jau meteu-se na praia da adraga. meteu-se lá dentro como quem quer ficar soterrado (subterrado, aterrado, enterrado, sepultado) pelo mar ou soterrado pelo peso ctónico tão enorme muito grande falésias. jau foi até à praia da ursa, desceu lá abaixo para nem-sabe-o-quê para apenas ar nas fuças, arejar as fossas nasais, apanhar sol no masséter, na praia da ursa há uma rocha muito grande mesmo enorme que tem lá um perfil que parece um boneco de uma ursa, embora a mim me pareça mais um coelhito, e essa rocha dá o nome à praia. a praia da ursa, pois então. jau foi passear ali ao pé do cabo espichel do lado trás daquela coisa que parecem umas estrebarias dos lados com um palheiro em forma de igreja no centro, ali por trás desse século dezassete ou dezoito, acho eu, ali junto das falésias, ali mesmo, onde há uma certa tradição de suicídio, pode ser que alguém se atirasse lá para baixo e isso lhe fizesse esquecer a leonor enquanto o corpo ia caindo bocados cão atirado aos bocados a desfazer-se escarpas abaixo. e as escumas lá em baixo a baterem escumalha nas escarpas. e escunas a passarem com as pantalonas desfraldadas.
jau estava portanto em sines, na praia ao pé das centrais térmicas, a ver a água a revolucionar-se como se fosse outubro na rússia, e os tendões do mar contorciam-se e o esforço do mar era hérnias, no mar estava em peniche a ver o mar, em frente ao mar tinha acabado de passar as salinas de aveiro, ali para os lados de faro, e por isso estava a ver o mar de lisboa,
e assim em frente ao mar jau mascava uns pensamentos, vamos pôr-lhe uma sonda no crânio e ouvir-lhe os cognitivos (não sou um narrador omnisciente, ainda não, continuo a estudar isso é certo, mas por agora preciso da sonda). jau pensa os seus cognitivos como quem assa os seus raciocinados, assim como se quisesse impressionar com os seus próprios pensamentos, como se quisesse estetizar a sua dor e dar-lhe, por meio de uma lambidela filosófica, torná-la portanto digna e universal:
-"ficarmos amigos", disse ela, "olha jau, podemos sempre ficar amigos", isso não faz sentido nenhum eu não quero ser amigo dela, nem de ninguém. eu não consigo ficar teu amigo com esse cabresto ao teu lado. isso não faz sentido nenhum que eu não quero ser amigo de ninguém. metes-me raiva leonor. odeio-te. já te amei mas agora só te odeio. não consigo esquecer o que me fizeste. não. não podemos ficar amigos. isso de ficar amigos é o quê? é só conversa para despachar. pensas que eu sou parvo ou quê? "podemos ficar amigos": estás a querer enganar quem? isso é só conversa para me sossegar, mas eu não vou sossegar. deves estar a fingir com essa do "ficarmos amigos" que eu caio nessa. ah, eu não aceito isso leonor, amei-te tanto. ainda te amo. mas estou tão desgostado, parece que me arrancaram um bocado de mim de dentro do corpo, amei-te tanto, será que não percebes? amo-te tanto "ficar amigos" que raiva, que nojo, que ódio. eu não aceito que as coisas fiquem assim. amei-te tanto, amo-te tanto, merda, merda, merda, será que ela não percebe? "ficar amigos..." olha-me o desplante desta gaja "jau, podemos ficar amigos" pois para ela é fácil é ela que me pôs a andar. manda-me passear, manda-me à merda e diz com a sua simpatiazinha "podemos ficar amigos".
(às vezes no fim só fica mesmo é a raiva).
6.8.06
jau/leonor
(jau/leonor)
- porque é que não tentamos outra vez?
- porque não ia dar certo.
- como é que sabes que não ia dar certo?
- já falámos nisto um milhão de vezes jau. não vai dar certo.
- se não tentarmos é que não podemos saber se vai dar certo ou não. porquê? porque é que és tão negativa? podias fazer um esforço por acreditar.
- as coisas não são assim como tu queres, as coisas não são carregar num botão e está feito. sabes perfeitamente que não vai ser possível tentarmos. já tentámos muitas vezes.
- podias acreditar...
- não não posso, não se pode investir numa coisa que não acredito à partida. para que é que vou apostar num cavalo que morreu?, não faz sentido nenhum, pois não, jau?
- não faz sentido porque não queres que faça sentido, porque te recusas a acreditar, podias fazer um esforço para acreditar.
- mas eu não acredito. contra isso não posso inventar sentimentos ou posso?
- mas é por não quereres. sabes perfeitamente que querer é poder,
- ah, não me venhas com clichés, mas porque raio é que queres fazer tudo mais difícil. sabes perfeitamente que eu não consigo tar mais contigo.
- mas isso é porque existe essa pessoa que tu insistes em dizer que gostas.
- não ponhas as coisas nesses termos
- então ponho como.
- estou cansada jau. gostava que ficássemos amigos, não te tenho nada contra ti. só quero viver a minha vida.
- amigos?!
