meio das pessoas e a arder quase dinamite, levadas à força precipícios, lá para baixo isto sim assim é uma pessoa. levar por isso as pessoas e os precipícios às últimas consequências.
agitação intensa, grande perda de sangue, grande quando que poder de ataque, os impulsos sexuais bater nos impulsos sexuais, as pessoas levadas às últimas consequências, pela força, pela força, e anjos doentes a pousarem abutres doentes, e sujos doentes a poisar em árvores em cima do lago, mesmo por cima a poisarem doenças. eles estar estão a poisar! eles estar estão a poisar!
por isso mesmo descontrolo de si mesmo. os impulsos sexuais, bater nisso dos impulsos sexuais, os impulsos sexuais como electricidade aos coices, como as mãos electricidade nos nervos duzentos e vinte volts. drogas descargas impulsos electrocussão. nos pés e nas mãos a electricidade electrocussão. e o corpo amarrado a ser electricidade.
bater nos impulsos sexuais, o descontrolo, o altar dos mortos, o verdadeiro altar nosso violência, como são doenças, anjos abutres nas árvores, a verdadeira fuga, a fugitiva da vida, abre-se um espaço e nesse compartimento altar dos mortos, água dos mortos, compartimento violência até ao tecto.
de gestos bruscos, de movimentos esquizofrénicos, de pancadas súbitas, de gestos e de pancadas bruscos, de gente batida inusitados mortos, inusitados anjos mortos, nas árvores, enforcados como anjos inutilizados, a verdadeira fuga, até espancar, violência até ao tecto.
nas árvores, enforcados com as asas tristes, homens-pássaro do paraíso levados até ao enforcamento, repletos de sexos podres como uma revelação, para demonstrar a funda perversão, como uma fúria em ser deus, anjos doentes mentais, deficientes profundos mortos nos precipícios, abutres anjos mortos, repletos de sexos podres como uma revelação, como uma fúria em ser deus, uma fúria que se encoleriza facilmente, a empregar a força física, a violência física gritos, arreganhados dentes anjos, drogas descargas impulsos electrocussão.
sempre nas últimas consequências: as pessoas. os precipícios, as pessoas e os precipícios.
com a força extrema, as pessoas levadas pelas mandíbulas já são animais. as pessoas nos precipícios já são animais. e tudo com feroz e tudo com ferocidade animais mortos logo lago.
e eu, porque fausto, vi a violência, um altar de escoriações, e a violência abre-se a porta compartimento sempre sempre a subir.
com extremo cansaço, erguendo o braço morte músculos do lago, como quando combustão, e assim exemplo pessoa a arder no meio do caminho, a ficarem ideias como sou, com as ideias a dizerem porque é que estão mortas?
por isso mesmo descontrolo de si mesmo. por isso mesmo descontrolo de si mesmo. por isso mesmo descontrolo de sempre sempre a subir. por isso mesmo. por isso mesmo como se fossem polvos drogados.

1.1.07

todos contentes e eu também

entre as dores musculares
e o pôr do sol
surge a disponibilidade para
o poema

uma britadeira betona no horizonte
o tórax abre-se cálice flor vértebras

no outro dia avistei Quíron,
o centauro, na forma de um homem
a cavalo num cavalo

é inverno
mas oiço um grilo:
um portanto encalorado
artrópode

contruí uma represa temporária
para estancar o espeto da infelicidade

vou-me embora

24.12.06

solstício

amanhã é dia de solstício
tenho que ir lembrar ao deus sol
que, se ele quiser,
os dias poderão vir a ficar
magníficos

inchados de glória no seu carro solar
enquanto eu insistirei no próximo ano
em apanhar a cauda com a própria boca

ás vezes sinto-me assim
um cão pelas vielas
à espera que alguém o abata

(que parvoíve tão grande
e que pensamento tão feio
sentir-se como um cão ão ão)

mas, apesar da neura do dia
amanhã é um dia especial
e lá para a primavera
iremos semear a felicidade
para dela termos ágape colheitas

parabéns sol
muitas felicidades
muitos anos de vida

6.12.06

ALMEDINA

ATENÇÃO MALTA!!

