a adriana e eu tivemos a beber e fumámos um charro. depois fomos para casa. e quando me fui deitar ela perguntou-me "como é que vieste aqui parar?"
ela tava cheia de vontade de tagarelar e eu de dormir. (távamos com mocas muito diferentes)
e ela pediu-me "faz-me uma declaração de amor"
e eu respondi "olha, já és parte da mobília da casa, pareces um rodapé"
hoje á tarde já fizemos as pazes sem termos chegado a ficar zangados.
10.4.04
3.4.04
à lareira
uma aranha caída
numa teia de brasas,
encolhe os seus tentáculos
na dor
a adriana dorme
enrolada no bem estar
ali no colchão
e eu contemplo
a evaporação da aranha
esperneando oito vezes
a sua morte
numa teia de brasas,
encolhe os seus tentáculos
na dor
a adriana dorme
enrolada no bem estar
ali no colchão
e eu contemplo
a evaporação da aranha
esperneando oito vezes
a sua morte
1.4.04
não consigo falar
por baixo dos pés, por debaixo de mil metros de profundidade, por baixo do húmus e das rochas concentracionárias, existe o mar. o mar a mil metros de profundidade, a apodrecer os ossos da cidade, ao fundo de um poço, existe o mar a mil metros de profundidade, por baixo das fundações e das, e dos lixos centenários, e dos por baixo dos pés, a mil metros de profundidade existe o mar.
o mar a apodrecer a terra toda, a infiltrar-se pelas bainhas da carne do mundo.
o mar a apodrecer a terra toda, a infiltrar-se pelas bainhas da carne do mundo.
19.3.04
14.3.04
10.3.04
6.3.04
gostava de conhecer aquele lado, talvez. a água é funda, de uma profundidade metálica. as ondas marulham no molhe, com uma calmaria melancólica, de águas magestosas que descem em corrente.
cheira a maresia e do outro lado há um outro molhe, uma parede de betão suja pelos anos, gaivotas mudas no espaço, o motor de uma traineira ao longe, o céu pesado, nuvens mumificadas, estáticas de nostalgia. o céu como uma bifurcação irreversível.
foi já uns anos que essa possibilidade foi deixada para trás. mas eu explico melhor, assim com uma imagem: gostava de conhecer aquele lado, talvez, aquela margem ali, com as suas dunas e pássaros (passa uma lancha no meio da ria, a ondulação bate na muralha de pedras como um velho cargueiro a arrastar-se na água, um peixe salta, quebrando a monotonia).
gostava de conhecer aquela margem, talvez. mas penso que é melhor ficar deste lado e não ir passear pelas dunas e molhes, arbustos e pássaros daquele lado. se fosse à outra margem ficaria a saber como ela é. prefiro ficar por aqui, a pensar que aquele lado direito do rio é melhor que este lado esquerdo.
sei que quando conhecer aquelas terras além vou ficar desiludido. prefiro não ir. não me mexer. não quero saber. e consigo imaginar aquelas terras além muito mais poéticas do que estas.
e os faróis do porto, e os reservatórios de gás brancos e esféricos, e os reservatórios de crude cinzentos e cilindricos, e os guindastes, e as construções marítimas, e a profunda melancolia do céu encoberto e disto tudo. o céu nublado lembrando uma rapariga que se afogou no rio uns anos atrás. uma rapariga linda e que hoje já quase ninguém se lembra dela.
cheira a maresia e do outro lado há um outro molhe, uma parede de betão suja pelos anos, gaivotas mudas no espaço, o motor de uma traineira ao longe, o céu pesado, nuvens mumificadas, estáticas de nostalgia. o céu como uma bifurcação irreversível.
foi já uns anos que essa possibilidade foi deixada para trás. mas eu explico melhor, assim com uma imagem: gostava de conhecer aquele lado, talvez, aquela margem ali, com as suas dunas e pássaros (passa uma lancha no meio da ria, a ondulação bate na muralha de pedras como um velho cargueiro a arrastar-se na água, um peixe salta, quebrando a monotonia).
gostava de conhecer aquela margem, talvez. mas penso que é melhor ficar deste lado e não ir passear pelas dunas e molhes, arbustos e pássaros daquele lado. se fosse à outra margem ficaria a saber como ela é. prefiro ficar por aqui, a pensar que aquele lado direito do rio é melhor que este lado esquerdo.