- mas porque é que tens de fazer tudo mais difícil? porque é que contigo é sempre tudo assim? porque é que não me deixas ir em paz à minha vida? já conversámos sobre isto. não me podes obrigar a gostar de ti.
- podia dar certo outra vez, sabes perfeitamente.
- ah, lá tás tu com os teus "perfeitamente" tão irritantes. tenho mesmo que te responder que sabes per-fei-ta-men-te que não dá, acabou!, morreu!, parte para outra, get a life!, pára de me massacrares!
- deves pensar que as pessoas são todas como tu!, para ti é fácil, trocas-me como se fosses à loja trocar de roupa!
- ah, não comeces com golpes sujos a ver se eu tenho pena de ti. olha, não tenho peninha nenhuma de ti ouviste?, tivesses pensado em me tratar bem este tempo.
- ah eu não te tratava bem? eras quê?, uma mulher da violência doméstica não?
- não sejas parvo, não mudes de assunto,
- eu é que ´tou a mudar de assunto?
- opá eu mais uma vez vim falar contigo para ver se podíamos acabar numa boa. podíamos ficar amigos e tu não deixas.
- olha é fácil isso do "ficar amigos"? achas que para mim é fácil? acabas comigo e achas que podemos "ficar amigos"??? se quisesses podias acreditar. sabes lindamente que podias acreditar, é uma questão de querer.
- pronto, voltamos ao mesmo...
- porque é que tens essa atitude? aí a encolheres os ombros com desprezo para mim?
- bem, esta discussão não vai levar a lado nenhum. vou-me embora.
- não. não vás.
- larga-me o braço jau.
- dá-me uma oportunidade.
- larga-me o braço se fazes favor.
- fomos tão felizes, porque é que me estás a fazer isto?
- estás-me a magoar jau, se fazes o favor largas-me.
- porque é que não tentamos outra vez?
- DEIXA-ME!!- grita leonor com um sacão do braço libertando-se da ventosa jaussiana. leonor vira-lhe as costas e vai-se embora. jau que fingia ainda acreditar que seria possível a leonor reconquistada. deixa cair o rosto ao chão em desespero. mostra no desalento o seu verdadeiro estado de espírito em relação à miúda: um semblante devastado, a derrota. mais uma vez a derrota com as mulheres.
- granda melão- diria um cueca-napoleão se o visse agora. ainda bem que jau estava sozinho (na rua, em casa, no cinema, na esplanada, ou noutros sítios) senão ia ficar muita chateadão de lhe verem perder de sua amada a mão.
- porque é que não tentamos outra vez?
- porque não ia dar certo.
- como é que sabes que não ia dar certo?
- já falámos nisto um milhão de vezes jau. não vai dar certo.
- se não tentarmos é que não podemos saber se vai dar certo ou não. porquê? porque é que és tão negativa? podias fazer um esforço por acreditar.
- as coisas não são assim como tu queres, as coisas não são carregar num botão e está feito. sabes perfeitamente que não vai ser possível tentarmos. já tentámos muitas vezes.
- podias acreditar...
- não não posso, não se pode investir numa coisa que não acredito à partida. para que é que vou apostar num cavalo que morreu?, não faz sentido nenhum, pois não, jau?
- não faz sentido porque não queres que faça sentido, porque te recusas a acreditar, podias fazer um esforço para acreditar.
- mas eu não acredito. contra isso não posso inventar sentimentos ou posso?
- mas é por não quereres. sabes perfeitamente que querer é poder,
- ah, não me venhas com clichés, mas porque raio é que queres fazer tudo mais difícil. sabes perfeitamente que eu não consigo tar mais contigo.
- mas isso é porque existe essa pessoa que tu insistes em dizer que gostas.
- não ponhas as coisas nesses termos
- então ponho como.
- estou cansada jau. gostava que ficássemos amigos, não te tenho nada contra ti. só quero viver a minha vida.
- amigos?!
- mas porque é que tens de fazer tudo mais difícil? porque é que contigo é sempre tudo assim? porque é que não me deixas ir em paz à minha vida? já conversámos sobre isto. não me podes obrigar a gostar de ti.
- podia dar certo outra vez, sabes perfeitamente.
- ah, lá tás tu com os teus "perfeitamente" tão irritantes. tenho mesmo que te responder que sabes per-fei-ta-men-te que não dá, acabou!, morreu!, parte para outra, get a life!, pára de me massacrares!
- deves pensar que as pessoas são todas como tu!, para ti é fácil, trocas-me como se fosses à loja trocar de roupa!
- ah, não comeces com golpes sujos a ver se eu tenho pena de ti. olha, não tenho peninha nenhuma de ti ouviste?, tivesses pensado em me tratar bem este tempo.
- ah eu não te tratava bem? eras quê?, uma mulher da violência doméstica não?
- não sejas parvo, não mudes de assunto,
- eu é que ´tou a mudar de assunto?
- opá eu mais uma vez vim falar contigo para ver se podíamos acabar numa boa. podíamos ficar amigos e tu não deixas.