OS MEUS LIVROS e da editora CHILICOMCARNE já estão à venda na rede das livrarias ALMEDINA.

são eles:
Textos mais ou menos poéticos (poesia em prosa ou coisa que o valha)
A Sagrada Família (Romance, há quem lhe chame anti-romance, de qualquer das maneiras é a puta da loucura)
Lucrécia (tento contar uma história mas depois começa a correr mal pelo meio)


parabéns à Livraria por vir marcar a diferença em apostar, também, em edições alternativas.

30.11.06

roadside bomb

vidros violinos: isso é espirais. isso é espirais. sim, vidros violinos isso é espirais.
intrapsíquico: isso é a raiva e a ressonância, os dentes das engrenagens, a rotação e a raiva. isso é espirais.
esse cataclismo mecanismo, esse fundamentalismo por ser fábrica, essas passadas energéticas, esses nervos violinados, , isso é espirais, mas não são fausto.
tu és um instrumento cadáver, uma música morte brota por entre os railes do tempo, do teu corpo, do tempo, tanto faz, aos tropeções, aos arranques, aos assobios, só quando a raiva é pressão demónios, é que, só quando a raiva é possessão. os dentes das engrenagens, a contracção espasmódica, um motor, esse fundamentalismo de ser fábrica, e a possessão.
vidros violinos: isso sim é espirais, esses entrelaçam-se brutamente, esse som invade persepolis e os ouvidos, essas civilizações de cancro todas metidas na violência, dentro das pedras goelar, gritar as fúrias, goelar as fúrias, gritar, porque no seu tempo era a guerra, porque nesse tempo era mecanismos a guerra, a contracção espasmódica de um motor, esses apetrechos com gente morta na ponta, essas valetas cheias de civis, essa raiva que só apetece essa tão raiva, essa multidão noites archotes acrobatas multidão em redor do que ritual tem que sair, que ritual tem que sair cá para fora explosão.
o sangue era compulsivo, esses corpos com pernas e braços espetados eram necessários, esses currais com vivos empurrados corredor lâmpadas em cima corredores cá lá do fundo da noite, dos restos da noite, com corpos com pernas e braços espetados eram necessários.
aos arranques, aos iludidos, aos gritunchos, às histriónicas, às nervosistas, porque rir histerias, à pressão, um histrião desmembra-se para o chão, já demasiado som barulho, já demasiado barulho, mas sempre e só já demasiado barulho, porque quando debaixo das pedras, os demónios quando abres e desgravidam as pedras, e por baixo das pedras essa força forte que vem do primordial era o corredor depois estava a afunilar, sempre a afunilar, e lá dentro um círculo primata, os desmembrados queriam correrias e corredores, eu entusiasmo, eu entusiasmo, alegria tão grande com isso um riso louco sorriso, um riso de olhos esbugalhados, os olhos planetas fora das órbitas, era ver tudo violência, a alegria era tão que explodia, que era tão que para além do corpo para todos os lados,
vidros violinos: isso é espirais, vidros violinos isso é estribilhos, as pedras cheias de estrilhos, com archotes na mão isso maleficiência, o sangue era compulsivo, esses apetrechos com gente morta na ponta, essa multidão que muitos archotes acrobatas, esse ritual ter que sair. vidros, violinos, a estilhaçarem-se, vidros violinos é a possessão quando a raiva e a possessão, as letras amotinam-se depressa, como pessoas furiosas a saltarem para a morte, esses apetrechos com gente morta na ponta, essa multidão que noites archotes acrobatas esse ritual tem que sair, em ritual tem que sair, vidriolinos, vidriolinos,
os projécteis lambiam as ruas e escondiam-se nas pessoas que transeuntes, como se fossem polvos de pólvora, como se fossem vidros de vida, como se fossem ramos de radiação, como se fossem relva de vidros, dois pontos: músculos no muro, sangue civil, com tanta raiva a escrever, com tanta raiva a atacar dentes pessoas nas ruas, a atacar todo dentes, as pessoas metidas multidão transeuntes, as pessoas a enfrentarem-se, galos a levantarem luta de galos, a rirem-se, a baterem-se golpear grotescas, a entrechocarem-se, a exagerarem, a confrontarem-se intrapsíquico, isso é raiva ressonância, reverberação da raiva, a radiação vai pelos corredores, a lutar pancadas contra os anjos, a lutar pancadas contra os anjos, a lutar sempre anjos possessão ritual , assim tão pressão ritual assim tão pressão ritual archotes isso consequência labirinto. e se labirinto então ilha, e se archotes então kristalnacht, e se ilha então voar, e se voar então textual, e se texto então espiral, e se espiral então fausto, e se fausto espiral então cadernos de fausto, e se cadernos de fausto então confrontos nas ruas, se confrontos então, se então, então se então se, se então então se então, se ícaro então não ilha minotauro, se cidade então forçosamente labirinto, se raiva então logo fausto pleno, se anamorfose então distorção de um cão, se inumação então fausto no café, se assassinato na rua então fausto outra vez a tomar um drink, se coração centauro então coração sentado, se gasolina então motor combustão velocidade incêndio ruas às curvas e por isso cidades de barriga aberta arder sempre quando automóvel velocidade na beira da estrada.
estava aqui no globo a sair espremido pela caneta, um mapa mundi, uma descompensação agitada, um médium a vomitar corpos intrapsíquicos maleficiência, a vomitar cadáveres nas paredes, isso é estrilhos, as paredes a arfarem metal, as palavras revoltadas, com archotes na mão, as paredes de cimento, as casamatas, essa força que vem do primeiro eu, e a pressão quando raiva, o delírio dos mortos, os mortos na valeta a delirarem os mortos, os mortos na valeta, os postes de alta tensão, a desorganização urbana, as grandes cargas eléctricas suspensas, as nuvens de barulho, as palavras parvas a agitarem-se, os demónios a saírem das vaginas das pedras, as grandes cargas suspensas, a agitação na rua, os mortos nas valetas a incharem de ódio, as pedras e os mortos a brilharem ao luar, o betão nas paredes, as nuvens de barulho, uma fábrica a gemer aços cheia, essa multidão metida ódio nos archotes noite ritual, esse grande ódio primordial, os gritos contra tudo e contra todos, esses comprimidos que fazem crepúsculos, essa raiva que faz guindastes, essa multidão que se reúne e que se agita.
e depois dá-se a despoleta. e depois os civis espalham-se sangue pela rua.