sei que quando conhecer aquelas terras além vou ficar desiludido. prefiro não ir. não me mexer. não quero saber. e consigo imaginar aquelas terras além muito mais poéticas do que estas.
e os faróis do porto, e os reservatórios de gás brancos e esféricos, e os reservatórios de crude cinzentos e cilindricos, e os guindastes, e as construções marítimas, e a profunda melancolia do céu encoberto e disto tudo. o céu nublado lembrando uma rapariga que se afogou no rio uns anos atrás. uma rapariga linda e que hoje já quase ninguém se lembra dela.
28.2.04
a lua levanta os seus cornos da água. e refulge em todo o seu esplendor doente. a luz horizontal na água. a água perpendicular ao seu olhar. um cancro no céu a comer as estrelas. a levantar os seus cornos metástases. a marca desceu sobre ele tatuado como um ferro quente. e a lua com a sua luz nocturna, com as suas sombras paludismo e enferrujadas. ele aguardava esta espécie de sinal para se levantar da sua morbilidade e pôr-se a caminho como um pôr-do-sol. a lua a levantar os seus cornos na água, com o sorriso saturno ao longe, por entre cadáveres de árvores e a hulha húmida. e a marca aparece para sempre, tautando a sua maneira de ser, acrescentando a si os elementos, uma respiração toráxica, um gesto por cima do braço,
e fica a olhar apático para um deus a apodrecer calcáreo, com a cabeça partida, no canto de um jardim abandonado, e as ervas daninhas, e as latas, e os plásticos, e o lixo a crescer por entre as ervas.
e fica a olhar apático para um deus a apodrecer calcáreo, com a cabeça partida, no canto de um jardim abandonado, e as ervas daninhas, e as latas, e os plásticos, e o lixo a crescer por entre as ervas.
24.2.04
o mar protege-se, no fundo.
ecos de vozes femininas, e cantares do tamanho de anémonas, flutuam em flocos na superfície, como flocos de espuma, ou o pólen dos pinheiros a apodrecer nas poças de lama.
vozes encalhadas nos sargaços, através de todos aqueles metros cúbicos de água homeostática, através de toda aquela levitação de cabeça para baixo, e o azul debaixo de água, nem é bem azul, apenas aquela concha de luz em cima é o sol.
e o segredo. e o silêncio.
e a neurastenia de nunca lá chegarmos. de nos irmos afogar ao procurarmos a verdade. durante toda a vida. a procurar um ponto a partir do qual tudo faça sentido.
e o fundo do mar é impossível.
ecos de vozes femininas, e cantares do tamanho de anémonas, flutuam em flocos na superfície, como flocos de espuma, ou o pólen dos pinheiros a apodrecer nas poças de lama.
vozes encalhadas nos sargaços, através de todos aqueles metros cúbicos de água homeostática, através de toda aquela levitação de cabeça para baixo, e o azul debaixo de água, nem é bem azul, apenas aquela concha de luz em cima é o sol.
e o segredo. e o silêncio.
e a neurastenia de nunca lá chegarmos. de nos irmos afogar ao procurarmos a verdade. durante toda a vida. a procurar um ponto a partir do qual tudo faça sentido.
e o fundo do mar é impossível.
17.2.04
círculos só na mente
sítios de folhas,
e de húmus
sítios só na morte
trepidações tectónicas
dentro da cabeça
planícies vazias, oxidadas
pelo vento e pelas vedações
propriedades abandonadas
a terra de chumbo apenas coberta
por líquenes e vestígios
vegetais
e fausto desaguava
sem resistência
pelos cotovelos
do rio de heraclito
abaixo.
sítios de folhas,
e de húmus
sítios só na morte
trepidações tectónicas
dentro da cabeça
planícies vazias, oxidadas
pelo vento e pelas vedações
propriedades abandonadas
a terra de chumbo apenas coberta
por líquenes e vestígios
vegetais
e fausto desaguava
sem resistência
pelos cotovelos
do rio de heraclito
abaixo.