- olha é fácil isso do "ficar amigos"? achas que para mim é fácil? acabas comigo e achas que podemos "ficar amigos"??? se quisesses podias acreditar. sabes lindamente que podias acreditar, é uma questão de querer.
- pronto, voltamos ao mesmo...
- porque é que tens essa atitude? aí a encolheres os ombros com desprezo para mim?
- bem, esta discussão não vai levar a lado nenhum. vou-me embora.
- não. não vás.
- larga-me o braço jau.
- dá-me uma oportunidade.
- larga-me o braço se fazes favor.
- fomos tão felizes, porque é que me estás a fazer isto?
- estás-me a magoar jau, se fazes o favor largas-me.
- porque é que não tentamos outra vez?
- DEIXA-ME!!- grita leonor com um sacão do braço libertando-se da ventosa jaussiana. leonor vira-lhe as costas e vai-se embora. jau que fingia ainda acreditar que seria possível a leonor reconquistada. deixa cair o rosto ao chão em desespero. mostra no desalento o seu verdadeiro estado de espírito em relação à miúda: um semblante devastado, a derrota. mais uma vez a derrota com as mulheres.
- granda melão- diria um cueca-napoleão se o visse agora. ainda bem que jau estava sozinho (na rua, em casa, no cinema, na esplanada, ou noutros sítios) senão ia ficar muita chateadão de lhe verem perder de sua amada a mão.
25.7.06
fotos da digressão nortenha
na Matéria-Prima (Artes em Partes, Porto)
Fotos: José Feitor
na Velha-a-Branca (Braga)
... e assim aproveitamos para avisar que o novo (anti)romance Lucrécia está à venda nestes dois sítios.
15.7.06
jau ia no seu pópó para a margem sul. para casa, pois então!, estava a lembrar-se de uma gata de patas para o ar. e por isso mesmo o seu carro ronronava tranquilo. e já era tarde, pois então!, atravessava a ponte vinte e cinco de abril. antes de chegar à parte de metal cruzou-se com havia uma data de luzinhas azuis, uma data de luzinhas do outro lado da estrada. ambulâncias, policiais, etc. era um acidente, pois então!, estava uma carrinha branca do outro lado espatifada de barriga pró ar. nem parou o carro para ver se via sanguinho. até ele já estava farto de ver acidentes rodoviários portugueses. apetecia-lhe ver outro tipo de acidentes. sei lá, um avião a chocar com uma vaca por exemplo. ou um comboio a atropelar uma mulher grávida.
a noite tinha sido estucada uniformemente, uma demão cinzenta avermelhada no céu e assim não se viam estrelas. as nubladas fingiam-se de alvenaria de nuvens para dar um rosto opaco à noite. como se caixão de cimento em chernobyl era a cabeça estava azamboada a cabeça era de jau. azambujada de trabalho. as articulações maçadas pelas longas horas de pé. farto da esquadra do restelo, do chefe, dos colegas, que nem eram assim tão maus como isso mas hoje estava farto de tudo.
estava em estresse, mas o que lhe causava mais estresse é saber que.
a noite tinha sido estucada uniformemente, uma demão cinzenta avermelhada no céu e assim não se viam estrelas. as nubladas fingiam-se de alvenaria de nuvens para dar um rosto opaco à noite. como se caixão de cimento em chernobyl era a cabeça estava azamboada a cabeça era de jau. azambujada de trabalho. as articulações maçadas pelas longas horas de pé. farto da esquadra do restelo, do chefe, dos colegas, que nem eram assim tão maus como isso mas hoje estava farto de tudo.
estava em estresse, mas o que lhe causava mais estresse é saber que.
22.5.06
14.5.06
nota de imprensa
QUERIDAS AMIGAS E VERMES: peço opinião pela nota de imprensa. Sugestões e indigestões serão extremamente bem vindas
atenção: vai ser solto no Mundo o novo livro de Rafael Dionísio: chama-se LUCRÉCIA.
Nota de Imprensa:
Lucrécia é o novo romance (vanguardista se a palavra não tivesse caído em desuso), de Rafael Dionísio. Trata-se de uma viagem fabulosa, alucinante, aos mundos de uma personagem chamada Lucrécia (tenha ela os nomes que tiver). É uma história inteligente, mordaz, irónica, por vezes emotiva, perturbadora e/ou excessiva. É um livro que destila, para além alcóol, cultura por todas as páginas, num furor e alegria discursiva únicos e absolutamente ímpares na cultura portuguesa.
Excerto:
- julgas que vou arranjar trabalho agora? ano novo vida nova menino. agora estou em férias. foda-se. digo montes de palavrões. há homens que não gostam. fica feio dizer palavrões. – suspira. amachuca o maço de tabaco. chesterfield lights. cofia o cabelo no meio da testa, por cima do amarelo, com o dedo indicador. está a pensar. a sentir-se observada. a sentir-se um bocado animal de laboratório. hoje não está maquilhada. dantes pintava-se muito mais. ainda bem que agora tem menos estuque na cara.