23.11.06

poema à hora de almoço


sento-me num banco da gulbenkian
para jiboiar o almoço

os velhos da batota
reúnem-se em agitação geriátrica
rosnando copas, política, futebol

agora passou um avião
desenhando uma geodésia de fumo
anel de saturno em volta da terra

as grandes narrativas acabaram:
ulisses apanha o cacilheiro para casa
édipo é arguido por burla
antígona trabalha num bar à noite
prometeu tira direito na católica
medeia acabou de adoptar um filho
virgílio leva dante a conhecer o chiado
hamlet é doido por hambúrgueres
e fausto, enfim, inscreve-se num curso
de meditação

mas daqui a um mês
mais coisa menos coisa
é o solstício de inverno
depois disso os dias voltam
a inchar luz por dentro...

(equinócio, solstício, equinócio, solstício):
- é assim a vida...

21.11.06

esplanada sobre o mar (monte estoril)

foi o turner que pintou estas nuvens no céu,
um grande cargueiro parece uma cidade na água
um desportista gordo de meia idade corre
a música é horrívelmente melosa

ao longe vêem-se tracejados de chuva
enviesada e com risquinhos paralelos,
tira-linhas a tinta da china
no horizonte

as gaivotas circulam num cilindro de ar
uma onda bateu agora mais vigorosa no molhe
pessoas com mau aspecto passam
o mar é formidável, e será sempre
formidável

o chão é de lajes de calcáreo
nele transeuntes pelo passeio marítimo
ao longe o cabo espichel
aparece magnético no mar
como uma barra de íman
a polarizar as nuvens em torno

as nuvens carregam-se vindas do norte
deve estar para aí a chegar
uma valente bátega

(um cão olhou para mim
e continuou caminho)


