21.7.05

ceci ne cést pas un pipe

escolho as palavras
cuidadosamente pego nelas,
como se fossem microscópios,
e perante o mar escolho
a palavra mar para o descrever

a "lua" é um bocado de terra
morta no meio das estrelas

a rapariga passa e sorri,
nada do mundo é mais belo
que uma rapariga que passa

e a "lua" é uma lata velha
suja de crateras

silence still

farto do fausto e das suas merdices decidi suspendê-lo por tempo indeterminado e fazer uns poemas que se poderão agrupar segundo um grupo (ou livro) que se chamará CICLO DO CARBONO. tou numa tentativa de escrever cenas menos agrestes, de ter um tom o mais neutro possível, poemas descritivos enfim sempre um bocadinho melancólicos (o que fica sempre bem). acho que já tentei escrever assim muitas vezes. mas acabo sempre por começar aos pinotes e aos pontapés e a meter facas nos textos e sangramentos diversos, pústulas infectadas e outras mui variadas mazelas em odivelas, etc... lol, então aqui vai:






Silence Still


o ladrar de um cão ao longe
a luz da lâmpada no papel
estes livros e estas canetas
o escruto por detrás das persianas

o barulho morno do trânsito,
misturando com a água das ondas
que se ouvem ao longe,
um pássaro retardatário
uns ramos quem barulho nos ramos

estar parado a reflectir ou a sonhar
estar atento aos barulhos da noite
da noite não tem vento

um ar condicionado, a sua ventoinha
o calor geológico do verão
e a "imortalidade"

29.7.04

21 sonetos

1. um calor de canícula. os antigos chamavam canícula porque a época do calor coincide com a constelação do cão. a casa resfolega frigoríficos. barulhos eléctricos. e na rua as cigarras vão esfuracando prédios. um cão ladra, derretendo-se no passeio. uma gaivota passa com um riso de hiena. e o cão mostra os dentes às estrelas.

2. o guincho de um autocarro. uma travagem. a noite é espessa e escura. o ar é tão forte que o ar não consegue o tórax. o suor. o corpo nu e vazio. inchado de constelações e desespero. percorrer a rua com a língua. com a humilhação própria. com a revolta. de um lado para o outro.
um insecto antes de ser esmagado. o estômago depois do pesticida.

3. a impotência e a prisão. a tortura no crâneo. as plantas adaptadas ao calor. com as suas patas verdes a mexerem-se. o meu corpo de insectos.

4. a passagem da página. os restosw dos crustáceos. comer animais com muitas pernas. os homens a recolherem o lixo. o vagabundo que mora e morre naquela esquina.

5. as flores que se enchem de água e de pólen. as chaminés ao longe. a incompreensão de tudo. os carros passam passeando-se pela avenida. os candeeiros altos que iluminam. ninguém.

6. a doença que se prolonga. os outros que são felizes. as telhas de aba e canudo, vermelhas de argila. o céu onde se riscou uma estrela cadente. para sempre.

7. a poesia são aqueles caixotes do lixo onde as doenças e os ratos se propagam.

8. a rua caiada de sol.as vértebras do pescoço que se curvam perante a escrita. a penunbra da casa. o rame-rame da ventoinha.

9. pratos do alentejo nas paredes. um livro de saint john perse. uma carcassa meia comida. as cortinas paradas nas janelas. o calor abstracto.

10. um jornal de ontem. um copo vazio. uma caneta. uma carteira algo já usada. uma pulseira. uns óculos de sol e uns óculos de ver. a mesa de azulejos.

11. o murmúrio das pessoas na rua. o vento muito suave abana as ruas e o escuro. ouve-se um travão de um carro. pessoas saem e conversam.

12. o telemóvel sobre a mesa. a mesa é circular. duas canecas vazias e fausto a pensar ir buscar mais uma. está uma bela noite. cheira a incêndio. por essas serras e florestas a estas horas já deve estar tudo a arder. fausto acaba a caneca. vai ao bar buscar mais uma.

13. na rua passa um casal embriagado. ela está histérica e a discutir. talvez ele perca a paciência e lhe levante a mão. os insectos juntam-se no candeeiro. outras pessoas conversam na esplanada com copos. há a felicidade.