11.2.04
fármacos fagocitados,
a felicidade existe,
é elaborada em laboratórios
os batas brancas trabalham
para nos salvarem
da morte
apetece espiar casas com gente ausente,
apetece entrar em quintais alheios
e vazios, janelas para quartos,
e remexer as salas de moradores episódicos
e as estantes e os papéis e os livros
e quando acabar de tomar esta caixa
de comprimidos
vou ser muito muito feliz
e vou estar curado
a felicidade existe,
é elaborada em laboratórios
os batas brancas trabalham
para nos salvarem
da morte
apetece espiar casas com gente ausente,
apetece entrar em quintais alheios
e vazios, janelas para quartos,
e remexer as salas de moradores episódicos
e as estantes e os papéis e os livros
e quando acabar de tomar esta caixa
de comprimidos
vou ser muito muito feliz
e vou estar curado
7.2.04
29.1.04
21.1.04
20.1.04
ser e tempo
por vezes a floresta não é um monstro. com lagostins nas suas raízes, as árvores submersas, todo um ecossistema da salvação, com a sopa da humidade e do húmus, e peixes voando por entre as copas. por vezes a floresta não é um monstro, mas tão só o labirinto que precisamos de resolver, esses fungos e musgos antropológicos, que pintalgam a casca das árvores. e os cogumelos a espreitar venenosos através da podridão, com o seu ar frágil e esfíngico. e a morte, e as mais raras visões do universo.
19.1.04
isto não foi hoje
um espaço em branco, que não foi quando se escreve, as minhas mãos, o cimento despejado é na aorta, essas bombas coronárias que fluxo, que correr no areal plano, polido de vento, e de chuvas. a correr com o fôlego pneumonias. o torso da serra, deitado na catástrofe, aqui houve um vulcão, de quem está no guincho a ver a serra, vamos ter de morrer outra vez, parece-me. enquanto o vendaval se eleva trapos e plásticos pelos ares. e a maresia resfolega ansiedade, e as ondas gigantes remoinham junto à costa. nada se consegue e é tudo muito triste. apesar de continuar a correr, a fazer jogging, num frio cortante e em céus nietzchianos.
16.1.04
15.1.04
10.1.04
pater familias
tenho andado a reler assim falava zaratustra. faz-me lembrar os meus sobrinhos quando estão mais desatinados, carentes, desorientados, com a mãe neurótica, inseguros, agressivos.
coitado do nietzche, também era infeliz, por isso andava sempre zangado e revoltado. eu gosto muitos meus sobrinhos. e do nietzche também.
coitado do nietzche, também era infeliz, por isso andava sempre zangado e revoltado. eu gosto muitos meus sobrinhos. e do nietzche também.
narcismo
agora gostava de ter alguma coisa para escrever aqui. alguma coisa que depois me dissessem que tinham gostado.
8.1.04
6.1.04
revolta
vejo da janela um pinheiro manso, com o sol na sua casca. é a árvore do verão da minha infância. e é tão fácil escrever estas coisinhas assim. estas imagenzinhas manhosas "a árvore da minha infância". que escritazinha repugnante e tão "poética".
todos pró caralho!
todos pró caralho!
testemunho
vinha sossegado no combóio, já quase de noite, a ler uma biografiazeca sobre himmler, quando vejo um velhinho simpático a olhar em volta. sentado muito aprumado no banco, com a barba de neve aparada com rigor, e com um chapéu quase tirolês de tafetá. e os seus olhos eram cansados, quase senis. era o herberto helder. vejo-o muitas vezes no combóio. e ninguém diria que aquele velhinho doméstico é um dos mais violentos e perturbadores poetas de sempre. enfim...
4.1.04
3.1.04
e lembra-se das paredes onde costuma investigar se existe tal coisa chamada eternidade, e por isso ouve música alucinatória, contra o eco dos espíritos, através de desertos bordejados por rios com alguma vegetação, linhas férreas que levam à morte, por entre a paisagem branca de neve e a negritude de um céu que se recusa em acreditar. e a água vai escorrendo pelas paredes, cristalina, pura como se esfolasse o ventre no fundo do rio, e as margens cheias de ferrugem e as fábricas que se erguem na paisagem, como deuses doentes, ou então os trilhos por onde caminhámos quando ainda queríamos ir ao encontro do pôr-do-sol,
1.1.04
e debaixo dos blocos de calcáreo, apodrecido pela lixiviação das águas pluviais, uma matriz coberta por árvores coralíferas, copas de esponja, quando da desglaciação, há dez mil anos, o mar a subir para cima das civilizações costeiras, e então a escrever-se o dilúvio, e os corpos esbranquiçados pela água a boiarem juntos, no meio dos sargaços e dos destroços, madeiras, as medusas penduradas na água, como se não fossem seres vivos, e as águas a subirem para cima do telhado das casas.
o dilúvio.
o dilúvio.