13.11.06

movimento de subducção

no silêncio e sossego
do meu quarto
não tenho febre
e escrevo

um edredão de espirais verdes
uma caneta de escreve fluidos,
as minhas estas paredes
que eu pintei um dia
de artes plásticas

a amurada de livros protege-me
na cama-barco que navego sonhos

o ar tão quadrilátero e arrumado
as reticências da minha sonolência
os pensamentos de subducção,
os rochedos que recordo praias
o que eu espero geológico
pelo solstício de inverno

e descobri um prazer profundo
leve e tão profundo o meu prazer:
o de respirar com os pulmões grandes
como a sombra da copa de uma árvore

(o nevoeiro interno
é agora orvalhar verde
que floresce florestas)

não reconhço nem a deuses,
nem a astros, o direito à vida
mas tenho crescido ultimamente

por isso hoje posso escrever
o movimento
da terra que vai para debaixo da terra
ainda está longe

3.11.06

depois dos batráquios

eu e o meu cansaço:
gosto de vir aqui água
ali barreira betão barragem

entre mim e os ribeiros são sonoros
para um vulto aquático:
um portanto batráquio

a água espelha as margens árvores
e eu recebo a dádiva do lugar:
um estilhaço de paz
longe das pessoas

(aqui não sinto medo
nem vontade de morrer)

estar muito em silêncio tempo
é dar autorização a que bichos
e árvores
se aproximem

atiro pedrinhas à água
e ela mostra-me circulos concêntricos
de geometria líquida

os batráquios correm grotescos
no fundo do lago extraterrestres
como homens de esponja orgânica

agora chegou uma pessoa
e quebrou a harmonia do lugar
odeio-a e gostava de a matar,
para reencontrar a paz

passado um tempo
o homem de ganga azul-rock afasta-se,
e eu fico outra vez com esta bacia hidrográfica
para poder pensar à vontade

estou ao pé
de uma mini queda de água
não é nenhum fenómeno notável
mas para mim está a ser estar importante,
aqui sentado com ela no tempo presente do indicativo

esta cascata é igual a um cão
na maneira como me faz companhia

tento refrescar a minha cabeça
tão lodamente de pensamentos eutróficos
cheia...

mas estou com pressa
e tenho que me ir embora




(nota: este texto foi escrito em sintra, um dia depois de ver os desenhos anfíbios do andré lemos)