14. fausto sente o excesso de actividade física. recosta-se na cadeira e embriaga-se feliz. as casas são esquisitas. têm demasiadas janelas e isso perturba. houve uma altura em que tinha medo das casas. e elas estão por todo o lado e a isso se chama cidade.

15. há um toldo amarelo por cima. a noite começa a canibalizar as casas. os sentidos embaciam-se e tornam-se cambaleantes. o ar está cada vez mais inflamável. fausto bebe grandes golfadas de cerveja pela caneca.

16. fausto pensa que qualquer soneto é uma cadeira vazia na mesa onde fausto está sentado. apoia a cabeça numa mão. o cabelo cheira a fumo, e a noite é tão grande como a descida de um batiscafo à verdade.

17. o pânico que o bar feche e que a noite acabe. pedir mais uma caneca. tentar falar com o telemóvel. o chão é de cianeto hexagonal. parece uma colmeia ou uma fábrica.

18. fausto tinha fobia das casas. era como se elas olhassem para ele e o culpassem.

19. gostaria de estar só e tranquilo, a meditar transcendências. metido na pequena casa de madeira no meio da floresta. rodeado de livros e o inverno neve na floresta.

20. o mar é uma casa na floresta.

21. mais tarde ou mais cedo o incêndio chegaria a fausto. e como fausto é uma pessoa de papel arderia rapidamente no ar. como uma borboleta de fogo a voar na floresta.

5.7.04

adraga

fschhhhhhhhh... fcsch...... ondas. a areia. ondas na areia. grãos. grãos são a areia. um livro. agora um livro. paul eluárd. uma garrafa de água verde. água das pedras. a toalha de praia na praia. toc. toc. toc. as raquetes toc. toc. as ondas fschhhhhhhhh... fcsch...... o chapéu de sol. cores. azul. vermelho. amarelo. são as cores primárias. toc. toc. toc. as raquetes. uma mulher nova adormecida ao sol. fato de banho azul claro. a duna na anca. o mar fschhhhhhhhh... fcsch...... o sol a mover-se. devagar e imperceptível. as horas suspensas no calor. a praia. o vento levemente frio. o sol forte. a mulher adormecida. a mala de praia. o tecido tafetá. o mar fschhhhhhhhh... fcsch...... o calor poing. a humidade vzzlle. a bandeira amarela. a bandeira amarela brlu brlu ao vento. as ondas fschhhhhhhhh... fcsch......
as raquetas calaram-se. já não toc. toc. toc. agora apenas mar. agora apenas mar fschhhhhhhhh... fcsch...... a mulher nova dorme ao sol. o monte tem verde mediterrâneo do lado esquerdo e cinzento calcáreo do lado direito. o verde e o cinzento misturam-se. uma rocha afocinhada no mar. agora tirar uma fotografia a uma rocha afocinhada no mar. no mar fschhhhhhhhh... fcsch...... e a bandeira amarela brlu brlu ao ventoas pessoas na praia. em flocos sobre o areal. a mulher nova dorme reflectindo o sol. um insecto rastejante passa. o guarda sol. debaixo do guarda sol.
(foi nesta praia que o poeta se afogou, por isso fausto escreve objectivamente, adjectivando o menos possível. nem sequer escreve. enumera. porque a poesia morreu. se o poeta morreu então a poesia morreu com ele)
e a mulher dorme fêmea ao sol.
e o mar fschhhhhhhhh... fcsch......
e as raquetas recomeçaram toc. toc. toc.
e a bandeira amarela ao vento brlu. brlu. brlu.
e o sono de fausto rrrrr.... rrrr...