26.12.03
24.12.03
23.12.03
16.12.03
um quarto de quartzo
a rapidez do nevoeiro passa. por entre um rio espelhado a cimento e longos armazães junto á horizontal do rio. um nevoeiro de granito e nele alguém me falou de uma morte recente de uma pessoa que conhecia. "cruzes credo na porta da tabacaria!". é uma reencarnação dessa personagem concerteza. mas eu sou suficientemente egoísta para me alhear do facto, para não ligar, e para furar o nevoeiro como a alegria de um combóio. e o sol atraí-me com os seus cânticos e os seus crepúsculos.
alguém disse uma vez que a morte só acontece aos outros. como é bela e verdadeira essa frase.
alguém disse uma vez que a morte só acontece aos outros. como é bela e verdadeira essa frase.
13.12.03
aparelhos respiratórios
, as vírgulas na paisagem, estruturas linguísticas erguem-se como muralhas, e lá dentro talvez esteja o ser. os tubos respiratórios cheios de asma, a ventilação,
a fluidez do fogo
se formos bem a ver o fogo comporta-se mais como a água, com os seus caudais, meandros e estuários em delta, do que qualquer outra coisa
10.12.03
um quadro de munch
depois do beijo, sorrio sangue. ela retribui o sorriso. e mostra os ossos da boca.
5.12.03
estão a visitar a minha mente, anjos da ignorância caem ao chão como vidros partidos, marchas militares, a humanidade desfila com a sua desumanidade, se nos preocuparmos com o nada, se nos enquadrarmos nos debaixo da terra, os sonhos, a queda da casa de uscher, sirenes tocam a rebate, é a hora do recolher obrigatório.
os desenhos lá estavam. enormes a cercarem-me pelas paredes. casas. jardins. muros. pormenores. e o corpo deslocava-se entre eles como uma coluna cervical pendurada pelo pescoço. e a luz era ténue, e ficou pesada como um batiscafo. e os desenhos estavam nas paredes, a sorrir a longa humilhação de tantos anos.
4.12.03
2.12.03
ser e tempo
por vezes a floresta não é um monstro. com lagostins nas suas raízes, as árvores submersas, todo um ecossistema da salvação, com a sopa da humidade e do húmus, e peixes por entre os caules, cinestesicamente a dar às barbatanas. por vezes a floresta não é um monstro mas tão só e apenas o labirinto que precisamos de vencer. esses fungos e musgos antropológicos, que pintalgam as cascas da árvores, e os cogumelos a espreitar de podridão, com o seu ar esfíngico prometendo a morte ou as mais raras visões do universo. e o frio. e a escuridão. um frio e uma escuridão terríveis, que molha os ossos como um cargueiro, como a alegria, a afogar-se.
um espaço em branco
um espaço em branco, que não foi quando se escreve, as minhas mãos, o cimento despejado é na aorta, essas bombas coronárias que em fluxo, que correr na planície e no areal, polido de vento e de chuvas. a correr com o fôlego aos farrapos. um torso da serra, deitado na catástrofe. aqui houve um vulcão, de quem está no guincho a ver a serra. e depois ainda o espírito confuso. a perturbação. a eterna e cíclica perturbação. vou ter de morrer outra vez, parece-me. enquanto o vendaval leva os trapos e plásticos pelos ares. e a maresia resfolega amarelada de resíduos de crude. e as ondas gigantes e enérgicas redemoinham o litoral. nada se consegue e é tudo muito triste. apesar de continuarmos a correr, a fazer jogging, num frio cortante e em céus nietzchianos, a fazer corridas para tentar fazer funcionar o coração.
