19.3.04

o meu coração remexe-se
estica os seus braços
como se se espreguiçasse

bate como um arquipélago
através das costelas
bombeando
caixas e caixas de sangue.

e a serpente mexe-se
como algo obsceno
e divide a erva em duas.

14.3.04

e os mortos espalhados pelos combóios, como estrofes partidas. alguns ainda sentados nos bancos, a olharem espantados através de ferros retorcidos, à espera que os socorram.

10.3.04

está a chegar a primavera, e com ela as flores e as mulheres cada vez mais bonitas, os dias grandes como naves de catedrais, a alegria. o calor. as cores e a vida ficam mais intensas, e com elas a vontade de me mutilar outra vez.

6.3.04

gostava de conhecer aquele lado, talvez. a água é funda, de uma profundidade metálica. as ondas marulham no molhe, com uma calmaria melancólica, de águas magestosas que descem em corrente.
cheira a maresia e do outro lado há um outro molhe, uma parede de betão suja pelos anos, gaivotas mudas no espaço, o motor de uma traineira ao longe, o céu pesado, nuvens mumificadas, estáticas de nostalgia. o céu como uma bifurcação irreversível.
foi já uns anos que essa possibilidade foi deixada para trás. mas eu explico melhor, assim com uma imagem: gostava de conhecer aquele lado, talvez, aquela margem ali, com as suas dunas e pássaros (passa uma lancha no meio da ria, a ondulação bate na muralha de pedras como um velho cargueiro a arrastar-se na água, um peixe salta, quebrando a monotonia).
gostava de conhecer aquela margem, talvez. mas penso que é melhor ficar deste lado e não ir passear pelas dunas e molhes, arbustos e pássaros daquele lado. se fosse à outra margem ficaria a saber como ela é. prefiro ficar por aqui, a pensar que aquele lado direito do rio é melhor que este lado esquerdo.
sei que quando conhecer aquelas terras além vou ficar desiludido. prefiro não ir. não me mexer. não quero saber. e consigo imaginar aquelas terras além muito mais poéticas do que estas.
e os faróis do porto, e os reservatórios de gás brancos e esféricos, e os reservatórios de crude cinzentos e cilindricos, e os guindastes, e as construções marítimas, e a profunda melancolia do céu encoberto e disto tudo. o céu nublado lembrando uma rapariga que se afogou no rio uns anos atrás. uma rapariga linda e que hoje já quase ninguém se lembra dela.

28.2.04

a lua levanta os seus cornos da água. e refulge em todo o seu esplendor doente. a luz horizontal na água. a água perpendicular ao seu olhar. um cancro no céu a comer as estrelas. a levantar os seus cornos metástases. a marca desceu sobre ele tatuado como um ferro quente. e a lua com a sua luz nocturna, com as suas sombras paludismo e enferrujadas. ele aguardava esta espécie de sinal para se levantar da sua morbilidade e pôr-se a caminho como um pôr-do-sol. a lua a levantar os seus cornos na água, com o sorriso saturno ao longe, por entre cadáveres de árvores e a hulha húmida. e a marca aparece para sempre, tautando a sua maneira de ser, acrescentando a si os elementos, uma respiração toráxica, um gesto por cima do braço,
e fica a olhar apático para um deus a apodrecer calcáreo, com a cabeça partida, no canto de um jardim abandonado, e as ervas daninhas, e as latas, e os plásticos, e o lixo a crescer por entre as ervas.

24.2.04

o mar protege-se, no fundo.
ecos de vozes femininas, e cantares do tamanho de anémonas, flutuam em flocos na superfície, como flocos de espuma, ou o pólen dos pinheiros a apodrecer nas poças de lama.
vozes encalhadas nos sargaços, através de todos aqueles metros cúbicos de água homeostática, através de toda aquela levitação de cabeça para baixo, e o azul debaixo de água, nem é bem azul, apenas aquela concha de luz em cima é o sol.
e o segredo. e o silêncio.
e a neurastenia de nunca lá chegarmos. de nos irmos afogar ao procurarmos a verdade. durante toda a vida. a procurar um ponto a partir do qual tudo faça sentido.
e o fundo do mar é impossível.

