15.3.08

exercício de diagnóstico




a poesia é um sintoma, não a doença

a fragilidade do corpo em ansiedade

o mundo é cada vez mais uma auis raris

os gestos foram riscados do mapa

é tudo tão difícil, tão difícil...



o mundo despreza as pessoas

um ninho de ovos, crianças podres

o rosto a torcer-se em psicose

homem escolho derrubado com gritos

o coração é uma caverna convulsa

as paredes pinchadas de sangue



dar de comer lenha ao fogo

morfologia de monstros e de micróbios

o mundo não tem interesse nas pessoas



as comissuras da boca em desânimo

a traqueia estrangula-se de depressão

dantes não era tudo tão negro

já nem me lembro da vida

é no silêncio que o terror rebate o eco

o sol enferrujou no horizonte

e amanhã recuso-me a acordar


12.3.08

les villes tentaculaires



muros sujos com dizeres
embriões de cimento, cadáveres de ferro
mendigos avulso pelo chão
automóveis acidente vascular cerebral

janelas de ansiedade, telhados de eczema
tijolos com o cimento da paranóia
muros dividindo áreas mutantes
a barriga do esgoto esnavalhada
opressão na malha urbana

cérebro labirinto em malha viária
rótulas de cimento escancaradas
postes de alta tensão, andaimes,

centros e periferias
baldios suburbanos e torres
vertigens arquitectónicas e poder
formigar nas ruas emparedado

vizinhos-telescópio e relatórios
volumes projectados dramaticamente
doença pós-industrial generalizada
cancro urbanístico e os brônquios

os taipais das obras
a minha revolta

3.3.08

free jazz



trompetes a patearem gritos

relógio gigante com segundos maiores

batuque rolamento

miado rosnado como chicote


piano hertziano

aplausos com fumo

incoerência, escudo, uma posição

grande vitalidade e velocidade


palmeiras esquizo-acústicas

os músculos em ansiedade

uma imagem da melancolia (de dürer)

elefante-pandeireta no palco

suavemente labirinto-memória


a ergonomia de quem está a escrever

una tonteria

uma cápsula no espaço-tempo

armadilhas e dualidades


uma grande revolta no horizonte-mar

choques entre instrumentos

e a descida em carris de ferro.