1.12.03
30.11.03
interferência
temos que a geometria, temos que deus. temos que a explicação para tudo, através deste cigarro, outras combustões, por exemplo na sala. onde deixeia a nostalgia e o esquema de ser tudo. eu quando penso nisto muito tanto. no meio do meu quarto. um lago profundo e a profundidade de coisas lá dentro. vou-me afogar.
25.11.03
imaturidade
por vezes apetece-me tanto atirar-me das escadarias abaixo, para mostrar o visceral desprezo que sinto pelas pessoas.
19.11.03
18.11.03
17.11.03
16.11.03
antes do solstício
o inverno é brando nestas latitudes, no entanto é o suficiente para me congelar a alegria e a vontade.
10.11.03
a chuva e o fogo
oiço a chuva. ela está por todo o lado. deitado no colchão sempre no chão que é onde se dorme junto ao espírito da terra. ontem bebi, mas hoje sinto-me bem. é de noite. domingo. e passei o dia todo a dormir. e a ler quando acordado vergilio ferreira. e sinto-me bem, protegido, sem me faltar nada. e é por isso é que a esperança existe. é porque de facto, de vez em quando, as pessoas melhoram. no entanto a minha namorada e que tem qualquer coisa de sibila, acha que ando esquisito. não mais que o habtual meu amor. não mais que o habitual.
8.11.03
penedo
de vez em quando passo no portão da casa dos teus pais. nunca entrei lá. mas tive uma vez nos teus anos numa casa que dava para a sé de lisboa. o teu quarto era cheio de coisinhas, budas, incensos, amuletos, panos étnicos. e tinhas uns olhos lindos e uma magreza que só mais tarde é que percebi que era esculpida pela heroína. e tinhas aquele ar vago, ausente, de quem se dedica a esoterismos. e eras uma personagem que despertava uma certa curiosidade. e depois morreste. só o soube umas semanas depois. gostava do teu ar frágil, talvez isso me despertasse instintos de protecção. mas sendo sincero não posso dizer que tenha sido muito afectado pela tua morte. mal te conhecia. mas sentia e continuo a sentir simpatia por ti. nunc ative por ti apaixonado, como faz querer parecer o contexto desta conversa. mas sempre que passo na estrada que vai para o penedo, e passo à frente da casa dos teus pais, lembro-me de ti. e fico sempre a tentar recordar o teu nome que esqueci. faz tempo que morreste. talvez dois ou três anos.
7.11.03
6.11.03
os deuses do sol
recebe os ossos através do sol, as costelas do aço, o levantar de um deus ou de um monstro no céu, o incêndio que atravessa o anfiteatro da cidade. as tuas mãos penduradas de lado, enamoradas pelo estrangulamento.
2.11.03
átrio
quando passo por este átrio lembro-me, de vez em quando, de um anónimo que se atirou lá de cima e se estatelou neste chão tão duro e tão asséptico.
31.10.03
zigurate
oiço vozes que insistem em chamar-me radiactivos carbono catorze. os mortos têm inveja de mim. querem que eu volte à matéria inanimada de onde saí. à matéria inanimada e imóvel. e tá-me tanto a apetecer beber uns copos para esquecer esta realidade.
30.10.03
ipsílon
hoje vi o ipsílon a pedir na estação. já foi o que se pode chamar, mais ou menos, um amigo. enfim, de copos e de boémia... é impressionante como a doença psíquica pode vir a afectar qualquer um de nós. podia ser eu no lugar dele. no entanto evitei-o e não lhe falei.
29.10.03
percorremos as pequenas avenidas, com arbustos pequenos, que geometrizam a natureza. e aquilo deu-nos um fôlego extra para pensar. a natureza tinha sido encaixotada num régua e esquadro. e assim é que estava bem, corrigida e racionalizada. porque a natureza finge que não quer seguir as leis da matemática, e deve ser forçada a isso como uma criança renitente.
25.10.03
21.10.03
16.10.03
adriana
sublinhei os teus passos com os meus passos. era a areia e eu fazia um exercício de focalização em pôr os meus pés exactamente na areia onde os teus pés acabaram de fazer uma marca. e, concentrado em seguir-te, esqueci-me de mim. e senti que, por breves instantes, com um atraso de décimas de segundos, eu habitava o teu espaço. e o teu espaço eram conchas que faziam um barulho crocante ao serem pisadas. e havia o barulho ondulatório do mar. com ecos domesticados de tempestade. e um crepúsculo de tangerina, espalhado pelas auto-estradas de cirros e por cima das nossas cabeças.