17.2.04

círculos só na mente
sítios de folhas,
e de húmus

sítios só na morte
trepidações tectónicas
dentro da cabeça

planícies vazias, oxidadas
pelo vento e pelas vedações
propriedades abandonadas
a terra de chumbo apenas coberta
por líquenes e vestígios
vegetais

e fausto desaguava
sem resistência
pelos cotovelos
do rio de heraclito
abaixo.

11.2.04

fármacos fagocitados,
a felicidade existe,
é elaborada em laboratórios
os batas brancas trabalham
para nos salvarem
da morte

apetece espiar casas com gente ausente,
apetece entrar em quintais alheios
e vazios, janelas para quartos,
e remexer as salas de moradores episódicos
e as estantes e os papéis e os livros

e quando acabar de tomar esta caixa
de comprimidos
vou ser muito muito feliz
e vou estar curado

7.2.04

e sim, sonhei com tranquilizantes. e foi bom. sonhei que era um muro de musgo. cujo caroço eram pedras amontoadas, pedras cinzentas, sujas de erosão, e de humidade, e isso era ser obviamente, floresta.
posso ter alguns membros amputados que isso não faz com que eu deixe de ser uma floresta.

29.1.04

procurar as grandes pedras na floresta, as grandes pedras redondas que estão cobertas pela chuva da floresta. e entrar dentro do granito. e dormir cristais.

23.1.04

preciso de conquistar os desertos, para me esconder debaixo das estrelas

21.1.04

enfim...é preciso, sem dúvida, beber muito. é preciso beber com determinação, como se houvesse um abismo por dentro que fosse preciso naufragar. é preciso portanto beber muito, e depois entra-se em coma. e depois está tudo acabado.
e isso não é uma morte dolorosa.

20.1.04

ser e tempo

por vezes a floresta não é um monstro. com lagostins nas suas raízes, as árvores submersas, todo um ecossistema da salvação, com a sopa da humidade e do húmus, e peixes voando por entre as copas. por vezes a floresta não é um monstro, mas tão só o labirinto que precisamos de resolver, esses fungos e musgos antropológicos, que pintalgam a casca das árvores. e os cogumelos a espreitar venenosos através da podridão, com o seu ar frágil e esfíngico. e a morte, e as mais raras visões do universo.

19.1.04

isto não foi hoje

um espaço em branco, que não foi quando se escreve, as minhas mãos, o cimento despejado é na aorta, essas bombas coronárias que fluxo, que correr no areal plano, polido de vento, e de chuvas. a correr com o fôlego pneumonias. o torso da serra, deitado na catástrofe, aqui houve um vulcão, de quem está no guincho a ver a serra, vamos ter de morrer outra vez, parece-me. enquanto o vendaval se eleva trapos e plásticos pelos ares. e a maresia resfolega ansiedade, e as ondas gigantes remoinham junto à costa. nada se consegue e é tudo muito triste. apesar de continuar a correr, a fazer jogging, num frio cortante e em céus nietzchianos.

17.1.04

em alturas que bebo muito alcóol tenho medo de dissolver os ossos num cancro.

16.1.04

sifões onde se segregam crustáceos. uma espécie de fogo ou de caçada, labirirntos e caves, sempre os labirintos, sempre as caves. caves casas, desabitadas, com ainda um cheiro de humanos agarrados às paredes e aos objectos.

15.1.04

a linha do combóio, juntando-se no ponto de fuga
a certidão do cansaço nas cervicais
as olheiras empobrecidas
o olhar
vazio

12.1.04

às vezes penso que o infinito também tem os seus próprios limites

10.1.04

pater familias

tenho andado a reler assim falava zaratustra. faz-me lembrar os meus sobrinhos quando estão mais desatinados, carentes, desorientados, com a mãe neurótica, inseguros, agressivos.
coitado do nietzche, também era infeliz, por isso andava sempre zangado e revoltado. eu gosto muitos meus sobrinhos. e do nietzche também.

narcismo

agora gostava de ter alguma coisa para escrever aqui. alguma coisa que depois me dissessem que tinham gostado.