Rafael Dionísio nasceu em 1971 e é autor de uma já bastante razoável produção literária. Publicou recentemente "A Sagrada Família" e "textos mais ou menos poéticos". Além da sua produção literária reparte-se pelo Estudo Crónico e ministrando cursos de Escrita Criativa na "Tuatara Atelier Aberto". Rafael Dionísio é senhor de vastos recursos estilísticos/literários apresentando uma obra com um carácter multi-dimensional e proteico.
atenção: vai ser solto no Mundo o novo livro de Rafael Dionísio: chama-se LUCRÉCIA.
Nota de Imprensa:
Lucrécia é o novo romance (vanguardista se a palavra não tivesse caído em desuso), de Rafael Dionísio. Trata-se de uma viagem fabulosa, alucinante, aos mundos de uma personagem chamada Lucrécia (tenha ela os nomes que tiver). É uma história inteligente, mordaz, irónica, por vezes emotiva, perturbadora e/ou excessiva. É um livro que destila, para além alcóol, cultura por todas as páginas, num furor e alegria discursiva únicos e absolutamente ímpares na cultura portuguesa.
Excerto:
- julgas que vou arranjar trabalho agora? ano novo vida nova menino. agora estou em férias. foda-se. digo montes de palavrões. há homens que não gostam. fica feio dizer palavrões. – suspira. amachuca o maço de tabaco. chesterfield lights. cofia o cabelo no meio da testa, por cima do amarelo, com o dedo indicador. está a pensar. a sentir-se observada. a sentir-se um bocado animal de laboratório. hoje não está maquilhada. dantes pintava-se muito mais. ainda bem que agora tem menos estuque na cara.
Rafael Dionísio nasceu em 1971 e é autor de uma já bastante razoável produção literária. Publicou recentemente "A Sagrada Família" e "textos mais ou menos poéticos". Além da sua produção literária reparte-se pelo Estudo Crónico e ministrando cursos de Escrita Criativa na "Tuatara Atelier Aberto". Rafael Dionísio é senhor de vastos recursos estilísticos/literários apresentando uma obra com um carácter multi-dimensional e proteico.
2.4.06
adolescência

tenho trinta e poucos anos. sou ainda um adolescente. sábado à noite depois de jantar com pessoas maravilhosas. e depois o bairro alto, magnífico, com as ruas roupas cheias de sorrisos, as ruas acotoveladas onde tanta nova e bonita. as ruas fremitantes de energia e de adolescências. muito alcóol, evidentemente, e cigarros em fila uns atrás dos outros para serem todos fumados.
e depois já é tarde e as ruas do bairro alto começam a escorrer gente para os lados, os bares estão a afechar. vai-se descendo para o calhariz, para o mítico e imutável "incógnito". cheio a rebentar. é uma casa grávida de multidões. o "d´´artagnan" não deixa entrar mais ninguém. mas lá conseguimos lá entrar. como todos os adolescentes ficámos ávidamente na fila à espera.
aquilo é entrar e tem um ambiente algo próprio. o próprio espaço tem auqele cunhbo de ser "buateque é uma palavra caída em desuso na nossa língua e qe designa locais assim parecidos nos asnos setenta, mas que por ser nos anos setenta, tinham uma aura mística de proibido, de transgressão pop/rock, de libertação, de crime contra os bons costumes. Parece-me que o "incógnito" tem algo disso assim. (ou então sou eu que vejo assim porque não cheguei a ter essa adolescência, tive outras).
e depois descemos para a pista de dança. e encontrei um amigo. e quando vejo a nossa amiga vou para cumprimentá-la e ficámos nos cumprimentando na boca durante quanto tempo?. clámo-nos num beijo fantástico, daqueles beijos que pela sua raridade são tão magníficos e especiais. nem dissemos nada um ao outro. pura e simplesmente nos beijámos com toda a sofreguidão do mundo. lambemos as gengivas, a língua, os lábios, os dentes, um do outro durante muitoooo tempo. enquanto isso távamos no meio da pista. no meio do turbilhão da música, dos fiordes de luz, dos encontrões das pessoas, não descolámos nem por nada, como se fossemos uma ilha num mar agitado. e por estarmos mesmo no meio de tanta gente é que estávamos no fundo tão sozinhos abraçados um ao outro.
só hoje de manhã é que vi os olhos dela. têm uma auréola cinzenta à volta do azul claro. como se fossem um eclipse de qualquer coisa, da íris para aí...
hoje de manhã despedimo-nos. parece-me que felizes. leves. surpreendidos.
e inconsequentes como todos os adolescentes.
18.3.06
lista numero cinco ou seis já não sei.


1. chovem dilúvios.
2. luz eléctrica.
3. jogar xadrez na internéte
4. músculos inchados e doridos.
5. ainda não mudei de roupa hoje.
6. ela olhou-me ontem. com os olhos de desejo que também são meus.
7. os pulmões depois da atmosfera.
8. ao estar tão fisicamente fatigado por isso os músculos enrolam-se nos ossos da indolência.
9. apetece-me tomar dois ou três comprimidos para dormir, e depois ficar narcótico a tentar resistir ao sono. como se existisse uma coisa chamada vontade e não apenas fenómenos bioquímicos e neuronais.