20.10.06

jau, pensamentos

a minha cabeça está muito esquisita. a minha cabeça está mesmo muito esquisita. passam-se coisas lá dentro. movimentos como se magmáticos. eu sinto a massa encefálica como se movimentos de convecção. no mar há coleópteros que quando entro no mar sobem-me pelos tornozelos acima coleópteros. nem sei que tenho. formigueiros neurológicos, pés de hidropisia, alguém me envenenou o sangue, ou a comida, ou a vida.
a leonor não tinha o direito de me fazer isto. tudo fiz por ela e o que é que levamos em troca? tudo fiz por ela. do que ela se queixava afinal?, a leonor não tinha o direito de me fazer isto, de se ir embora assim, de que se queixava ela afinal?, de nada com certeza, fecho-me em casa porque não gosto lá fora estão são tantas as pessoas. alguém me envenena lentamente. tenho que ter cuidado com o que bebo e onde ponho os pés. ela não tinha o direito de me fazer isto. estou disforme quando olho ao espelho. tenho uns olhos escanzelados que não são normais. oiço gritinhos surdos de crianças por todo o lado. ao longe mas por todo o lado crianças em lado nenhum. não posso ir à rua sem me sentir mal. não posso ir à janela sem que aquela impressão tão grande de luz. os arrepios pela coluna como se descessem elevadores nevróticos pela coluna. ela não tinha, não tinha, o direito de se ir embora. ela foi um bocado frívola, enfim não muito, mas ela foi um bocado frívola mas ela era um bocado cabeça no ar. enfim, não muito mas eu sei que ela precisa de mim. ela podia voltar para mim. porque é que ela não podia voltar para mim? ¡podia claro!, eu iria perdoá-la, claro que tinha de a castigar, ela precisa de ser castigada de vez em quando, para ter a noção de algumas coisas ela precisa de ser castigada. eu sei que ela precisa de ser castigada de vez em quando, isso ajuda-a a saber os limites, até onde pode ir, ser castigada dá-lhe uma certa segurança. ajuda-a.
ela vai-se arrepender tanto de estar com aquele janota, com aqueles seus ares de menino fino, com aqueles parlapiês de meia tigela. ela não conhece a leonor. ele não conhece a leonor. ele não sabe o que é bom ou mau para ela. como é que ele a pode ajudar se não a conhece? eu conheço a leonor. ele não sabe o que é bom ou mau para ela. sei que ela precisa de ajuda. sei que ela precisa de ajuda. que nem tudo nela é o que parece. como é que ela pode ser ajudada se ele não a conhece? eu conheço a leonor. o jolie pensa que é fácil andar com a leonor. mas não é fácil. ela não é uma rapariga normal. ela precisa de ser castigada. tem as suas coisas, as suas particularidades, as suas manias, as suas idiossincrasias, as suas peculiaridades escondidas, o jolie não vai saber respeitar isso. nem a vai castigar quando ela precisa. vai andar com punhos de renda, e quando ela precisar de ser corrigida ele não vai saber lidar com isso. e é bem feito. é bem feito porque quando ela estiver em défice, quando ela estiver em dia não e se calhar o jolie ainda só apanhou maravilhas de dias sim, quando ela estiver em dia não ele não vai saber lidar com isso. e aí ele vai voltar para mim. é nesse momento que ela vai perceber que só eu a posso ajudar, que só eu a conheço como só eu a conheço.
e eu vou castigá-la quando ela voltar para mim. um castigo especial, diferente dos habituais, mas depois vou perdoá-la.
e se ela não chegar a voltar para mim? isso não pode acontecer, mas se isso que não pode acontecer acontecer eu vou ter que apagá-la. vou ter de a matar, vou ter de a matar. o que ela me está a fazer não se faz a ninguém. se ela não voltar rapidamente para mim vou ter que levar isto até às últimas consequências, vou ter de a matar. não é que eu queira levar isto até às últimas consequências, não é que eu queira. se eu a matar é porque ela me obrigou a isso. é claro que não quero fazer mal à leonorzinha. se ela voltar para mim em breve e pedir desculpas, se se mostrar arrependida e mostrar que está disposta a pagar pelo que me fez se isso acontecer ainda a vou perdoar. com um castigo valente em cima dela, mas acabo por a perdoar. mas se ela não voltar em breve, a pedir desculpa pelo que me fez, isso vai ter consequências muito duras para ela. é que ela não se apercebe que não podia fazer o que me fez. o que ela me fez estava-lhe vedado, por definição estava-lhe vedado.
ela não sabia que não me podia abandonar assim? claro que sabia, mas o jolie deve-lhe ter feito a cabeça. vai-se arrepender de lhe ter feito a cabeça. ela é meio estouvada mas mesmo assim não aceito o que ela me fez. não aceito e não tenho que aceitar. eu não sou obrigado a aceitar de bom grado que ela se vá assim embora de mim. sem ao menos uma explicação. seria o mínimo uma explicação. eu sei que ela só saiu do pé de mim porque o jolie lhe fez a cabeça. deve ser um grande d. juan o jolie! se ele pensa que chega ao pé da minha mulher e com meia dúzia de postas de pescada a leva para ele está muito enganado. vai-se arrepender. vai-lhe custar mesmo muito caro a brincadeira. para ele deve ser sempre assim só porque é jolie e bem falante. deve pensar que pode chegar à beira de todas as mulheres que quer e pegar nelas e levá-las para casa como se estivesse no supermercado. isso não é assim senhor jolie!!, esse luizinho galante está muito equivocado. e vai-lhe sair cara a brincadeira. mesmo muito. vou obrigá-lo a morrer. se ele pensa que pode levar a minha mulher, a minha leonorzinha, com ele está muito enganado.
a ela , se ela voltar e mostrar arrependimento, ainda a posso perdoar a ela. mas a ele não tenho dúvidas que o vou liquidar. ele vai pagar o que fez. vai mesmo. nem que seja a última coisa que faça.

10.10.06

ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ

O poeta é tão esquecido que não se lembrou de "postar" a sua participação no livro O Homem que desenhava na cabeça dos outros de Pedro Zamith & cia, editado pela Oficina do Livro e lançado ontem na FNAC do Chiado.