22.5.04

estar doente

a planície está vazia
de coração arrancado,
as veias estrangulam-se nos pés,
e fizeram tropeçar fausto

também édipo caminhou assim
com o coração pesados nos pés
antes e depois
de mutilar os olhos

que peso desce coração
aos pés tanto peso?

como se o centro do corpo
percutisse pulsações doentes
batidas de quem pede ajuda

(e o plexo solar
a pôr-se no horizonte)

8.5.04

o pai de fausto

estava com as pernas desatarrachadas da bacia, porque tinha estado a morrer durante três semanas há três anos. estava tecnicamente acamado. em linguagem popular estava aleijado.
não é que fausto tivesse assim uma pena tão profunda. antes pelo contrário. havia uma grande parte de si que gostava de o ver diminuído e dependente.
lembrava-se muito bem de todos os infinitos sermões, em que era requisitado burocraticamente por seu pai até ao gabinete, e que o ouvia humilhando-o intelectualmente com "discursos". discursos que invariavelmente o amesquinhavam em relação aos outros, a todos os outros, e que lhe davam um sentimento de culpa em relação ao mundo que continuava profundamente enquistado no seu ser.
e agora o pai de fausto estava acamado. fausto tinha que lhe levar o tabuleiro de jantar e ainda tinha que ouvir a sua voz autoritária e insolente a chamar para lhe ir buscar um papel ou para verificar pela enésima vez um estrato de conta.
um dia destes havia de lhe atirar o jantar na cara. queimando-o e demonstrando-lhe finalmente o que sentia.
mas por agora continuava a obedecer como se gostasse dele.

3.5.04

cadernos de fausto

tinham-lhe despejado cimento no coração, e assim sentia como que uma fossilização do plexo solar. tinha peso na respiração e o esforço do diafragma em erguer e esticar os pulmões para erspirar era aço inoxidável.
ficaria assim, deitado, na luta pelo oxigénio, a olhar inexpressivo as paredes, a pensar em tudo o que viveu e em tudo o que gostaria de ter vivido. a pensar, ventilando ideias com dificuldade, com o sangue espesso a empapar-se no cimento.
e ficou assim, a olhar. à espera. apenas à espera.

10.4.04

declaração de amor

a adriana e eu tivemos a beber e fumámos um charro. depois fomos para casa. e quando me fui deitar ela perguntou-me "como é que vieste aqui parar?"
ela tava cheia de vontade de tagarelar e eu de dormir. (távamos com mocas muito diferentes)
e ela pediu-me "faz-me uma declaração de amor"
e eu respondi "olha, já és parte da mobília da casa, pareces um rodapé"

hoje á tarde já fizemos as pazes sem termos chegado a ficar zangados.

3.4.04

à lareira

uma aranha caída
numa teia de brasas,
encolhe os seus tentáculos
na dor

a adriana dorme
enrolada no bem estar
ali no colchão

e eu contemplo
a evaporação da aranha
esperneando oito vezes
a sua morte

1.4.04

não consigo falar

por baixo dos pés, por debaixo de mil metros de profundidade, por baixo do húmus e das rochas concentracionárias, existe o mar. o mar a mil metros de profundidade, a apodrecer os ossos da cidade, ao fundo de um poço, existe o mar a mil metros de profundidade, por baixo das fundações e das, e dos lixos centenários, e dos por baixo dos pés, a mil metros de profundidade existe o mar.
o mar a apodrecer a terra toda, a infiltrar-se pelas bainhas da carne do mundo.

19.3.04

o meu coração remexe-se
estica os seus braços
como se se espreguiçasse

bate como um arquipélago
através das costelas
bombeando
caixas e caixas de sangue.

e a serpente mexe-se
como algo obsceno
e divide a erva em duas.

14.3.04

e os mortos espalhados pelos combóios, como estrofes partidas. alguns ainda sentados nos bancos, a olharem espantados através de ferros retorcidos, à espera que os socorram.

10.3.04

está a chegar a primavera, e com ela as flores e as mulheres cada vez mais bonitas, os dias grandes como naves de catedrais, a alegria. o calor. as cores e a vida ficam mais intensas, e com elas a vontade de me mutilar outra vez.