10. sente-se quando um olhar tem desejo dentro. quando uma mulher nos está a desejar.
11. será o mundo ilusão? buda deve ter dito ou pensado algo assim. mas ele não tinha que ter razão. de qualquer maneira os indianos nunca foram grandes pensadores. mas deram sempre bons ilusionistas.
12. eu acho que ela me olhou, ela me olhou com desejo físico no olhar, com uns olhos plenos de desejo e de fertilidade. isso a ser verdade, se era bom que fosse verdade, a ser verdade.
13. seria também cómico ela se calhar achar que eu não a desejo. como seu eu fosse alguém de muito importante quando sou a pessoa mais acessível do mundo com o coração espesso de sangue.
14. esta ultima frase é quase de antónio franco alexandre “recebe-me coração espesso de sangue” que é um verso lindíssimo.
15. (suponho pelos vistos que ela também me deseje, e que não seja a minha imaginação a fazê-la desejar-me)
16. estou a ler “théorie du corps amoreux”, do filósofo Michel Onfray, devia-lhe mandar um emaile um dia destes, e porque não? o subtítulo do livro é muito bonito “por une érotique solaire”.
17. sente-se quando um olhar é quente. quando tem desejo dentro.
18. é de noite. o cansaço espalha-se pelas costas. o cansaço é um eczema.
19. o desejo é perfeito. o desejo quando é proibido tem essa magia da transgressão, de ir contra a instituição do amor acinzentado quando durante muito tempo juntos.
20. (pressuponho portanto que ela também me deseja, e que não seja apenas a minha imaginação buda a fazer-me ela a desejar-me)
21. gosto particularmente de uma palavra inglesa para “estar baralhado”é “puzzled”. eu acho que tou puzzled com esta mulher.
22. fumei e bebi imenso ontem. mas também isso não faz mal.
23. já faço mais flexões e halteres. faço exercício para hipertrofiar os músculos. e esforço-me até encontrar a dor levantar-se dentro de mim. eu preciso definitivamente da dor para viver. da dor física, porque a emocional dispenso.
24. recuso-me categoricamente a sofrer por alguém.
25. será que imagino que ela também me deseja?
26. fumei e bebi imenso ontem. mas também isso não faz mal.
27. a carne do cérebro tenta adormecer. mas eu não vou deixar que isso aconteça.
28. as paredes olham para mim. estou no centro do quarto a escrever sobre o desejo, por uma pessoa concreta. e as paredes olham para mim como se eu fosse um acontecimento ou um fenómeno.
29. fiz agora roque pequeno. os ingleses chama a fazer o roque “to make a castle”. o que indica a filosofia feudal do xadrez. seguindo este raciocínio, de uma forma não muito brilhante, pode-se dizer que eu desejo a rainha que está do outro lado do tabuleiro e que tem provavelmente que ficar com o seu rei.
30. não tenho a certeza, mas acho que ela olhou para mim ontem. com uns olhos plenos de desejo. com olhos de desejo também de desejo os meus.
31. há uma fotografia dela na praia. é uma fotografia muito enigmática. com um rosto muito sonhador a olhar para a areia. se calhar à procura dos castelos perdidos da infância.
32. provavelmente, e como é habitual, não a irei beijar.
33. o desejo é do domínio do proibido e/ou da transgressão.
34. tenho a certeza que ela olhou para mim com “aqueles olhos”.
35. se acontecesse esse primeiro beijo, que me preparo de antemão e descontraidamente para não acontecer, isso seria uma descarga de adrenalina e de prazer profundamente bom e proibido.
36. vou baixar a música para ver se já voltou a chover.
37. um dia destes assim de chuva fui passear na serra de sintra à noite sozinho. pelo meio da floresta e a água por todo o lado humidade. hoje não me apetece.
11.3.06
vem aí a prima vera
4.3.06
lista #4 (aurora)

1. sete da manhã.
2. as persianas estão fechadas. não há cortinas nas paredes o que dá um ar simultaneamente rude e confortável.
3. a atmosfera arrasta-se por cima da casa, com o poder do vento.
4. os pássaros lá fora, desarrumados pelas árvores, cantam o novo dia.
5. a minha gata é toda preta. tem os olhos amarelos. parece um bocado de sombra a olhar para mim.
6. fiz uma tatuagem. é um símbolo. demorou hora e meia a fazer. para o fim já me dóia. mas fiz uma tatuagem.
7. tive com as minhas amigas ontem. que bonitas que elas são. e que alegria por revivê-las.
8. estou à espera que caia mais chuva. era bom porque me iria fazer confortável e protegido.
9. no outro dia o demónio visitou-me. tive a partir coisas e a gritar durante meia hora.
10. hoje é sábado. não vou precisar de sair da cama até segunda feira.
11. tristes trópicos. de claude lévy strauss. uma maravilha de livro. uma surpresa.
12. gostava de adormecer e de ter sonhos que me encantassem.
13. oiço agora o som curvo e longínquo de um avião.
14. precisamos todos de coragem.