Livro de contos e prosas várias em que o sistema de ilustração foi invertido, ou seja, Pedro Zamith desenhou primeiro e depois deu a várias entidades escreverem sobre elas. Não sobre elas sob o ponto de vista crítico ou analítico mas sim sobre o que elas sugeriam de imaginário.

Entre os 20 autores, vamos encontrar Adília Lopes, Ana Ruivo, António Cerveira Pinto, David Soares, João Paulo Cotrim, Luís Camilo Alves, Marcos Farrajota, Pedro Rosa Mendes entre outros nomes...

10.9.06

(sonho/ jau)

"um sítio que era um vale, no entanto assim meio em socalcos meio quase declive ligeiro declive. a quinta antiga. os palheiros, as casas dos animais ao lado dos outros edifícios risíveis como galinheiros e coelheiras. tinha havido uma tromba de água e havia toneladas e toneladas de água, esse monstro aquático das inundações que afogam fluxo de água que debaixo de água todos. e havia compactos detritos que lama compactada, encostado às construções agrícolas como esterco dos céus, havia muita gente morta por todo o lado gente morta. com os braços no ar a emergirem do lodo, expressionistas a pedirem a ajuda de deus que nunca veio existe, havia um novo lago onde lago talvez de água de metro e meio. tinha havido uma tromba de água e por isso muita gente debaixo sepultada debaixo enterrada no lodo como areia movediça morrer lá dentro. e alguns cadáveres no meio do lixo. as crianças atiravam-se miúdos para dentro do lago como se atiram euforia em qualquer tanque ou lago urbano. tentavam não bater nos corpos corpos barrigas inchadas pareciam chocos gigantes mortos com a barriga branca cheia de água morta. não bater nos corpos ao mergulharem os rapazes a saltarem para dentro de água. como quem saltar dentro água depois fugir limos. fugir na água de uma alforreca ou de qualquer bicho peganhoso debaixo de água.
havia braços e pernas a saírem dos montes de lama parada, como se fossem cepos e cotovelos. como se fossem lixo. e as crianças atiravam-se os rapazes em calções para o banho, para o lago, num chinfrim de crianças euforia no verão.
acordei, devo mesmo estar a ficar chanfrado da cartolina... "

(- o humprey boghart acabou de esbofetear uma gaja bêbeda duas vezes no filme que está a brotar da televisão...
- isso é um clássico pá!)

8.9.06

feedback + conto

«Dionísio sintetiza, de forma inovadora, uma longa tradição cultural ocidental, as matizes culturais Clássica e Judaico-Cristã entrelaçadas no estilhaçar de personalidade característico do pós-Modernismo» é o que a revista gratuita de música Underworld comenta em relação à Lucrécia. E ainda tem 4 como pontuação (em 5).
Para além disso, o poeta ainda escreve um conto na revista, ilustrado por João Maio Pinto.

23.8.06

(às vezes no fim só fica mesmo é a raiva).