6.3.04

gostava de conhecer aquele lado, talvez. a água é funda, de uma profundidade metálica. as ondas marulham no molhe, com uma calmaria melancólica, de águas magestosas que descem em corrente.
cheira a maresia e do outro lado há um outro molhe, uma parede de betão suja pelos anos, gaivotas mudas no espaço, o motor de uma traineira ao longe, o céu pesado, nuvens mumificadas, estáticas de nostalgia. o céu como uma bifurcação irreversível.
foi já uns anos que essa possibilidade foi deixada para trás. mas eu explico melhor, assim com uma imagem: gostava de conhecer aquele lado, talvez, aquela margem ali, com as suas dunas e pássaros (passa uma lancha no meio da ria, a ondulação bate na muralha de pedras como um velho cargueiro a arrastar-se na água, um peixe salta, quebrando a monotonia).
gostava de conhecer aquela margem, talvez. mas penso que é melhor ficar deste lado e não ir passear pelas dunas e molhes, arbustos e pássaros daquele lado. se fosse à outra margem ficaria a saber como ela é. prefiro ficar por aqui, a pensar que aquele lado direito do rio é melhor que este lado esquerdo.
sei que quando conhecer aquelas terras além vou ficar desiludido. prefiro não ir. não me mexer. não quero saber. e consigo imaginar aquelas terras além muito mais poéticas do que estas.
e os faróis do porto, e os reservatórios de gás brancos e esféricos, e os reservatórios de crude cinzentos e cilindricos, e os guindastes, e as construções marítimas, e a profunda melancolia do céu encoberto e disto tudo. o céu nublado lembrando uma rapariga que se afogou no rio uns anos atrás. uma rapariga linda e que hoje já quase ninguém se lembra dela.

28.2.04

a lua levanta os seus cornos da água. e refulge em todo o seu esplendor doente. a luz horizontal na água. a água perpendicular ao seu olhar. um cancro no céu a comer as estrelas. a levantar os seus cornos metástases. a marca desceu sobre ele tatuado como um ferro quente. e a lua com a sua luz nocturna, com as suas sombras paludismo e enferrujadas. ele aguardava esta espécie de sinal para se levantar da sua morbilidade e pôr-se a caminho como um pôr-do-sol. a lua a levantar os seus cornos na água, com o sorriso saturno ao longe, por entre cadáveres de árvores e a hulha húmida. e a marca aparece para sempre, tautando a sua maneira de ser, acrescentando a si os elementos, uma respiração toráxica, um gesto por cima do braço,
e fica a olhar apático para um deus a apodrecer calcáreo, com a cabeça partida, no canto de um jardim abandonado, e as ervas daninhas, e as latas, e os plásticos, e o lixo a crescer por entre as ervas.

24.2.04

o mar protege-se, no fundo.
ecos de vozes femininas, e cantares do tamanho de anémonas, flutuam em flocos na superfície, como flocos de espuma, ou o pólen dos pinheiros a apodrecer nas poças de lama.
vozes encalhadas nos sargaços, através de todos aqueles metros cúbicos de água homeostática, através de toda aquela levitação de cabeça para baixo, e o azul debaixo de água, nem é bem azul, apenas aquela concha de luz em cima é o sol.
e o segredo. e o silêncio.
e a neurastenia de nunca lá chegarmos. de nos irmos afogar ao procurarmos a verdade. durante toda a vida. a procurar um ponto a partir do qual tudo faça sentido.
e o fundo do mar é impossível.

17.2.04

círculos só na mente
sítios de folhas,
e de húmus

sítios só na morte
trepidações tectónicas
dentro da cabeça

planícies vazias, oxidadas
pelo vento e pelas vedações
propriedades abandonadas
a terra de chumbo apenas coberta
por líquenes e vestígios
vegetais

e fausto desaguava
sem resistência
pelos cotovelos
do rio de heraclito
abaixo.

11.2.04

fármacos fagocitados,
a felicidade existe,
é elaborada em laboratórios
os batas brancas trabalham
para nos salvarem
da morte

apetece espiar casas com gente ausente,
apetece entrar em quintais alheios
e vazios, janelas para quartos,
e remexer as salas de moradores episódicos
e as estantes e os papéis e os livros

e quando acabar de tomar esta caixa
de comprimidos
vou ser muito muito feliz
e vou estar curado

7.2.04

e sim, sonhei com tranquilizantes. e foi bom. sonhei que era um muro de musgo. cujo caroço eram pedras amontoadas, pedras cinzentas, sujas de erosão, e de humidade, e isso era ser obviamente, floresta.
posso ter alguns membros amputados que isso não faz com que eu deixe de ser uma floresta.