14.10.03
8.10.03
7.10.03
6.10.03
aniversário
desnovelo a estrada de carro. confortável. depois do aniversário da minha irmã. através do penedo, do pé da serra, por entre quintas adormecidas, carvalhos, canaviais, constelações e árvores-sombra.
as estradas vazias. a tranquilidade. a afectividade. a amizade. os muros. as curvas. os altos e baixos. a plenitude.
as estradas vazias. a tranquilidade. a afectividade. a amizade. os muros. as curvas. os altos e baixos. a plenitude.
4.10.03
transubstanciação
ando ultimamente a ser habitado por outras pessoas. e agora tenho a cabeça pesada. tão pesada como se o coração fosse parar. ou como se a força de gravidade tivesse aumentado o tamanho das pedras.
2.10.03
1.10.03
30.9.03
26.9.03
jangada
os ossos como se fossem pedras, a boiarem dentro do corpo, mergulhados no sangue, aquário de vida.
25.9.03
sextante
um rio de aço serpenteia entre as colinas. contornando os cumes, afundado nos vales, tentando desaguar na felicidade.
24.9.03
21.9.03
depois da pele
uma biografia de juncos, o encéfalo a esvaziar-se, os joelhos do pensamento esfolados, uma casa porque.
20.9.03
reflexão
o homem sempre olhou para cima. para o céu e nele pensou em deus. na tentativa desesperada de se livrar da terra, do chão, do húmus, que através do pó o puxa para baixo. somos matéria que se levantou do chão. lama que caminha pela terra... enfim, mas isto já não é nenhuma novidade.
bucólica
no campo, toda a gente sabe, tem que se tomar muito prozac. senão ainda se acaba pendurado pelo pescoço na puta da oliveira.
18.9.03
inocência
por vezes pergunto-me quem seriam os tão famosos nazis. não seriam os alemães, concerteza, porque uns obedeciam a ordens e os outros eram artistas.
12.9.03
comunicação
entre o que dizes e o que eu digo existe um animal vivo, uma torrente semântica entre duas bocas. que não pertence nem a mim nem a ti. que só existe quando estamos juntos mas que nenhum controla. desenvolve-se no tempo. vai por caminhos pedregosos, penhascos, e senta-se ao pé de grandes avenidas francesas, para ver passar a razão e a geometria. (...) entre o que dizes e o que eu digo há um animal vivo que é o discurso, que não tem rédeas em ninguém. é como se fosse outra pessoa. (...) sempre que abrimos a boca sai de lá um fantasma. tu estás aí mas eu não sei quem és tu.muito menos esta massa de palavras-organismo que se acumula entre nós.
9.9.03
outros crustáceos
uma depressão de moluscos, uma falésia a desfalecer. o medo incrustrado nos crustáceos. nas cascas das árvores. na multidão de sombras que sussurram pinheiros. um vazio como a remoção cirúrgica de uma massa. o sangue coagulado. à espera. e o frio que atravessa os movimentos. o frio das cartilagens. os sulcos profundos nas falésias. como olheiras de uma noite mal dormida. o inchaço da fronte, que se desdobra em atenção à escrita. o sussurro doce de duas adolescentes que chilreiam baixinho sober rapazes, enquanto o mar enorme, por trás, se teratraliza.
já aconteceram muitas coisas neste sítio, aqui. coisas das quais perdi a memória. ou já não quero saber. ou nunca reparei. ou então ribeiros de charcos e marmotas. e eu amo estas pedras, este embaciar de lua, este esqueleto estiramento. eu amo estas ervas e o nome que não sei delas. e o sal em suspensão no ar e no mar. e o meu coração que se expande, que transvasa para o externo e para as costelas. como uma angina de peito. ontem pensei, seriamente, que ele ia parar. hoje debruço-me sobre a escrita, do parapeito da humidade atmosférica.