15. os aparelhos avariam-se. no fundo nunca está tudo a funcionar ao mesmo tempo.
16. o tempo leva as pessoas para longe. às vezes desaparecem.
17. precisava de me tornar uma pessoa melhor. de sofrer uma remodelação espiritual.
18. não sei se este quarto não precisaria de outras cores. uma cores que dessem mais saúde psíquica.
19. vou tentar adormecer.
20. chove outra vez toneladas de água. parece que o peso da água vai partir as casas todas ao meio.
21. amanhã. talvez amanhã. voltar a sonhar.
28.2.06
lista#3 (sábado à noite)

1. fotossensibilidade.
2. toca telemann na antena dois, dentro de um rádio fanhoso, enferrujado, mas que funciona. sabe mesmo bem ouvir telemann.
3. a ventoinha do recuerador de calor funciona. faz um barulho tranquilo e hipnótico.
4. combustível: troncos de madeira. espécie: oliveira. brasas abundantes que palpitam como miocárdios doentes.
5. combustão: reacção de oxidação. o oxigénio junta-se ao carbono formando novas moléculas. (dióxido e monóxido de carbono). nessa reacção partem-se as ligações covalentes. libertação de energia.
6. leitura de um livro de parapsicologia.
7. constipação de dimensões médias. uma qualquer estirpe do virus influenza.
8. ligeira tosse e irritação.

9. sonolência profunda potenciada pela gripe e pela ressaca de exageros físicos.
10. cabeça quente mas talvez sem febre. sensação de "pedrada facial", como nas enxaquecas.
11 coração batendo regular e talvez nostalgicamente. pulsação normal. vísceras processando um grande prato de sopa de feijão.
12. leucócitos raros, na urina.
13. hemoglobina com bons níveis.
14. desespero médio mas não preocupante.
15. adormecimento temporário.
18.2.06
lista #3(escritório)

1. divisão 4X4 metros
2. tapete de ponto grosso, desenho dos anos sessenta, abstracto, em tons vermelho vivo e amarelo vivo.
3. divisão com aspecto geral de cheio.
4. gato preto, fêmea, com olhos bonitos a passear-se. tamanhp pequeno/médio.
5. estantes com livros. dimensões e materiais variáveis.
6. mesa de trabalho com tampo contraplacado. pernas de oficina.
7. candeeiro arte deco, no centro do tecto, anos trinta, linhas puras, câmpanulas de vidro salmão.
8. máscara de gás pendurada na parede, I Grande Guerra, supõe-se do Corpo Expedicionário Português.
9. paredes riscadas. citações de autores. máximas e reflexões. números de telefone e de multibanco.
10. vasos com plantas. no parapeito da janela e no chão. dois dos vasos têm plantas com folhagem luxuriosa, cerrca de 1.80 a 2 metros de altura. folhas e caules a debruçarem-se na janela (fonte de luz natural).
11. fotografia emoldurada de um bisavô. nome: joaquim rodrigues gomes. o sujeito está fardado com um indivíduo africano aos pés, sentado descalço em posição submissa como se fosse um cão.
12. estirador sólido de madeira. com computador e ecrã de plasma.
13. indivíduo do sexo masculino, de constituição robusta, estatura média, suiças, olhos e cabelos castanhos, a olhar parado. expressão de melancolia. uma certa lentidão nos gestos denotando nosológicamente apatia. rosto com expressão cansada. ténis de marca nike "air pegasus". roupa práctica, desportiva. calças de fato de treino.
15. tempo cronológico: sexta feira à noite. supõe-se que as pessoas se divertem e se riem, com as suas companheiras.
16. o indivíduo que olha para lado nenhum alega desencanto crónico no amor. tenta assim justificar a sua abulia e ombros desistentes em vez de reagir.
14.2.06
lista#2 (nascimentos)

1. mithra nasceu de um rochedo.
2. dionysos ficou incubado na barriga da perna do seu pai.
3. a minha irmã vai ter gémeos, bivitelinos, vão-se chamar marta e joão.
4. tiamat nasceu do caos e da lama.
5. se eu não tivesse nascido então eu nunca iria morrer.
6. fausto partiu a cabeça a um transeunte. tirou de lá de dentro um gólem embrulhado em pensamentos.
7. o sol está combustão a dar à luz.
8. outros deuses nasceram das situações as mais variadas.
9. quem pariu jesus era virgem.
10. a minha mãe teve três filhos. e antes teve um espontâneo aos cinco meses, e um nado morto aos nove. não sei se tinham nome.
11. a cesariana faz-se abrindo a barriga. é uma operação actualmente muito comum.
12. as vacas têm partos difíceis. mugem ao mesmo tempo que rangem da bacia. e é preciso puxar as crias para fora atando uma corda aos pés.
13. a felicidade nasce em canaviais, em ovos postos clandestinamente pela lua cheia.
14. adónis nasceu de dentro de uma árvore.
15. as baleias nascem em ninhos de água.
16. ulisses e os seus camaradas foram paridos para fora de uma grande égua.
17. jonas teve por mãe um cetáceo.
