30.11.03

interferência

temos que a geometria, temos que deus. temos que a explicação para tudo, através deste cigarro, outras combustões, por exemplo na sala. onde deixeia a nostalgia e o esquema de ser tudo. eu quando penso nisto muito tanto. no meio do meu quarto. um lago profundo e a profundidade de coisas lá dentro. vou-me afogar.

25.11.03

imaturidade

por vezes apetece-me tanto atirar-me das escadarias abaixo, para mostrar o visceral desprezo que sinto pelas pessoas.
no meio das pessoas só me apetece gritar ou cortar a garganta

cidade

uma crosta de construções cobre a crusta da terra

19.11.03

aparição

um cavalo a remos atravessa o templo do tempo. as ondas são de mármore líquido.

16.11.03

antes do solstício

o inverno é brando nestas latitudes, no entanto é o suficiente para me congelar a alegria e a vontade.
...

10.11.03

a chuva e o fogo

oiço a chuva. ela está por todo o lado. deitado no colchão sempre no chão que é onde se dorme junto ao espírito da terra. ontem bebi, mas hoje sinto-me bem. é de noite. domingo. e passei o dia todo a dormir. e a ler quando acordado vergilio ferreira. e sinto-me bem, protegido, sem me faltar nada. e é por isso é que a esperança existe. é porque de facto, de vez em quando, as pessoas melhoram. no entanto a minha namorada e que tem qualquer coisa de sibila, acha que ando esquisito. não mais que o habtual meu amor. não mais que o habitual.

8.11.03

penedo

de vez em quando passo no portão da casa dos teus pais. nunca entrei lá. mas tive uma vez nos teus anos numa casa que dava para a sé de lisboa. o teu quarto era cheio de coisinhas, budas, incensos, amuletos, panos étnicos. e tinhas uns olhos lindos e uma magreza que só mais tarde é que percebi que era esculpida pela heroína. e tinhas aquele ar vago, ausente, de quem se dedica a esoterismos. e eras uma personagem que despertava uma certa curiosidade. e depois morreste. só o soube umas semanas depois. gostava do teu ar frágil, talvez isso me despertasse instintos de protecção. mas sendo sincero não posso dizer que tenha sido muito afectado pela tua morte. mal te conhecia. mas sentia e continuo a sentir simpatia por ti. nunc ative por ti apaixonado, como faz querer parecer o contexto desta conversa. mas sempre que passo na estrada que vai para o penedo, e passo à frente da casa dos teus pais, lembro-me de ti. e fico sempre a tentar recordar o teu nome que esqueci. faz tempo que morreste. talvez dois ou três anos.

7.11.03

crase

falésias disfóricas, com velhos desdentados à janela.

6.11.03

os deuses do sol

recebe os ossos através do sol, as costelas do aço, o levantar de um deus ou de um monstro no céu, o incêndio que atravessa o anfiteatro da cidade. as tuas mãos penduradas de lado, enamoradas pelo estrangulamento.

2.11.03

átrio

quando passo por este átrio lembro-me, de vez em quando, de um anónimo que se atirou lá de cima e se estatelou neste chão tão duro e tão asséptico.

31.10.03

zigurate

oiço vozes que insistem em chamar-me radiactivos carbono catorze. os mortos têm inveja de mim. querem que eu volte à matéria inanimada de onde saí. à matéria inanimada e imóvel. e tá-me tanto a apetecer beber uns copos para esquecer esta realidade.

30.10.03

ipsílon

hoje vi o ipsílon a pedir na estação. já foi o que se pode chamar, mais ou menos, um amigo. enfim, de copos e de boémia... é impressionante como a doença psíquica pode vir a afectar qualquer um de nós. podia ser eu no lugar dele. no entanto evitei-o e não lhe falei.

29.10.03

percorremos as pequenas avenidas, com arbustos pequenos, que geometrizam a natureza. e aquilo deu-nos um fôlego extra para pensar. a natureza tinha sido encaixotada num régua e esquadro. e assim é que estava bem, corrigida e racionalizada. porque a natureza finge que não quer seguir as leis da matemática, e deve ser forçada a isso como uma criança renitente.

25.10.03

pupila

por entre olhos e flores, a catástrofe a olhar o rosto de outra catástrofre.

21.10.03

tundra

a imaginação congelada. e uma ferida a coagular.

16.10.03

adriana

sublinhei os teus passos com os meus passos. era a areia e eu fazia um exercício de focalização em pôr os meus pés exactamente na areia onde os teus pés acabaram de fazer uma marca. e, concentrado em seguir-te, esqueci-me de mim. e senti que, por breves instantes, com um atraso de décimas de segundos, eu habitava o teu espaço. e o teu espaço eram conchas que faziam um barulho crocante ao serem pisadas. e havia o barulho ondulatório do mar. com ecos domesticados de tempestade. e um crepúsculo de tangerina, espalhado pelas auto-estradas de cirros e por cima das nossas cabeças.