- não te embebedes outra vez- disse ela- senão amanhã tás o dia todo mal disposto.
sim, não me embebedo. vou ficar apenas aqui, com o meu cansaço e com o meu conforto. com o mar em frente. com o seu motor ondulatório a fazer o barulho constante. fico aqui sentado. na esplanada sobre a falésia. a brincar com as minhas gengivas. estes cedros são solenes. alinhados de encontro ao muro. uma gaivota piou na escuridão. tentando provavelmente sair do núcleo da noite. eu tou entregue à minha solidão. uma solidão calma, rasgada de espáduas. dormentes pelo esforço de acasalar. sim, não me embebedo, tou apenas a beberricar um sumo sozinho. numa esplanada nocturna, sonâmbula e vazia. rodeado pela minha amiga misantropia e pelas minhas muralhas. a contemplar da torre de menagem a grande noite... a noite de alguma ternura e vazio.
já aconteceram muitas coisas neste sítio, aqui. coisas das quais perdi a memória. ou já não quero saber. ou nunca reparei. ou então ribeiros de charcos e marmotas. e eu amo estas pedras, este embaciar de lua, este esqueleto estiramento. eu amo estas ervas e o nome que não sei delas. e o sal em suspensão no ar e no mar. e o meu coração que se expande, que transvasa para o externo e para as costelas. como uma angina de peito. ontem pensei, seriamente, que ele ia parar. hoje debruço-me sobre a escrita, do parapeito da humidade atmosférica.
- não te embebedes outra vez- disse ela- senão amanhã tás o dia todo mal disposto.
sim, não me embebedo. vou ficar apenas aqui, com o meu cansaço e com o meu conforto. com o mar em frente. com o seu motor ondulatório a fazer o barulho constante. fico aqui sentado. na esplanada sobre a falésia. a brincar com as minhas gengivas. estes cedros são solenes. alinhados de encontro ao muro. uma gaivota piou na escuridão. tentando provavelmente sair do núcleo da noite. eu tou entregue à minha solidão. uma solidão calma, rasgada de espáduas. dormentes pelo esforço de acasalar. sim, não me embebedo, tou apenas a beberricar um sumo sozinho. numa esplanada nocturna, sonâmbula e vazia. rodeado pela minha amiga misantropia e pelas minhas muralhas. a contemplar da torre de menagem a grande noite... a noite de alguma ternura e vazio.
dedicação
sonhei que a minha namorada ficava sem um braço. e que eu arrancava o meu para substituir o dela.
5.9.03
o príncipe no bairro alto
toda a gente pensa que quando tem uma garrafa na mão tem uma arma. no entanto raros experimentam parti-la. ela "não" parte. é muito mais difícil partir o raio do vasilhame do que depois de partida enfiá-la na cara dos anormais.
4.9.03
nietzche e o xadrez:
- por vezes é imperioso espetar com o tabuleiro de mármore no cérebro do adversário quando este faz gambito.
3.9.03
ghetsmani
amanhã vou ser executado. os apóstolos dormem. não sei se sou mesmo deus ou não. mas acontecem mesmo estes milagres pelas minhas mãos fora. mas dai até ser mesmo deus não sei. tou inseguro. como é bela, grande, esta noite cheia de estrelas, com o suave calor da judeia. apetecia-me mesmo ir dormir. como os meus amigos. mas não consigo deixar de pensar no martírio. e se deus que sou eu não existe e não me salvo? não sei se seria apenas pelo exemplo como homem. isso não me chega. (...) a cruz erguer-se-á comigo espancado. e cada que passo que der com ela às costas será uma confirmação de tudo o que tenho pregado. estranha maneira de provar que sou quem sou. e se me faltam as forças para levar isto até ao fim? será que vou ter coragem?, mas que grande e viva abóboda celeste por cima de mim, que se agita com o vento das oliveiras. (...) amanhã já aqui não estou. será que vou vencer todo o sofirmento que me espera? será que venço mesmo a lei da morte como os profetas disseram? e se não for mesmo eu e for outro. tenho medo que me possa ter enganado. e seria apenas mais um com dons curativos. (...) amanhã ou tudo se confirma ou então serei abandonado e esquecido.
2.9.03
ressacar
de vez em quando tenho a cabeça tão estragada que parece que tou a cozê-la ao sol do tarrafal.
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