18. o sol acordará os ovos postos no canavial e, pelo menos um dia, a felicidade reinará.
19. no neolítico enterrava-se o cadáver em posição de bebé dentro da barriga da mãe-terra. assim deveria continuar por todo o sempre.
20. um dia destes nasço outra vez. tá-me a apetecer.
11.2.06
lista#1 (quarto)

1. aparelho simples para abdominais no chão.
2. tapete anos oitenta cores vermelhas.
3. candeeiro de metal, com campânula generosa, em cima de mesinha de cabeceira com livros.
4. livro que aparece primeiro: satyricon, de petrónio, edição barcelona, 1965.
5. três sofás, uma cadeira, um banco.
6. aquecimento de metal, de parede, cor creme, anos setenta, design incaracterístico.
7. paredes pintadas rudemente de branco, com as declinações do latim escritas nelas.
8. cama tipo "clássico" pintada de branco e com inscrição a marcador: "labor omnia improbus uincit".
9. ténis espalhados pelo chão
10. livros, papéis, espalhados pelo chão.
11. roupa espalhada pelo chão e pelos móveis.
12. saco de boxe, vermelho, pendurado no tecto.
13. quarto amplo, talvez 7X3,5 m.
14 pé-direito normal.
15. cómoda com tampo de máromore. pintada de branco. (sujo)
16. quadro na parede, tela sem armadura, representando um jogo de xadrez. (7m) em tons rosa avermelhado.
17. quadros abstractos, em tons de branco.
18. lareira de tijoleira, com girafa africana sem cabeça de madeira, e um monte (literalmente na forma de monte) de livros por cima.
19. janelas de duas folhas, de abertura à francesa. duas janelas e uma porta-janela que dá para o quintal.
20. pessoa a escrever deitada na cama. a escrever em caderno de notas de baixa qualidade. a escrever uma lista das coisas que há no quarto.
11.12.05
explicação do fogo

a lareira arde na escuridão
espalha sombras pelo tecto
e suja as paredes com agitação,
já houve alturas
em que o fogo tinha uma alma
agora nele só há química,
ligações covalentes que se partem,
a energia que é liberada,
a fluidez gasosa das chamas
a termodinâmica da temperatura,
e a radiação que fica vermelhando
heraclito,
também pensava no fogo
e nesse seu pensar
existia um mundo em devir
prometeu,
como o amigável satã,
ama o fogo e o conhecimento
contra o fascismo de deus
cristo,
talvez fosse melhor cristo,
ter sido incenerado
escusávamos de ter hoje seitas
que adoram um cadáver
as cinzas,
devem ser inertes, minerais,
a parte mais inanimada
do fogo que se evapora
o fogo faz parte
do ciclo do carbono
do qual também nós fazemos parte)
e é essa
a sua última poesia
quando me sento em frente ao fogo
sento-me em frente de uma pessoa
que está como eu
nero em combustão
um sonho
com o cérebro combustível
(sonâmbulo incêndio)
um sonho desde
o núcleo do carbono
até ao fim do fumo
um sonho desses
é o que eu mais desejo
4.12.05
no centro do sangue
no centro do sangue
acontecem algumas coisas
e os sentimentos dilatam
as paredes musculosas
da parede vascular
(acelero o carro
pela estrada de árvores
as luzes das viaturas passam
como se penduradas no ar velocidade)
no centro do cérebro
lá dentro no profundo
acontecem coisas
que mais tarde ou mais cedo
vão ter de ser ditas
(espero
como se estendesse uma armadilha?)
no centro do sangue
surge um segredo mais forte
que frutifica e fertiliza
todo um coração que se expande
(um dia destes digo-lhe)
acontecem algumas coisas
e os sentimentos dilatam
as paredes musculosas
da parede vascular
(acelero o carro
pela estrada de árvores
as luzes das viaturas passam
como se penduradas no ar velocidade)
no centro do cérebro
lá dentro no profundo
acontecem coisas
que mais tarde ou mais cedo
vão ter de ser ditas
(espero
como se estendesse uma armadilha?)