jau meteu-se na praia da adraga. meteu-se lá dentro como quem quer ficar soterrado (subterrado, aterrado, enterrado, sepultado) pelo mar ou soterrado pelo peso ctónico tão enorme muito grande falésias. jau foi até à praia da ursa, desceu lá abaixo para nem-sabe-o-quê para apenas ar nas fuças, arejar as fossas nasais, apanhar sol no masséter, na praia da ursa há uma rocha muito grande mesmo enorme que tem lá um perfil que parece um boneco de uma ursa, embora a mim me pareça mais um coelhito, e essa rocha dá o nome à praia. a praia da ursa, pois então. jau foi passear ali ao pé do cabo espichel do lado trás daquela coisa que parecem umas estrebarias dos lados com um palheiro em forma de igreja no centro, ali por trás desse século dezassete ou dezoito, acho eu, ali junto das falésias, ali mesmo, onde há uma certa tradição de suicídio, pode ser que alguém se atirasse lá para baixo e isso lhe fizesse esquecer a leonor enquanto o corpo ia caindo bocados cão atirado aos bocados a desfazer-se escarpas abaixo. e as escumas lá em baixo a baterem escumalha nas escarpas. e escunas a passarem com as pantalonas desfraldadas.
jau estava portanto em sines, na praia ao pé das centrais térmicas, a ver a água a revolucionar-se como se fosse outubro na rússia, e os tendões do mar contorciam-se e o esforço do mar era hérnias, no mar estava em peniche a ver o mar, em frente ao mar tinha acabado de passar as salinas de aveiro, ali para os lados de faro, e por isso estava a ver o mar de lisboa,
e assim em frente ao mar jau mascava uns pensamentos, vamos pôr-lhe uma sonda no crânio e ouvir-lhe os cognitivos (não sou um narrador omnisciente, ainda não, continuo a estudar isso é certo, mas por agora preciso da sonda). jau pensa os seus cognitivos como quem assa os seus raciocinados, assim como se quisesse impressionar com os seus próprios pensamentos, como se quisesse estetizar a sua dor e dar-lhe, por meio de uma lambidela filosófica, torná-la portanto digna e universal:
-"ficarmos amigos", disse ela, "olha jau, podemos sempre ficar amigos", isso não faz sentido nenhum eu não quero ser amigo dela, nem de ninguém. eu não consigo ficar teu amigo com esse cabresto ao teu lado. isso não faz sentido nenhum que eu não quero ser amigo de ninguém. metes-me raiva leonor. odeio-te. já te amei mas agora só te odeio. não consigo esquecer o que me fizeste. não. não podemos ficar amigos. isso de ficar amigos é o quê? é só conversa para despachar. pensas que eu sou parvo ou quê? "podemos ficar amigos": estás a querer enganar quem? isso é só conversa para me sossegar, mas eu não vou sossegar. deves estar a fingir com essa do "ficarmos amigos" que eu caio nessa. ah, eu não aceito isso leonor, amei-te tanto. ainda te amo. mas estou tão desgostado, parece que me arrancaram um bocado de mim de dentro do corpo, amei-te tanto, será que não percebes? amo-te tanto "ficar amigos" que raiva, que nojo, que ódio. eu não aceito que as coisas fiquem assim. amei-te tanto, amo-te tanto, merda, merda, merda, será que ela não percebe? "ficar amigos..." olha-me o desplante desta gaja "jau, podemos ficar amigos" pois para ela é fácil é ela que me pôs a andar. manda-me passear, manda-me à merda e diz com a sua simpatiazinha "podemos ficar amigos".
(às vezes no fim só fica mesmo é a raiva).

6.8.06

jau/leonor

(jau/leonor)
- porque é que não tentamos outra vez?
- porque não ia dar certo.
- como é que sabes que não ia dar certo?
- já falámos nisto um milhão de vezes jau. não vai dar certo.
- se não tentarmos é que não podemos saber se vai dar certo ou não. porquê? porque é que és tão negativa? podias fazer um esforço por acreditar.
- as coisas não são assim como tu queres, as coisas não são carregar num botão e está feito. sabes perfeitamente que não vai ser possível tentarmos. já tentámos muitas vezes.
- podias acreditar...
- não não posso, não se pode investir numa coisa que não acredito à partida. para que é que vou apostar num cavalo que morreu?, não faz sentido nenhum, pois não, jau?
- não faz sentido porque não queres que faça sentido, porque te recusas a acreditar, podias fazer um esforço para acreditar.
- mas eu não acredito. contra isso não posso inventar sentimentos ou posso?
- mas é por não quereres. sabes perfeitamente que querer é poder,
- ah, não me venhas com clichés, mas porque raio é que queres fazer tudo mais difícil. sabes perfeitamente que eu não consigo tar mais contigo.
- mas isso é porque existe essa pessoa que tu insistes em dizer que gostas.
- não ponhas as coisas nesses termos
- então ponho como.
- estou cansada jau. gostava que ficássemos amigos, não te tenho nada contra ti. só quero viver a minha vida.
- amigos?!
- mas porque é que tens de fazer tudo mais difícil? porque é que contigo é sempre tudo assim? porque é que não me deixas ir em paz à minha vida? já conversámos sobre isto. não me podes obrigar a gostar de ti.
- podia dar certo outra vez, sabes perfeitamente.
- ah, lá tás tu com os teus "perfeitamente" tão irritantes. tenho mesmo que te responder que sabes per-fei-ta-men-te que não dá, acabou!, morreu!, parte para outra, get a life!, pára de me massacrares!
- deves pensar que as pessoas são todas como tu!, para ti é fácil, trocas-me como se fosses à loja trocar de roupa!
- ah, não comeces com golpes sujos a ver se eu tenho pena de ti. olha, não tenho peninha nenhuma de ti ouviste?, tivesses pensado em me tratar bem este tempo.
- ah eu não te tratava bem? eras quê?, uma mulher da violência doméstica não?
- não sejas parvo, não mudes de assunto,
- eu é que ´tou a mudar de assunto?
- opá eu mais uma vez vim falar contigo para ver se podíamos acabar numa boa. podíamos ficar amigos e tu não deixas.
- olha é fácil isso do "ficar amigos"? achas que para mim é fácil? acabas comigo e achas que podemos "ficar amigos"??? se quisesses podias acreditar. sabes lindamente que podias acreditar, é uma questão de querer.
- pronto, voltamos ao mesmo...
- porque é que tens essa atitude? aí a encolheres os ombros com desprezo para mim?
- bem, esta discussão não vai levar a lado nenhum. vou-me embora.
- não. não vás.
- larga-me o braço jau.
- dá-me uma oportunidade.
- larga-me o braço se fazes favor.
- fomos tão felizes, porque é que me estás a fazer isto?
- estás-me a magoar jau, se fazes o favor largas-me.
- porque é que não tentamos outra vez?
- DEIXA-ME!!- grita leonor com um sacão do braço libertando-se da ventosa jaussiana. leonor vira-lhe as costas e vai-se embora. jau que fingia ainda acreditar que seria possível a leonor reconquistada. deixa cair o rosto ao chão em desespero. mostra no desalento o seu verdadeiro estado de espírito em relação à miúda: um semblante devastado, a derrota. mais uma vez a derrota com as mulheres.
- granda melão- diria um cueca-napoleão se o visse agora. ainda bem que jau estava sozinho (na rua, em casa, no cinema, na esplanada, ou noutros sítios) senão ia ficar muita chateadão de lhe verem perder de sua amada a mão.

25.7.06

fotos da digressão nortenha


na Matéria-Prima (Artes em Partes, Porto)


Fotos: José Feitor
na Velha-a-Branca (Braga)


... e assim aproveitamos para avisar que o novo (anti)romance Lucrécia está à venda nestes dois sítios.

15.7.06

jau ia no seu pópó para a margem sul. para casa, pois então!, estava a lembrar-se de uma gata de patas para o ar. e por isso mesmo o seu carro ronronava tranquilo. e já era tarde, pois então!, atravessava a ponte vinte e cinco de abril. antes de chegar à parte de metal cruzou-se com havia uma data de luzinhas azuis, uma data de luzinhas do outro lado da estrada. ambulâncias, policiais, etc. era um acidente, pois então!, estava uma carrinha branca do outro lado espatifada de barriga pró ar. nem parou o carro para ver se via sanguinho. até ele já estava farto de ver acidentes rodoviários portugueses. apetecia-lhe ver outro tipo de acidentes. sei lá, um avião a chocar com uma vaca por exemplo. ou um comboio a atropelar uma mulher grávida.
a noite tinha sido estucada uniformemente, uma demão cinzenta avermelhada no céu e assim não se viam estrelas. as nubladas fingiam-se de alvenaria de nuvens para dar um rosto opaco à noite. como se caixão de cimento em chernobyl era a cabeça estava azamboada a cabeça era de jau. azambujada de trabalho. as articulações maçadas pelas longas horas de pé. farto da esquadra do restelo, do chefe, dos colegas, que nem eram assim tão maus como isso mas hoje estava farto de tudo.
estava em estresse, mas o que lhe causava mais estresse é saber que.

22.5.06

momentos altos

um action man da literatura
Cuidado Indiana Jones! Em recitais ninguém bate Dionísio!
(reparem na caveira)

bem acompanhado - por uma junkie do século XIX