no centro do sangue
surge um segredo mais forte
que frutifica e fertiliza
todo um coração que se expande
(um dia destes digo-lhe)
27.11.05
a moagem do meu avô

a moagem era bela a moagem
com as suas janelas verdes quadradinhos-vidro
com o seu pé direito alto de girafa
e com as suas maquinetas de madeira
e articulações de aço
eu não vi a moagem a trabalhar
morreu pela primeira vez talvez
nos anos quarenta nem sei
mas passei tantas tardes
dentro desse edifício agro-industrial
que pensava que ele também era eu
e as máquinas paradas
eram fantasmas do movimento,
o caruncho ia mastigando as madeiras
e os silos,
enquanto as partes de ferro fundido
davam um ar expressionista à inactividade
como se estivessem as máquinas
estupefactas e sem trabalho
gostava particularmente das roldanas
das rodas dentadas,
do silêncio
e do pó
passei a infância
na solidão e no sonho
em sítios como aquela moagem
por vezes subia ágil
pelas condutas acima até aos silos
e ficava escondido a observar o silêncio
(como se fosse um pequeno animal furtivo)
este sítio foi demolido
só ficou um rasto de roldanas
paradas na minha memória
aquele sítio era uma cetedral industrial
de madeira e de cheiros secos e cereais
e tinha uma dignidade de teatro
ou de fóssil
este sítio foi demolido
e tenho pena de nunca nele
ter beijado uma mocinha
de espigas loiras como tranças,
bem, agora já não importa
já tudo foi demolido
mas ficou a recordação doce
daquele sítio que já morreu
18.11.05
gineceu
hoje sonhei
que estava com três mulheres
reclinado em almofadas,
rei no gineceu,
a apalpar-lhes os seios
as ancas, os rabos,
os cabelos e as vulvas,
sedado
pelos aromas que das fêmeas
saem
eu, que ninguém tenho,
(e talvez por isso mesmo)
sonhei que era proprietário
de três fêmeas
deito-me portanto para ser recebido
por paisagens oníricas
(e mulheres que me aceitem)
e enquanto isso, o sono, não acontece
deito-me no colchão no chão
e observo de baixo para cima:
(e observar rente ao solo
é como se voltássemos à infância)
observo a mesa de elefantes
dedicada a shiva
os sofás duma lisboeta casa antiga
as paredes com restos de mecanismos
as minhas plantas pujantes e verdes
as minhas estantes com livros
o calor do meu corpo e o conforto
os sofás castanhos e antigos e lisboetas
este quarto escritório tão seguro
como se fosse a infância que tive
como se fosse invulnerável
e pudesse sorrir ao futuro
deito-me aqui para sonhar
com mulheres, ou com aquela mulher
adolescente e de rosto de criança
com quem tive uma bela conversa
no outro dia
e sempre com a sensação negra
de a ela não poder ter direito
como se eu fosse um túmulo vivo
e enfim, sonhei-me com três mulheres
eu que nenhuma tenho
e ao acordar depois disso
masturbo-me mais uma vez
e depois fico a olhar para o tempo no tecto
as suas sombras
as suas fracturas no estuque
e uma ou outra aranha
octopernada
e vagarosa
a passar
que estava com três mulheres
reclinado em almofadas,
rei no gineceu,
a apalpar-lhes os seios
as ancas, os rabos,
os cabelos e as vulvas,
sedado
pelos aromas que das fêmeas
saem
eu, que ninguém tenho,
(e talvez por isso mesmo)
sonhei que era proprietário
de três fêmeas
deito-me portanto para ser recebido
por paisagens oníricas
(e mulheres que me aceitem)
e enquanto isso, o sono, não acontece
deito-me no colchão no chão
e observo de baixo para cima:
(e observar rente ao solo
é como se voltássemos à infância)
observo a mesa de elefantes
dedicada a shiva
os sofás duma lisboeta casa antiga
as paredes com restos de mecanismos
as minhas plantas pujantes e verdes
as minhas estantes com livros
o calor do meu corpo e o conforto
os sofás castanhos e antigos e lisboetas
este quarto escritório tão seguro
como se fosse a infância que tive
como se fosse invulnerável
e pudesse sorrir ao futuro
deito-me aqui para sonhar
com mulheres, ou com aquela mulher
adolescente e de rosto de criança
com quem tive uma bela conversa
no outro dia
e sempre com a sensação negra
de a ela não poder ter direito
como se eu fosse um túmulo vivo
e enfim, sonhei-me com três mulheres
eu que nenhuma tenho
e ao acordar depois disso
masturbo-me mais uma vez
e depois fico a olhar para o tempo no tecto
as suas sombras
as suas fracturas no estuque
e uma ou outra aranha
octopernada
e vagarosa
a passar
8.11.05
pigmalião

um dia, sim, um dia
vou voltar a pintar, talvez,
agora sem pretensões
nem parvoíves conceptuais
por isso é que desisti da pintura
porque estava preocupado
com a aura da arte e do artista
balelas
além de que não tinha talento
mesmo
foi só quando desisti
é que me realizei o meu melhor quadro:
está ali, ela, a olhar para mim
com os seus profundos olhos da prússia
de vermelhos lábios e lábios menina
a pele rosada e lisa, as maçãs do rosto,
as curvas do pescoço e do queixo,
o rosto que apetece percorrer com a ponta
dos dedos ou com as narinas respirando-lhe a pele
até à base do pescoço, as clavículas,
o começo do peito, a pele
esta ali, ela, a olhar para mim
com as suas discretas orelhas de elfo
um seu o cabelo comprido apanhado atrás
um seu o pescoço tão modigliani
um seus os seus lábios carnudos
e tão profundamente sexuais
num sorriso tranquilo
benevolente, de quem me aceita,
ela está ali a olhar,
a sorrir, antes de sorrir
mesmo
está ali, ela, a olhar para mim
um dia, sim, um dia
vou perder o medo,
vou agarrá-la pela nuca
com ambas as mãos
e beijar os lábios dela
com toda a força
e dela recuperar o amor
que não chegou a chegar
2.11.05
a força e a matéria
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